True Detective: Dossiê da primeira temporada (Parte 5)

Análise em detalhes da melhor série policial dos últimos anos.

Parte 1; Parte 2; Parte 3; Parte 4.

A matéria deste texto será referente ao episódio quinto intitulado de The Secreto of All Life, pessoalmente, este é meu episódio preferido da primeira temporada. Demorei para publicar este texto pois havia outras ocupações e não pude continuar com o especial da análise da série, porém aí está.

No quarto episódio, o foco era em torno da vida dupla de Marty e Rust e que essas vidas duplas iriam se colidir, Hart com o seu adultério e Cohle com seu passado de agente infiltrado, neste processo cada um passaria se tornar mais próximo do outro, realizaram um processo ilegal para avançar no caso e na mentira que contam oficialmente.

O episódio quinto começa com o avanço dessa ilegalidade dos dois, Rust Cohle entra em contato com o mediador do Reggie Ledoux, chamado DeWall Ledoux, que desconfiado, recusa a proposta e Chole, em carros separados com Martin Hart, seguem DeWall.

Ambos conseguem chegar ao “covil inimigo”, galhadas, armadilhas e armadilhas de diabo estão espalhadas. Durante os eventos de 1995, vemos Rust e Marty adentrando o lugar cuidadosamente e pegarem os meliantes totalmente desprevenidos, no entanto isso é totalmente o oposto do que eles relatam a Gilbough e Papaina, depois é revelado o porquê.

Apesar de serem diferentes e falarem de forma totalmente diferente durante o interrogatório, quando se trata deste evento em 95, ambos descrevem semelhantemente o que “aconteceu” no momento em que mataram Reggie Ledoux. De acordo com a descrição de ambos, ao chegarem no local, os dois traficantes já avistaram os dois e começaram a atirar, enquanto Marty deu a volta e deu um tiro no Reggie. Enquanto ambos falam isso, a tela nos mostra o que aconteceu de fato e da forma como eles maquiaram isso e guardam este segredo pelo resto da vida.

Estátua vista no final do episódio.

Vale a pena ser comentando sobre cada tatuagem do Reggie Ledoux. A primeira listada é a mais enigmática, é a imagem de um homem de cabelo encaracolado com as duas mãos em posição de oração. A maioria da galera pensa que é uma foto do Matthew McConaughey antes de fazer a série, como se fosse um easter egg, ou uma piada interna, mas essa ideia é muito improvável. Há teoria de que seja uma imagem de Lúcife, já que ele tem outras tatuagens de cunho satânico como o “666” e o pentagrama em suas costas. Ainda fazem uma relação desta imagem com a de uma estátua vista perto do final do episódio, o que é bem provável, entretanto não pode-se descartar a possibilidade de ser sim o Matthew McConaughey ali, pois mais tarde o Reggie fala com Rust.

Eu vi você em meus sonhos…você está em Carcosa comigo !

Nesta cena eles cortaram um pedaço que (sinceramente achei desnecessário) do qual Ledoux fala mais entre esses três pontos da frase anterior:

Eu vi você em meus sonhos. Você é um pastor também, eu sei o que acontece depois. Você está em Carcosa agora.

Você pode ver essa parte neste vídeo de prévia do episódio na época em que se passava a série:

Parte 1:51 do vídeo fala isso.

Considero essa possibilidade remota pois além de Reggie dizer que viu Rust no sonho e o chama de pastor, a forma como Cohle interroga as pessoas é diferenciada, ele faz com que todos confessem seu pecado, como se ele realmente fosse um padre, um pastor, uma figura divina.

Ainda nas tatuagens, a suástica com tentáculos é possivelmente referente ao Hastur, uma entidade que surgiu no mesmo conto do Ambrose Pierce que surgiu Carcosa e ambos mais tarde foram usados por Robert W. Chambers e H.P. Lovecraft.

Brasão de Armas da Alemanha

A forca em seu pescoço poderia indicar que ele já era um homem condenado e que já previu a sua morte.

