A passageira

— Você está no meu lugar, querido.

A voz baixa dela, bem cuidadosa, acordava o rapaz no meio da noite. Ele estava exausto, odeia essas viagens de ônibus. Atordoado com aquele pequeno vulto que o triscava levemente, tentava entender o que estava acontecendo, àquela hora, ali ainda por cima.

— Desculpa, querido. É que esta poltrona é minha.

Ele se desculpa, percebendo que ocupou os dois lugares, numa vã tentativa de fazer os dois assentos do ônibus juntos formarem uma cama. A viagem estava sendo longa.

Perdão.

Meio sem jeito e ainda sonolento, o rapaz se reorganiza e a pequena moça se senta.

— Odeio viajar de ônibus à noite.

— Eu também — responde, incomodado, o rapaz.

— Bem, mas pelo menos vamos dormindo, não é…?

Ele estava dormindo antes de ela chegar e seu plano consistia em continuar assim. Não respondeu à moça, encostou a cabeça no seu assento, fechou os olhos e começou a dormir. Nenhum barulho além do motor do micro ônibus, não era um sono tranquilo, mas pelo menos cochilaria.

Sentiu um peso em seu ombro esquerdo. O rosto dela encostado. Ele tenta se afastar um pouco, mas ela se aconchega ainda mais. Coloca os braços por cima dele. Está preso. E incomodado. Precisa acordá-la, ele se vira para isso, mas, pela primeira vez, a percebe.

Ela é pequena, usa um batom vermelho forte, seus cabelos são curtos e parece ser tranquila. Talvez nem seja. O que será que faz? Por que está viajando sozinha à noite? Ele se ajeita novamente. Não vai acordá-la. Parece que ela percebe que ele desistiu, porque logo junta mais ainda o corpo no dele. Fica tão próxima de seu rosto que é possível sentir sua respiração. Ele mexe em seus cabelos, ela dorme tão bem… Seus olhos se abrem.

Seus olhos se abriram para mim. De repente. Fiquei completamente constrangido. Não sabia o que dizer, apenas retirei minhas mãos do cabelo dela e tentei me recompor novamente.

— Eu gostaria muito que você continuasse a fazer isso. Ou estou te incomodando muito?

Mais uma vez fiquei sem fala.

Mais uma vez ele ficara sem fala, olhou sério e aturdido para ela, que confirmava no olhar que ele poderia ficar à vontade e demonstrava com o corpo novamente jogado em cima dele que ela já estava à vontade também.

Ele então inicia novamente o pequeno carinho que anteriormente fazia com as mãos mais leves ainda nos cabelos lisos e negros dela. Mas, diferente do que ele esperava, ela não fecha os olhos desta vez. Continuava olhando para ele. Era um convite.

Qual era o seu nome? Para onde iria? Por que fazia isso? O que ele deveria fazer?

Os questionamentos que passavam na fração de tempo de um piscar de olhos foram subitamente calados quando ela, notando seu nervosismo e atendendo ao pedido da sua respiração ofegante, o beija suavemente. Eles permanecem assim. A noite toda. Os beijos, os assentos, a escuridão e o barulho do motor.

Pela manhã, a primeira parada, para o café. Ela se levanta e desce do ônibus sem trocar uma palavra com ele.

Ele fica, mais uma vez, constrangido. Como tantas vezes ficara esta noite. Agora não sabia se deveria ir atrás dela e tomar café ao seu lado, perguntar seu nome, engatar uma conversa, ou se deveria manter-se distante e respeitar sua escolha de ficar assim também.

Enquanto ele estava na fila, notava como ela tomava seu café de cabeça baixa, ela nem sequer olhava para ele. Não havia um convite. Mas ele iria mesmo assim.

Sentei na sua frente e perguntei seu nome.

— Para quê?

Para não deixar o clima pesado e tentando inspirar confiança, ele se apresenta, diz que, embora incomum, seu nome era simples e lhe deu um “bom dia” formal. Não era bom em iniciar em conversas. Ela bem que poderia falar. E falou.

Falou durante os 10 minutos que esteve ali em sua frente, tomando seu café. Falava com entusiamo, sem tentar impressionar, sem disfarçar gostar do que estava falando. Ele não se importava em ouvir, e estava gostando. Mas seu nome, esse tempo todo, não dissera nenhuma vez.

Já no ônibus ela entra e pega sua mala.

— Você vai ficar aqui?

— Sim.

— Então me dá o seu telefone, seu e-mail, seu nome, sei lá…

Ela abraça o rapaz e se despede. Dá um tchau para o motorista, que parece conhecê-la. Desce e sorri de lado para ele.

— Você a conhece? Qual o nome dela?

Ele perguntou ao motorista, na vã esperança de que ele saiba lhe responder e assim ele possa encontrá-la.

— Não sabemos, senhor. Ela sempre aparece em algum momento da viagem, mas sempre fica apenas até a próxima parada, sabe-se lá onde seja. O senhor foi o assento de hoje.

Ela é a passageira, e passageira.


One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.