Só mais uma noite.

Lê ouvindo: Se você me quiser

Quando ele se levantou da cama ela logo imaginou: seria a última vez. E mesmo com toda as suas resistências, regras próprias e calos, acabou não resistindo e cedeu, mais uma vez cedeu só por uma noite, tão fugaz quanto o brilho da lâmpada que acabaram de desligar. Alguém chegara para bagunçar sua tranquilidade, lhe colocar uma dose de culpa de novo.

Logo ela que estava tão bem, tão monótona, tão monóloga, mas tão quieta… Agora anda tendo diálogos sozinha, na sua cabeça passam todas as conversas que um dia poderiam ter:

Como tu está, meu bem?

Bom dia, o que vamos fazer hoje?

Que horas você chega?

O que você quer comer?

Os tantos diálogos do cotidiano, apenas devaneios, ideias de uma relação que não será mais profunda que a marca deixada no colchão, nem mais densa que o lençol que a enrola agora, nem mais frio que o ar desse quarto, nem mais constante que a tosse que a persegue, nem mais delicada que a mão que a toca, nem mais certa quanto a certeza de que ela está fazendo, mais uma vez, a coisa errada. Já fez. Já foi.

A moça sai dali anestesiada e pensativa, resignada à afirmação que todos costumam fazer dela:

Nunca equilibrada, sempre no oito ou no oitenta, sempre no pra sempre ou no pra nunca mais.

Ah, se um quisessem ao outro de verdade… Era o que ela pensava, embora nem saiba o que de verdade é seu desejo. Deseja tranquilidade de novo. Prefere as faltas de conversas a todas as conversas que nunca serão ditas. Tem aversão ao que é efêmero. Tem medo do que sente, porque só sente aos turbilhões, aos milhões.

Ela não conhece os meio-termos, não tem isso de “vamos ver o que acontece”, ou acontece, ou nunca acontecerá. A cama está arrumada, é hora de sair. De vez, do quarto e da história um do outro. Foram só marcas, memórias, foi só uma noite, só mais uma noite.

O desconhecido que vai mais adiante não tem nenhuma obrigação, não precisa dizer nada, não tem nada mais para lhe oferecer. Ambos estão agora vazios, distribuíram-se por uma noite, estão cansados, estão dados.


Este pequeno conto faz parte da série “Preto no Branco”.

Outros da série:

Flores Azuis, Eu te leio muito bem, A pele dela estava toda marcada, Filme mudo, Feliz aniversário, A passageira, Fase, Preciso de um drink, As máscaras, Cenas.

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