Onde o binarismo de gênero se relaciona com a heteronormatividade?

A partir de uma sociedade patriarcal, machista e sexista, que define por regras sociais o que é ser homem e o que é ser mulher e quais os papéis que cada um deve exercer construímos discursos que reforçam estereótipos, e que se perpetuam à medida que não discutimos sobre o tema buscando desconstruir essa mentalidade que tenta desde que nascemos nos enquadrar em conceitos normativos.

Enxergamos claramente que essas definições se marcam em torno da sexualidade quando tendo sido definido quais são os símbolos, comportamentos e expressões acerca da masculinidade e feminilidade, todas as pessoas que quebram esse padrão passam a receber rotulações que não respeitam a singularidade de cada ser.

Inferir que um homem é gay quando reproduz o que é dito ser papel de mulher — homem que cozinha, que tem apreço por cuidar de casa, homem que é delicado — já nos espelha o quanto é sintomático acreditar que há relação direta ou determinante entre expressões de gênero e sexualidade.

“Numa relação entre duas mulheres, alguém faz o papel do macho?”

É uma pergunta curiosa, que nos que faz pensar até que ponto nós somos ensinados a acreditar que uma mulher só estará completa com uma figura masculina do lado. Levando em consideração a gritante falta de informação sobre diversidade sexual, é importante ser enfática e direta nessa questão. Não, numa relação afetivo-sexual entre DUAS MULHERES não existe quem fará papel de homem e quem fará papel de mulher. Existem duas mulheres que expressam sua sexualidade inteiramente dissociada da necessidade de cumprir papéis. Quem comumente tenta enquadrar papéis são pessoas de fora, que ainda contaminadas com a limitação binária de gênero, busca dentro da relação a mulher “mais masculina” para lhe impor cobranças a cerca de ser a figura com obrigações masculinas da relação. Ou seja, não existem divisões de papéis de gênero em relações homossexuais. O estudo sobre as discussões criadas a cerca do que são “coisas de homem e coisas de mulher” nos revela a construção social existente, que pode ser desconstruída em qualquer orientação sexual.

E quando os estereótipos e preconceitos viram casos de violência e/ou morte?

O patriarcado retrata a mulher como o ser que é desejado, nunca como o ser que deseja. Nesse sistema é conferido ao homem o poder de pertencimento sob a mulher, assim foi construído historicamente que é dever de honra do homem “normalizar” toda mulher que não se enquadre no papel que lhe foi conferido. O que acontece hoje com lésbicas e mulheres bissexuais que se tornam visíveis na sociedade? Estupro corretivo. Que consiste no estupro onde um ou mais homens (geralmente da família) fazem a chamada “penetração corretiva”, pois consideram que dessa maneira a mulher irá deixar de ser lésbica” e “aprender a ser mulher de verdade”. É assustador o crescimento de casos de estupro corretivo e mais assustador é o fato de acontecer com mulheres que não necessariamente sejam lésbicas ou bissexuais, pois estupram mulheres que pra eles parecem ser lésbicas. E nesse ponto voltamos à análise de gênero. O que é parecer ser lésbica? É a mulher que imita as expressões do homem? É uma roupa?

Eu, enquanto uma mulher lésbica enquadrada no que é dito “mulher feminina”, posso “passar despercebida” se não pontuar minha sexualidade, mas uma mulher hétero que simplesmente escolhe se expressar sem seguimento de padrões e que, por exemplo, encontre numa roupa ou numa expressão de gênero dita masculina uma forma de externar sua singularidade, pode ser encaixada no estereótipo construído de que uma mulher lésbica tenta ou precisa se aproximar do masculino e logo também se torna vítima de estupro corretivo. Mulheres sendo cruelmente violentadas unicamente por PARECEREM lésbicas? Sim! Isso mostra o quanto é urgente e necessário desconstruirmos essa necessidade de rotular, de achar que existe “coisas de homem e coisas de mulher” e que a quebra desses padrões implicam na sexualidade das pessoas. Tão urgente também é a necessidade de reconhecer a raiz do problema, a homofobia. Até hoje temo pontuar minha sexualidade quando homens em determinados espaços fazem “investidas”, pois paira a possibilidade desse homem se achar na obrigação de “me tornar heterossexual”. Seria o caso de invisibilizar minha sexualidade? Acredito que não! A visibilidade é a nossa maior arma, é somente a partir dela que poderemos lutar pela desconstrução desses sistemas que há tantos anos vem desumanizando as mulheres.

Por que entramos e muitas vezes saímos da universidade com tanta falta de conhecimento sobre essas temáticas?

Muitos(as) psicólogos(as), professores(as) e pedagogos(as) e outrxs profissionais da educação escrevem como pauta no PME (Plano Municipal de Educação) o ensino de gênero nas escolas, para tratar de temas como diversidade, preconceitos de gêneros, direito da mulher, falar sobre pessoas que abandonam a escola por sofrerem violências, assuntos que proporcionariam a formação de cidadãos(ães) conscientes e não futuros agressores, futuras pessoas intolerantes, porém a inserção no plano da simples palavra gênero que propõe entender as particularidades do que é essa palavra, as particularidades da identidade de gênero e da sexualidade que é diversa e existe e é tão importante para o crescimento das pessoas vem sendo retirada dos PME’s, e com isso sendo retirada a chance de se ensinar o respeito e a empatia desde a escola. E dessa forma pessoas chegam à universidade sem praticamente nunca ter contato profundo com as temáticas, impossibilitando o rompimento das tantas problemáticas devido à falta de uma educação inclusiva.

Nosso silêncio não nos salvará, já disse Audre Lorde e por isso minha necessidade de compartilhar minha vivência sobre o tema. E é também um convite para cada um e cada uma buscar em si quais preconceitos estão instalados por essa mentalidade patriarcal e sexista que nos foi e nos é ensinada. E a partir disso, buscar construir pontes para uma maior compreensão sobre a diversidade e singularidade de cada ser. Ouvir quem vive uma realidade diferente da sua, é o primeiro passo para essa nova construção!

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