Lost: Minha experiência de ver a série 5 anos após seu término.

Nunca assisti a um episódio sequer da série e mesmo sabendo do final, resolvi dar uma chance a ela.

Lost não é uma série, é uma experiência de vida.

Isso é o que quem viu Lost na época em que se passava na TV define o programa, depois de assistir todos os episódios, confirmo esta afirmação e inclusive sinto um pouco arrependido por não ter visto a série durante a época. Desde sempre, havia subestimado o programa, alegava que era um show barato de pessoas que sobreviviam em uma ilha, mas só após 5 anos depois de seu término, resolvi dar uma chance, comecei a assistir e percebi o quão errado eu estava.

Lost é sem dúvidas uma das séries mais revolucionárias de todos os tempos, foi com ela que fez com que essa mídia elevasse no nível de produção, não que não já tinha séries muito bem produzidas como The Sopranos por exemplo, mas depois de Lost o nível de investimento foi aumentando.

O timing é outro fator decisivo para o sucesso da série, ela surgiu em um período onde a internet estava começando a ficar mais rápida, barata e acessível para o grande público. Com o advento dos fóruns e das redes sociais, ela começou a ser bastante e falada, claro, não podemos esquecer também que Lost cresceu e ajudou a crescer com a pirataria, foi nesta época que deu-se início ao ritual de um dia após passar o episódio pela TV, correr para o computador e baixá-lo.

Como uma coisa leva a outra, também começaram a surgir os primeiros grupos que legendavam os episódios e disponibilizavam na internet. Era de “praxe”, passava o episódio nos EUA, na mesma madrugada várias pessoas legendavam o episódio e logo de manhã você já tinha tudo pronto. A série também fez sucesso na TV aqui, passou nas emissoras da Globo e AXN, o problema é que não era igual hoje onde no domingo sai um episódio de The Walking Dead e na terça-feira já tinha o episódio todo dublado, levava-se um tempo para sair a dublagem, então muitos optaram pelo legendado e logo começou essa “febre” de consumir conteúdo legendado ao dublado.

Para complementar o sucesso, ela passou durante o período onde se ainda alugava DVD’s, então havia muita gente que via a série pegando na vídeo locadora ou comprando mesmo o box.

Agora falando sobre a trama em si:

Ela é bem simples, um avião cai em uma ilha misteriosa e um grupo de pessoas tem de sobreviver a ela. Mas o que tem de tão especial nisso? O grande trunfo da série é que a ilha é o personagem principal, ela tem vida e é cheia de mistérios.

Seu piloto é o mais caro já feito pela televisão e logo nos primeiros minutos você já fica viciado e muito curioso para seguir em frente na história. Você já se pergunta “o que é aquilo? ”, “o que isso significa? ” e “porque aconteceu isso? ”.

A melhor cena inicial de série já feita!

O fato de eu me arrepender de não ter visto a série na época, é por conta de não poder discutir muito sobre a obra em si, que é a melhor coisa de Lost, queria muito chegar um dia após o lançamento do episódio poder ter ido à escola, trabalho ou fórum na internet para poder conversar a respeito. Felizmente, pude experimentar essa sensação com True Detective. Game of Thrones é hoje a série mais popular e discutida, porém por ser algo baseado em livros, você já sabia boa parte do que iria ocorrer, com essa nova temporada da qual se distanciou dos livros, a série está sendo mais discutida e badalada, mas não é nada no nível que foi Lost na qual você analisava todas as cenas detalhadamente e ficava horas conversando sobre mistérios, teorias e revelações.

A abertura mais simples de todas as séries porém a que já diz o suficiente sobre ela.

Além de ter uma ótima trama que te prende bastante, ainda tem um núcleo de 14 personagens onde todos (ou quase) são bons personagens e com o passar dos episódios você acompanha o desenvolvimento de cada um deles na ilha. Ter vários personagens no que quase todos eles são bons e você se apegar a cada um deles é algo muito difícil, as únicas séries a conseguir realizar isso além de Lost foram três séries da HBO: The Sopranos; The Wire e Game of Thrones.

