Sobre minha avó

Steh Boaventura Fotografia

Eu achei que teria mais tempo, essa é a verdade. Muitos meses antes de acontecer, eu decidi fazer um retrato de meus avós. Liguei para minha avó e perguntei se ela topava, mas não marquei uma data e deixei pra combinar quando tivesse mais tempo livre. Ela me ligou algumas vezes perguntando, mas eu achei que teria mais tempo.

Um dia, ela passou mal e foi internada. Eu não me preocupei, afinal ela já havia se despedido no leito de morte quase dez anos antes, numa situação bem mais complicada e grave, e voltou. Dessa vez não houve tempo. Não houve leito de morte, não houve um último pedido, não houve uma despedida. Ela não podia mais esperar. E o retrato que eu não fiz ficou pra sempre não feito.

Eu sei que parece uma bobagem, porque não é como se faltassem retratos dela pra aquecer meu coração com sua memória. Mas o retrato que eu não fiz me machuca mais do que consigo descrever. Eu achei que teria mais tempo. A gente sempre acha.

Já são quase cinco meses sem ela. E nesses quase cinco meses eu tranquei minha dor no peito pra não enlouquecer. Eu não pensei nela, eu não pensei no retrato. Dizem que o tempo vai cuidar de transformar essa ausência pungente numa saudade doce. Mas o tempo é traiçoeiro, isso eu aprendi.

Ainda é difícil visitar a casa dela, o peso de sua ausência me sufoca. Há pouco mais de um mês, ao visitar meu avô para comunicar meu noivado, me doeu demais ver cada pedacinho da casa marcado com a falta dela, e eu não consegui não pensar nela e no retrato que eu não fiz.

Steh Boaventura Fotografia

Eu decidi, então, fazer o retrato, ainda que seja com o pouquinho que sobrou dela. E muito pouco sobrou, é verdade. Mas sua memória permanece nos detalhes. No rádio que ela ouvia toda manhã. No seu jeito de apoiar os pratos no escorredor. No canarinho preso na gaiola, seu irmão em sina, cujo canto resignado de prisioneiro que desconhece o que há além das grades alegrava seus dias há anos. Nos porta-retratos com fotos de minhas irmãs e eu, no papel toalha cortado em terços para economizar, na sua agenda de telefone tão antiga, com tantos nomes que já se foram, no ipê roxo de que ela tinha tanto orgulho, na janela de sua cozinha, de onde ela costumava nos observar esperando o ônibus do outro lado da rua, e de onde constantemente fazia mímicas perguntando se a gente tinha casaco e guarda-chuva.

Em cada detalhe tem um pedacinho dela, que me conforta com sua lembrança, mas que ainda me machuca com sua falta. Esse ensaio não substitui o retrato que eu não fiz. É apenas uma tentativa de me perdoar, porque eu achei que teria mais tempo. E é meu jeito de pensar nela, de sentir saudade, de deixar doer a sua ausência na esperança de que um dia a dor seja vencida pela ternura de sua memória. É apenas uma tentativa de seguir em frente.

Vá em paz, vovó. E não esqueça o casaco e o guarda-chuva.

(Julho de 2013)

Steh Boaventura Fotografia