Fase

Leia ouvindo isso aqui.

Eu já arrumei suas coisas. Estão em cima da cama.

Eu cheguei a esse ponto. Eu arrumei as coisas dele. Ele estava tomando um café sentado em cima do sofá, olhou para mim, tranquilo (como sempre foi), e fez sinal com aquele sorriso, pedindo que ao seu lado eu me sentasse.

Está tudo bem, viu?

Ele me dizia, sereno (como sempre). Contra a minha vontade, mas cedendo a todos os meus desejos, encostei o meu rosto no seu ombro, e logo senti seus dedos por entre meus cabelos. O silêncio que envolvia nosso, talvez, último carinho ali — no sofá do que em algum momento chamamos de nossa casa, nosso canto — era o nosso cúmplice.

Estava tudo bem. Ele sentia, já eu, me esforçava para acreditar. Embora estivesse desaguando por dentro, conseguia esboçar um sorriso para ele, porque eu sabia que ficaria sim, tudo ficaria bem.

Estávamos ali, no sofá, já há uns dez minutos, um sentindo o cheiro do outro, a pele do outro, comendo os pedaços da despedida.

Você é minha favorita.

Eu quis fazer birra, quis perguntar “Até quando?”. Até quando eu seria sua favorita? Até quando eu ia sentir em mim isso tudo que eu sabia que estava, há um tempo, se esvaindo?

Sumindo… A cada peça de roupa que eu dobrei, menos ainda. A cada livro que eu guardei, menos ainda. Cada vez menos. Cada vez menos certeza, cada vez menos “para sempre”, planos menos ainda, cada vez menos detalhes, cada vez menos sonhos, cada vez menos palavras… Cada vez mais a confirmação de que nosso tempo havia acabado. E eu me encontrava ali, no sofá, torcendo para que uma súbita loucura nos invadisse e nos afirmasse que não, que não estava acabando, tal como o café que já estava no fim, nem vestígio da fumaça mais.

Talvez eu não tenha percebido a distância que aos poucos foi se criando entre nós. Pode ser também que nosso amor tenha sufocado nossas dúvidas, e não tenhamos dado a nós mesmos a oportunidade de questionar alguma coisa; é possível que o tempo, quase todo, que estivemos juntos, tenha nos afastado de nós mesmos, individualmente. É também provável, que o carinho imenso que nutrimos e o desejo incontrolável que sentimentos um pelo outro tenham nos tirado o ar e nos impedido de respirar as lutas e o defeitos que ambos temos.

Agora tudo o que não sentimos antes, como todos os outros casais, veio à tona: indecisão e incerteza — e a necessidade da separação. Tudo junto embalado num papel de presente amoroso, mas incompreensível. E a prova disso era que estávamos ali, sentados um ao lado do outro, com sorrisos de canto de boca e olhos lacrimejando, sedentos pelo cuidar, mas com a sensação de que… Talvez não seja só uma fase. E as malas já estão arrumadas, o café chegou ao fim.


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