Além do nunca mais

Imagem para O Primeiro Ano, de Steh Boaventura Fotografia

No dia 31 de maio de 1991 foi ao ar o último capítulo da novela global Barriga de Aluguel. Com recém completados quatro anos de idade, me deparei, talvez pela primeira vez na vida, com o sentimento de testemunhar um encerramento definitivo. Segundo a história que já ouvi milhares de vezes de minha mãe, ao terminar o episódio eu abri o berreiro: “Nunca mais vai passar Barriga de Aluguel!”, repetia aos prantos. Um tio que passava de moto pela nossa rua na hora bateu na porta para saber se estava tudo bem, e tudo que eu conseguia fazer entre os soluços era manifestar minha profunda tristeza com aquele fim. Ainda hoje, 25 anos depois, minha mãe e minhas irmãs me ligam após o último capítulo de toda novela e muito embora eu não assista mais nenhuma, elas sempre repetem, aos risos: “Nunca mais vai passar…” Esse caso se tornou uma piada familiar persistente.

Dizem que pessoas nascidas sob o signo de touro não gostam muito de mudanças. Quer se acredite ou não em explicações cósmicas, estou perto de completar 30 anos e ainda encaro finais com a mesma consternação daquela garotinha. Essas duas palavras me atingem: “nunca mais”. Que me recordo, o “nunca mais” está ligado ao específico momento em minha vida em que compreendi a morte. Há 18 anos meu pai perdeu um irmão. Meu tio querido, que lutou com bravura contra uma leucemia e deixou dois filhos e uma esposa amorosa. Eu o havia visto cerca de dez dias antes, em seu aniversário e quando aconteceu ele estava internado em um hospital em Belo Horizonte. Minha mãe recebeu a ligação durante a madrugada e comunicou meu pai, que se aprontou para a viagem de duas horas para buscar o corpo na capital. Lembro do momento em que minha mãe acordou a mim e minhas irmãs, já de manhã, para contar, e me lembro bem que quando eu abri os olhos já pressentia o que ela ia falar. Mas eu não chorei. Não tive vontade de chorar — nos dias que precederam sua morte, ouvimos de vários adultos que ele estava sofrendo e iria descansar; essa inconcebível tarefa de preparar as crianças para o contato com a morte. Descansou, enfim. Lutou por tempo suficiente. Seguimos para a casa da minha avó para ajudar nos preparativos do velório e fazer companhia para sua dor de mãe, dor sem medida. Por todo lado havia pessoas mais ou menos inconsoláveis, “tão cedo!”, “tão novo!”, “Deus sabe o que faz”, e eu, minhas irmãs e os primos estávamos mais ou menos perdidos nesse cenário de condolências. Quando meu pai chegou, muitas horas depois, minha mãe pediu a mim e a minhas irmãs que fôssemos confortá-lo. Entre tantos detalhes que já não me recordo, essa cena me foi gravada a ferro no peito: meu pai parado na varanda da casa, sozinho, olhando para o céu, com lágrimas no rosto, numa tristeza séria e silenciosa; quando me aproximei, ele me abraçou, muito sóbrio, e me comunicou o fato: “Acabou o tio William.” Acabou. É isso. Descansou, sim, libertou-se de um sofrimento prolongado, mas também acabou. Não havia mais meu tio, aquela pessoa por quem eu tinha tanto afeto não existia mais entre nós e eu não mais o veria. Nunca mais. Nunca mais meu tio.

A partir dali eu sabia, foi ali que eu compreendi, com horror, o destino irrevogável de tudo que é vivo: tudo que é vivo morre, mas mais que isso, tudo que é vivo acaba, desaparece. Não existe nada mais definitivo que isso nesse mundo e, ao mesmo tempo, nada mais incerto que o momento de enterrar nossos mortos, porque daí pra frente ninguém sabe — a incerteza certa. Mas a morte é múltipla na vida. São muitas as rupturas incontornáveis antes da derradeira ruptura incontornável. O apartamento vazio, o último dia de aula, pegar o ônibus para voltar para casa, tomar uma decisão sem volta, esses sucessivos e habituais abandonos de possibilidades, esse eterno ir embora. É verdade que me aterroriza ainda, sempre, a ideia de tudo que vamos perdendo e deixando intocado no passado ao longo da linha sem curva da vida. Olhar para trás é um exercício que não me ocorre sem doer.

Mas existe algo de verdadeiro naquele ditado sobre portas que se fecham e janelas que se abrem. É preciso caminhar porque é no movimento que a vida se expande — no mesmo movimento que encerra nossas vivências no intangível domínio da memória e que, às vezes, fecha para sempre algumas portas e janelas no processo. Tudo que é vivo acaba precisamente porque tudo que é vivo se movimenta, transita entre o tempo de nascer e o tempo de morrer, marcha sem sossego em direção a esse último desconhecido, essa última porta fechada. E essa marcha consente desvios, tropeços e descansos, mas não retornos. É preciso saber olhar para trás, compreender sua história, conhecer a substância do passado que te forma, mas sem ficar cativo da saudade. É preciso respirar porque a respiração também é movimento, deixar doer o que tem que marcar, sem se alongar demais na tristeza porque o tempo não espera ninguém. Diante da intolerável certeza dos desfechos, há uma frágil esperança que me sustenta, embora ainda me falhe muitas vezes: quem é que sabe o que existe além do “nunca mais”?

Imagem para O Primeiro Ano, de Steh Boaventura Fotografia

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