Vem tipo bossa.

Ilustração de autoria do artista plástico paulistano Roberto Bieto

Deixa eu te cantar com essa bossa, deixa eu te devorar com essa melodia, te esperar bem lentamente; vem assim, como essa voz de Miucha, forte e delicada ao mesmo tempo, mas presta atenção que ela avisa, “você pode ser ladrão quando quiser, mas não rouba o coração de uma mulher…”. Não rouba coração de ninguém se nunca tiver feito uma canção, pois minha poesia, desse jeito assim, seco e sem graça, pra você não faço não.

Vem assim, vem bossa, mas não se preocupe se está misturando esse sambinha e essa pegada eletrônica, de vez em quando é bom mexer assim mesmo… Vem e diz no meu ouvido “e quem não tem amor não tem é nada!”, afinal, eu sei, ainda sei que tem tanta gente aí com amor pra dar, tão cheia de paz no coração… Mas eu não.

Vem sambar comigo, pois já dizia Chico, “tem mais samba no encontro que na espera”, vem me encontrar. “Tem mais samba no peito de quem chora”, ele diz também, convido você então a vir aqui enxugar minhas lágrimas com esse teu sorriso que não presta, bom samba não tem lugar nem hora, nem gente, nem medo, nem impaciência… É verdade, Chico! Se todo mundo sambasse seria mais fácil viver!

Vem e me fala as mesmas coisas que todo mundo já falou, quando isso acontece eu lembro só daquele samba de verão, esse mesmo na voz do Marcos Valle. A verdade é que gosto de saber que você pensa assim como ele, diz pra mim assim: “Sim,diz que sim, já cansei de esperar! Nem parei nem dormi só pensando em me dar. Peço, mas você não vem!”. O próprio Marcos responde um pouco antes nesse samba maroto: eu não tenho quem amar.

Vem e, se eu te decepcionar, se, por acaso não me manifestar ou desistir no meio do caminho, isso também é bossa, meu bem… São aquelas paradas repentinas, aquelas mudanças pro sambinha que começam sem a gente perceber… Qualquer coisa, eu canto para você e se você disser que eu desafino, amor, em mim não vai provocar muita dor. Eu desafino mesmo, no amor eu sempre desafino, “eu possuo apenas o que Deus me deu”. Isto é muito natural! Mas, apesar de tudo, lembre-se:

“No peito dos desafinados também bate um coração.”

Vem bem de bossa, vem bem na bossa e, se nada acontecer, deixo aqui minha última opção para você: Consolação, Baden Powell.

Se não tivesse o amor
Se não tivesse essa dor
E se não tivesse o sofrer
E se não tivesse o chorar
Melhor era tudo se acabar
Eu amei, amei demais
O que eu sofri por causa do amor
Ninguém sofreu
Eu chorei, perdi a paz
Mas o que eu sei
É que ninguém nunca teve mais
Mais do que eu

Vem bossa.


Originally published at larescrituraria.blogspot.com on January 1, 1970.

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