Há as siglas SWP e AB, ambas são para reforçar seu lado racista pois são associadas a gangues de brancos em prisões. SWP de Supreme White Power (Poder Branco Supremo) e AB de Aryan Brotherhood (Irmandade Ariana). A águia preta na sua costela era um dos símbolos nacionais do país durante o nazismo.

Essa tatuagem no antebraço direito com oito pontas é a que tem menos relação com as demais e pouca relação com a série em si. É um Vegvísir, símbolo mágico usado na Islândia medieval, neste caso, o Vegvísir era para guiar os vikings durante o mau tempo, como uma bússola.

Para finalizar essa parte de tatuagens, Reggie tem uma cicatriz nas suas costas, logo abaixo da nuca, é uma espiral.

Durante a conversa com Rust, Reggie menciona sobre estrelas negras, elemento que consta nas anotações no diário de Dora Lange, na tatuagem da antiga melhor amiga de Dora e a prostituta traficante do segundo episódio.

“em Carcosa. Estranha é a noite com estrelas negras a despontar”

Após Hart matar Reggie e DeWall cair em uma armadilha e acabar explodindo, Rust por um pouco fica catatônico, mas logo vai olhar a situação nos fundos e vê as duas crianças, Cohle já entende o Marty e até achou certo matar Ledoux, mesmo sendo ilegal e logo “arma o circo” e elaborar uma história para não saírem na pior. Lembre-se que antes de ir a narcóticos, Rust já atirou em um homem que estava drogando sua própria filha e foi punido por isso. Apesar de serem diferentes, os dois protagonistas têm uma certa sensibilidade quando se tratam de crianças.

Os dois matam o suspeito e encontram provas que acabou por resolver o caso, uma das crianças metidas em cativeiro está morta, no entanto eles conseguem resgatar uma menina, são recebidos como heróis, Martin recebe uma promoção e Rust uma condecoração.

Neste período entre 1995 a 2002, é mostrado os anos felizes dos dois, Marty consegue se reconciliar com Maggie e reaproximar de suas filhas, enquanto Rust, através da Maggie, consegue arranjar uma namorada do qual passou-se sete anos com ela e quase chegou a casar novamente. Hart e Cohle se tornam grandes amigos e Rust se torna famoso entre os policiais da região por seu método único de interrogatório.

Anos felizes da dupla.

O tempo passa e deixamos de acompanhar os acontecimentos de 95 para descobrir o que ocorreu em 2002 que resultou na separação dos dois. Um cara chamado Guy Leonard Francis é interrogado por Rust, ele matou duas pessoas em um assalto. Em um ato de desespero para ser liberto da prisão, Guy diz para Rust que ele não prendeu o serial killer de 95 e que ele continua a matar, a princípio Cohle debocha do meliante, mas Francis diz uma série de coisas relacionadas ao culto até que menciona o Rei de Amarelo, o que deixa Cohle furioso e retirado à força da sala de interrogatório.

Isso casa com a teoria dita por Rust minutos antes no episódio, de que tempo é um círculo achatado e que os mesmos acontecimentos ocorrem infinitas vezes para sempre, é uma visão de grande pessimismo do qual permeia o Rust. Ele foi novamente a prisão para ver Francis, mas o encontra morto e com os pulsos cortados, seu laudo consta como suicídio a causa, porém é muito suspeito porque ele morreu após conversar com o advogado e sua linha se encontrava em uma área muito afastada do perímetro urbano, no vídeo de vigilância, Guy foi escoltado pelos policiais de sobrenome Childress e Mahoney. Childress é o mesmo sobrenome do antigo xerife que estava vigente no período em que Marie Fontenot desapareceu. Repare então como os Childress’ tem algum envolvimento com o culto ao rei de amarelo.

