Incontro, Encuentro, Encontros.

Quando nos conhecemos eu tinha 22 anos e estava na faculdade de medicina, ele fazia filosofia. Nada a ver. Não que eu não tivesse interesse por tantos textos, tantas conversas, claro que tinha, mas não tinha tempo… E com o mesmo, o mesmo foi ficando bem escasso. Um dia, por causa disso, tudo acabou, mas eu nunca o esqueci. Se não fosse a minha falta de tempo, ainda estaríamos juntos, eu daria toda a atenção do mundo pra ele e pro que ele fazia.

Ela não tinha mais tempo, nem foi por isso que acabou, eu poderia ficar com ela o dia todo, mesmo ela estando com seu enorme livro de clínica médica ao lado, e quando eu falo que ela estava com ele, é porque ela realmente estava com ele. Eu não ousava atrapalhar seus estudos, me bastava ficar ali perto. Eu que terminei.

Eu deixei ele terminar, não queria terminar, embora eu soubesse que não teria jeito… Eu estava tão atarefada e não podia ficar mais tempo com ele, mas eu o queria com todas as forças perto de mim.

Ela se sentiu mal, eu terminei, não sei… Fiquei com a impressão de que ela se sentiu traída por mim, não literalmente, mas como se eu não tivesse sido compreensivo com ela. Mas eu era, eu sabia que ela não tinha tanto tempo e mesmo assim eu estava ali.

Ele era muito compreensivo, eu que não tinha mais nenhuma paciência para as coisas pequenas.

Ela começou a me separar, a me esquartejar. É, pra ela, eu e o que eu escrevia eram coisas diferentes, e não somos diferentes, eu sou o que faço, não tem como me amar e odiar o que faço, porque não me dicotomizo.

Eu queria ele perto de mim, mas não tinha paciência pras coisas dele.

Eu terminei porque eu tinha que terminar.

Ia acabar de qualquer jeito.

Eu soube que ela fez mestrado, doutorado, é uma ótima médica, mas nem sei qual é a sua especialidade. Depois que terminei, não quis mais contato.

Eu soube que ele fez mestrado, doutorado, algo com Bauman e a fenomenologia… Comprei seu livro, só que não o encontrei para pedir que ele o autografasse, bem, evitei um encontro constrangedor, afinal, nem li, então não teria nem o que discutir sobre.

Casei, sempre quis casar. Acho que quanto mais profundo vamos, mas voltamos ao plano original: casar e ter filhos. Minha esposa é linda.

Eu não casei, na verdade, estou em um relacionamento sério. É sério, mas é livre. Ser livre é muito sério. Ele também é muito ocupado, então não exigimos muito um do outro, evita esse lance de carência e dependência, sabe? Eu estou sempre com a mente cheia pra evitar qualquer sentimento bobo que possa parecer.

Eu sofri muito quando terminei com ela, eu senti uma dor como nenhuma outra… E fiquei tempos vagando… Atrasei um semestre na faculdade, viajei pra tentar esquecer, eu não queria preencher com nada, queria sentir de uma vez pra depois não sentir mais nada.

Ele era um doce. Deve ser ainda. Soube que casou.

Ela era um doce. Não deve mais estar assim, a vida deve ter tornado-a amarga demais, vai ver nem tem marido. Talvez seja mãe solteira.

Eu decidi ser obstetra! Eu não tenho talento pra maternidade, mas tenho talento em trazer as pessoas pra esse lado de cá. E como acho que não vou ser mãe, fico bem feliz vendo aqueles bebês que são minha responsabilidade por um momento, e depois não mais. Eu tenho um homem que está disponível às vezes e pra quem estou às vezes disponível também, e isso basta.

Ela era muito sorridente.

Ele era muito sorridente.

Eu senti muita saudade dela no começo.

Eu sinto saudades dele até hoje… E fico pensando: tudo bem, ele escreveu um livro, mas filosofia não dá muito dinheiro, será que ele passa por problemas financeiros? Eu me preocupo com ele.

Eu ganho bem o suficiente pra ser feliz e sair com minha esposa quando queremos. O suficiente também pra pagar o parto da minha primeira filha, Betina terá todo o conforto do mundo.

Ultimamente tenho lido sobre partos humanizados, em casa, essas baboseiras, sabe? O CFM nem permite esse tipo de coisa, mas ele parece o tipo de sujeito que, quando tiver um filho, vai querer que seja assim que o menino chegue ao mundo. E aposto como vai querer um menino, e vai querer que o menino seja igual a ele: intelectualzinho mirim.

Minha esposa queria um parto humanizado, em casa, na água, normal… Acho muito arriscado. Li muito e há bons números a favor, mas nunca colocarei minha filha em risco por qualquer coisa. É uma menina, é Betina! Se fosse um menino eu ficaria feliz, claro, mas Betina… Betina sempre foi o que desejei. Quero outra da mãe dela ao meu lado, na verdade, não quero Betina como a mãe, quero minha filha do jeito que ela quiser ser, ela vai ser o que quiser e eu a apoiarei.

Aposto como ele terá muitos filhos.

Ela vai ser filha única, assim como a outra era.

Eu sou filha única, ele sempre me viu reclamando disso.. Mas hoje amo ser filha única!

Ela deve estar muito solitária, sempre reclamou por ser filha única. Betina não reclamará, pois tem pais maravilhosos. Ela não tinha.

Meus pais são maravilhosos! Depois de grande a gente percebe esse tipo de coisa.