Cada episódio era focado em um personagem e com isso haviam flashbacks da vida dele(a) antes de estar na ilha, esse passado era para dar profundidade ao personagem e para fazer alguma relação com algo que está acontecendo com ele(a) naquele momento na ilha. O programa é muito bom no que se trata de fazer você pensar em algo e depois te surpreender com a revelação.

A primeira temporada é focada na ilha e sobre seus sobreviventes. Nela vemos os primeiros mistérios como o urso polar, Adão e Eva, Lostzilla e a Rosseau, também temos nossas primeiras impressões conhecimentos sobre os personagens, Jack é o médico e o líder; Kate, a aventureira; Sawyer, o anti-héroi; Locke, o caçador que acredita na ilha; Sayid, o soldado; Claire, a grávida; Charlie, o viciado; Hurley, o “gente fina” entre outros.

Se na primeira, a protagonista é a ilha, na segunda temporada, a protagonista é a escotilha, logo na primeira cena a série já te faz explodir a cabeça, isso se repetiria na terceira temporada. Na segunda entraremos a fundo na paranoia da Dharma, da fumaça preta, dos outros e claro, dos famosos números.

Quem é fã nunca esquecerá destes números.

A terceira temporada teve um foco nos outros, a quarta sobre o resgate, a quinta sobre a Dharma e a sexta temporada sobre o Jacob, com o passar dos episódios vemos os personagens cada vez mais sendo desenvolvidos chegando em um momento onde alguns deles se tornam muito diferentes dos que eram quando chegaram a ilha e isso é muito bom, pois você percebe que a história está avançando.

Aquele momento em que explodiu a cabeça de todo mundo.

Esta série é também foi a que mais “conversou” com seu público, havia um podcast oficial da série, sites que expandiam aquele universo, jogo, o livro Bad Twin e Lost foi uma das, se não a primeira série que investiu sua divulgação na Comic Con, o que hoje é bastante comum ver séries tendo um grande espaço no evento, naquela época era novidade. Havia também diversos momentos da série onde era o mais puro fan service, nestes momentos haviam um diálogo entre personagens sobre eles mesmos ou sobre algum fato que está acontecendo na ilha, temos por exemplo o fato da personagem da Kate ser chamada pelos fãs de Super Kate, pois ela estava sempre pronta para uma aventura e isso foi dito na série, tem o fato deles sempre formarem uma “panelinha” e também o Hurley e Miles discutindo viagem no tempo como dois fãs da série discutem na vida real.

Para ainda exemplificar essa febre por Lost, a série faz muitas referências a outros livros, filmes, músicas e principalmente a Mágico de Oz e Star Wars. Era cheio de easter eggs, fazia várias alusões a religião e a ciência, nos flashbacks haviam várias ligações entre personagens, anagramas, empresas envolvidas e diversas aparições dos números.

Quem não queria ser amigo do Hurley e do Charlie?

Não podemos também não citar o final mais polêmico da televisão, todo mundo esperava respostas e tinham grandes expectativas, porém não foram correspondidos e se sentiram traídos, tanto que hoje Lost é lembrada com desdém por muitos.

Eu assistindo o final digo que não odiei, na verdade até gostei e isso se deve a dois motivos, o primeiro deles é porque sou uma pessoa que dá mais valor aos personagens do que a história em si e nesse aspecto, a série não decepciona, porque ela faz toda uma jornada de evolução dos personagens e fiquei satisfeito com isso e o outro motivo é que não criei tanta expectativa, já sabendo um pouco como iria acabar, então graças a esses motivos, fiquei “anestesiado” e pude analisar os fatos mais friamente. Para as pessoas que se importam mais com a trama, realmente a série deixou a desejar, deveria sim ter entregado mais respostas, não precisavam ser todas e sim as principais, porém o problema não é o final, mas toda a sexta temporada, eles poderiam ter respondido tudo ao longo dos episódios, mas quiseram enrolar e quando chegou a hora de finalizar, já não tinha mais como amarrar todas as pontas soltas.

Mesmo com uma última temporada que deixou a desejar, mistérios não resolvidos e final polêmico, Lost é uma série em que adorei assistir, que mais me viciei, me apaguei bastante aos personagens, aos mistérios e toda mitologia desta série. Acho que vale a pena sim ser vista depois de seu término, tanto que entrou na minha lista de séries preferidas.