“Quem quiser nascer tem que destruir um mundo.” (Hermann Hesse)

Foto de Steh Boaventura Fotografia

Antes era a urgência. E cada palavra era grito. O silêncio era angústia, uma angústia pesada, que tira o ar, que tira o chão. Tudo era chão, tudo era pesado e tudo era grave.

Não creio que tenha se passado tanto tempo assim. Alguns anos, muitos dias — já não sei mais. Tampouco sei dizer o que mudou. Mudou, mudaram? Mudei? Procuro o espelho, olho-me atentamente os olhos. Mudei? Não sei, não sinto. Ainda sou eu, certo? Reconheço-me tão pouco quanto antes, quanto sempre. A mesma ansiedade vil e inconsistente, o mesmo olhar pesado, os mesmos velhos velhos medos. Sim, ainda sou eu.

Há quanto tempo troquei o dia pela noite, não me lembro. Mas sei que agora é do silêncio que mais gosto. E é com leveza que posso me mover bem. Na leveza da boa música, das tarde quentes de uma terça-feira qualquer. E tudo é suavidade, e tudo é sincero. Não há mais pressa, o tempo não me persegue mais. Já não fujo dele, nem de mim, nem de ninguém. O silêncio pode ser amargo e duro, mas mesmo então ele é vivo, verdadeiro, e eu o sinto. Sinto-o, intensamente, em toda sua força — destrutiva ou pacificadora. Já faz tanto tempo…

E é no silêncio que vou de encontro a mim mesma — sempre estive, sempre estamos indo de encontro a nós mesmos. Mas agora eu sei. Não tenho pressa, e já não dói tanto o conhecer de mim mesma. Estou aprendendo aos poucos a me (re)conhecer nos outros, nas coisas, nos bichos, nas estrelas, na terra molhada, no muro cinzento, na rua escura, no ruído, na sujeira, nos sorrisos, na indiferença. Já não dói ver as cicatrizes de tantas lutas vãs contra o que sou. Sei apenas que estou indo de encontro a mim mesma e aguardo, de armas na mão, o momento incerto do confronto, do qual sairei, novamente, como quem sai de um ovo, como quem expande o corpo, como quem nasce.

(janeiro de 2008)