Depois da morte de Guy, Rust Cohle percebe ele não mudou e que as coisas estão se repetindo como há sete anos atrás. Guy assim como Charlie Lange fala sobre pessoas ricas e importantes fazendo culto a uma entidade chamada rei de amarelo, ele passa de carro e vê a mesma placa que em 95, volta à antiga cena de crime de onde ocorreu o assassinato da Dora Lange, repare que há um tomada do qual o diretor deixa bem implícito, o Rust ficando na mesma posição que a própria Dora diante da árvore e outro detalhe que não vi ninguém comentar nesta cena é de que a música tocada é a mesma durante a cena em que Rust analisa o corpo de Dora.

Cada vez que assisto essa série percebo algum detalhe novo, e isto o torna a série tão espetacular.

E esse círculo achatado que é o tempo em True Detective não deu uma volta só para Rust, Martin passa pelo mesmo processo, enquanto ele fala sobre a maldição do detetive, uma transição de 95 para 02 é feita com Audrey roubando uma coroa de sua irmã e jogando-a na árvore, ficando presa em um dos galhos, sendo claramente uma metáfora a influência que a Audrey sofre da psicosfera em torno da região, a maldição do detetive de Hart é ser um pai ausente a ponto de não perceber o mau que sua filha sofre, igual em 95 e assim como Cohle, Hart nunca mudou.

No segundo episódio, o sogro de Marty comenta que ele viu os jovens e os descreve como pessoas que usam maquiagem, se vestem de preto e são promíscuos, Marty obviamente o ignora e o chama de velho, porém, sete anos depois encontra sua filha na mesma situação e a chama de vagabunda e dá um tapa na cara dela.

Em uma outra cena, no vestiário, Martin encara sua fivela com o título de “All Alround Cowboy” pela universidade. All Alround Cowboy é um título que se dá ao vaqueiro que ganha mais de uma competição no rodeio. Essa tomada tem interpretações diferentes, a primeira delas é de que Marty está relembrando o seu passado, seu período de glória, quando era jovem e um “homem bom”, outra é de que é uma referência a música homônima de um antigo cantor chamado MARTY Robbins, na música, Robbins canta sobre um “all alround cowboy” que encontra uma rainha de rodeio e ela o faz de idiota, o que poderia fazer uma alusão sobre Martin e as mulheres em sua vida.

Para reforçar a ideia de que Audrey é influenciada, Rust durante o interrogatório faz cinco “bonequinhos” de lata de cerveja que se assemelham aos bonecos em posição estranha que Audrey e sua irmã brincavam na infância e cinco homens estranhos montados nos cavalos atrás da Dora Lange no porta retrato.

Perto do final do episódio, Papania e Gilbough revelam o motivo deles interrogarem a dupla, ambos têm fortes suspeitas de que Rust seja o culpado dos assassinatos e tem evidência que indicam isso. Marty a princípio discorda mas depois fica com suas dúvidas, após saber que eles interrogaram Rust antes, Hart ironicamente conclui que foi o Rust que interrogou eles o tempo todo para saber o que eles já tinham. Pode-se observar que durante todos os 5 episódios da série, o Rust em 2012 não revela muito do que aconteceu no passado e por diversos momentos tenta saber sobre o caso atual, até pegar o dossiê e perceber que perdeu tempo. Cohle de 95 só bebia no dia da morte de sua filha enquanto o de 2012 parece acabado e alcóolatra, na verdade ele só bebeu durante o interrogatório pois de acordo com o Nic Pizzolatto, ele fez isso porque a partir do momento em que ele começa a beber, Rust pode alegar invalidade de suas afirmações.

O episódio termina com a suspeita do assassino ser Rust, ele entra na escola abandonada, ainda “batendo na tecla” de que tempo é um círculo, se assemelha quando Hart e Cohle entram na igreja queimada, ambas têm desenhos na parede relacionados a seita oculta e coisas relacionadas ao cristianismo. A última tomada, vemos Rust segurando uma das armadilhas de diabo e analisando como se fosse uma peça de arte, com cuidados, usando luvas, erguendo com uma certa admiração e dando a entender de que ele é o serial killer. A câmera vai se afastando e mostra a parede em volta com desenho de estrelas negras e árvores sem folhas, evidenciando as galhadas.

Estrelas negras e galhos em volta.