Hoje é meu aniversário

Desperto no chão duro da sala. A boca ressequida, a garganta seca, o corpo cansado e os olhos — confusos e vacilantes — vagam pelo pequeno comodo, e ardem se espremendo com a luz forte do Sol que entra pelas frestas da janela. No relógio da parede já são 14:05. Tento me levantar, em vão, e o corpo volta com força pro piso sujo. Suspiro. Faço mais um esforço, preguiçoso, e dessa vez num sobressalto coloco-me de pé. Imediatamente levo uma mão a testa por conta de uma dor latejante que surge na cabeça e a outra na barriga, me fazendo tapar a boca forçadamente, impedido que o líquido seja expelido. 
Engulo seco, preciso de água.

No armário não há copos limpos e a pia está forrada de louça suja a dias. Penso em me aproximar, mas é melhor deixar os microrganismos trabalharem em paz — não vai doer em ninguém. Me atenho a não interferir na natureza e deixo ai, como está. Abro a geladeira e nela só há uma fruta estragada, um suco passado e algum tipo de proteína completamente perecido numa vasilha sem tampa. O pequeno ruido que outrora acredito ter ouvido vir do estômago se transformou em enjoo novamente. 
Passou a fome.

Hoje é meu aniversário. Ninguém me ligou como no ano passado (e retrasado), mas ainda é muito cedo pra se sentir insignificante, no decorrer das horas isso se intensifica. Em datas como essas sempre revejo minhas fotos de infância - é meu momento favorito da vida. É nessa época que as coisas mais simples são fantásticas, mas nem se percebe. Como se você estivesse dentro de uma bolha de inocência e os problemas e as circunstâncias da vida estivessem por fora. É o período em que não sentimos a película do tempo, e na medida que vamos crescendo, vai-se desfazendo — como se estivéssemos rasgando um plástico-filme.

O piso frio no box do banheiro me faz enrijecer todo o corpo. A água gelada batendo nas costas, a sensação de adeus ao suor é quase como uma redenção. A cada segundo no banho me sinto mais leve, como se um certo pesar fosse embora para o ralo, junto com a sujeira. Uma playlist dançante ecoa no banheiro, montada detalhadamente para impedir a reflexão forçada que me embala no banho: pensamentos gritantes, desorganizados, incontroláveis. Uma centopeia filhote se arrasta no chão mas é empurrada com a água espumada pra uma das frestas da cerâmica. A playlist que toca agora é chamada “Dias Nublados”. 
Já chega.

Me seco rapidamente e visto a roupa mais larga e confortável que tropeço no chão. Tudo neste comodo aponta para o meu descaço com a vida: os sapatos amontoadas num canto, o resto de pizza em cima da comoda, as roupas espalhadas pelo quarto, os livros aos montes na estante torta - livros esses que se li foi pela metade, como tudo. Tapo o feche de luz que emana da janela com a cortina, deito-me na cama, me cubro com os lençóis.
Fecho os olhos, suspiro longo.

Feliz aniversário.


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