- Oi… Não, não vai dar… Eu tenho um parto marcado pra hoje, desculpa, meu bem. … Sim, é verdade, eu disse que estaria livre, mas um colega de trabalho ligou pedindo que eu fizesse o parto desta paciente dele hoje, o filho está internado, eu não pudia negar. … Claro que aceitou, ele fez muitas recomendações sobre mim, o casal está tranquilo. … Podemos nos encontrar umas 22h? Acho que já terei terminado a essa hora. … Ok, entendo. … O seu é uma menina ou um menino? … O meu é uma menina. … Nosso? Que nosso? … Você quer ter filhos? Desde quando? … Não sei não… Olha, nos encontramos às 22h então? Eu já estou atrasada, preciso sair, conversamos mais sobre isso, viu? Beijo.

- Lúcia está sentindo muitas dores, vamos adiantar o parto, mãe. … Sim, era pra ser depois de amanhã, o doutor quase acertou a data, mas as dores chegaram antes, Betina quer decidir o dia em que nascerá então assim será.

- Mania que esse povo tem de não marcarem a data do parto.

- A data estava marcada, mãe, mas ela quis vir agora, fazer o quê?… Infelizmente ele não está aqui, ele não vai fazer o parto da Betina, o filho está doente. … Bem, ele nos recomendou uma obstetra, ela tem boas indicações e Lúcia encontrou uns pacientes dela aqui no hospital, eles falaram muito bem dela, estamos tranquilo.

- Qual é o nome da mãe, Rebeca?

- Lúcia e Dimitri.

- O nome da mãe é suficiente, é ela quem está sentindo dor.

- Quero acompanhá-la o tempo todo.

- Pai, a doutra Clara prefere ficar a sós com a mãe.

- Por quê? Algum problema? É um direito meu!

- Não, é só uma preferência da doutora, ela fica mais a vontade, mas posso avisá-la…

- Não, espera… Tudo bem pra você, amor? Você quer mesmo que eu fique longe? … Está bem, acho que estou muito nervoso mesmo… Então tá.

- Ele fez alvoroço?

- Não muito. A esposa também se sente mais à vontade sozinha com a senhora. Ele está muito nervoso.

- Típico.

- Não sei porque estou tão nervoso, mãe… Eu sempre fui o mais calmo, mas hoje… Lúcia está tão serena!

- Olá, mãe! Está bem tranquila, né?

- Oi, estou sim. E é estranho, sempre fui a mais nervosa e meu marido o mais tranquilo. Está tudo diferente hoje.

- É, está tudo diferente mesmo. Eu não sou a médica de vocês, a menininha vai nascer dias antes da data marcada, seu marido está nervoso, você calma e o meu namorado quer ser pai.

- Você está grávida, doutora?

- Não, não mesmo! Quero dizer… Não que eu não queira, mas… Eu estou começando a pensar. Sabe como é, o tempo…

- Meu marido costuma dizer que para as coisas importantes a gente tem que arrumar tempo. Isso é importante, doutora.

- É, parece que sim.

- Está demorando muito! Betina está tomando mais tempo do que comumente as coisas importantes tomam!

- Calma, Dimitri!

- Está com a câmera, Augusto?

- Mas é claro! Como é que eu não ia registrar o nascimento da minha afilhada? E o médico? Já deu notícia?

- Ele não está fazendo o parto, é uma médica.

- Doutora Lorena?

- Não, uma tal de Clara.

- Clara, lembrei da sua ex.

- Clara? Duvido que seja obstetra! Odiava crianças.

- Por que quis ser obstetra, doutora?

- Amo crianças, só não sou corajosa pra ser mãe.

- Eu também pensei que não era. Acho que nunca somos.

- E engraçado que os caras com quem me envolvi sempre quiseram isso. O meu ex então… nem se fala.

- Meu marido também sempre quis ser pai.

- Eu admiro homens assim. Mais corajosos que eu.

- Não é o Dimitri.

- Dimitri?

- Meu marido.

- E se for ela?

- Augusto, se for ela, fique à vontade, você sempre achou ela uma gata, e ela nem quer ser mãe, como você não quer se pai.

- Pra quê, meu irmão? Eu vou ser padrinho da tão amada e esperada Betina! Já sou um homem feliz!

- Dimitri. Parabéns, sua Betina nasceu.

- Clara?

- Acho que o nome dela não é Clara, é Betina, não é?

- Ah, sim… Claro que é Betina, é a minha Betina. Posso entrar pra vê-la? E minha esposa? Tudo bem?

- Tudo bem com as duas, Dimitri. E você? Está bem.

- Melhor agora.

- Sério?

- Claro, minha esposa está bem e a mulher da minha vida acabou de nascer!

Ele ficou tão feliz. Que ironia… Eu fiz o parto da mulher da vida dele! A mulher da vida dele não fui eu.

Foi muito estranho… Ela não me dedicou tempo algum nem ligou para o que eu ligava, mas trouxe ao mundo a criança mais linda que existe e que é minha! E, veja só, Betina demorou tanto pra nascer! Umas quatro horas de dor mais uma de cirurgia. Deu trabalho pra ela. Trabalho que eu não dei.

Eu sempre esperei reencontrá-lo, sabe? Por curiosidade mesmo… Não nessa situação.

Eu imaginei que ela estivesse tão bem resolvida, mas não pareceu.

Eu pensei que poderia ser tudo e muito mais pra ele quando um dia fosse revê-lo, mas não… Ele está muito bem. Não precisa de nada meu. Lúcia é arquiteta e paisagista, combinam.

Eu pensei que não poderia oferecer nunca nada a ela, mas eu podia fazê-la muito feliz. Como faço a Lúcia e como farei a Betina.

Ele está bem.

Ela não está bem.

Ele vai ficar bem.

Eu gostaria que ela ficasse bem.

Sabe, eu o conhecia muito bem.

No fundo acho que ela me conhecia bem, por isso não daria certo.


Originally published at larescrituraria.blogspot.com on February 20, 2017.

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