Mistress America é o retrato da nossa geração


Mistress America estreou no Brasil em novembro, sem grande alarde, e eu fui assistir ao filme também sem grandes pretensões. Mas o que vi ali foi, talvez, um dos retratos mais fiéis da minha geração, que quer tudo e nada ao mesmo tempo. O longa (que tem menos de uma hora e meia de duração) é dirigido por Noah Baumbach, o mesmo de Frances Ha, Margot e o Casamento, e a Lula e a Baleia. Em Mistress America, Baumbach segue a mesma linha de comédia dramática, e consegue tirar realmente boas risadas do espectador, com piadas inteligentes e algumas alfinetadas, que fazem com que a gente ria da própria desgraça.
O filme começa com Tracy (Lola Kirke), uma jovem de 18 anos que deixa a casa da mãe em Nova Jersey e vai estudar Literatura em Nova York. Porém, a vida na faculdade é menos animada do que ela esperava, e num momento de desabafo pelo telefone, sua mãe sugere que ela procure Brooke (Greta Gerwig), filha do homem com quem ela — a mãe — iria se casar.
Tracy reluta, mas decide ligar para a futura irmã e elas marcam um encontro na Times Square, onde Brooke mora. Em pouco tempo, Tracy percebe que Brooke é tudo que ela gostaria de ser. Com quase 30 anos, Brooke não tem um emprego fixo, vive de freelas (ou os famosos ‘bicos’), conhece artistas, tem uma agitada vida social, namora um grego, mas fica com um músico, mora num apartamento com decoração ‘cool’ em um prédio comercial no coração da Times Square. Esse universo atrai Tracy, que passa a acompanhar Brooke todos os dias.
OBS: Spoilers a partir daqui!
Mas se num primeiro momento Brooke parece uma mulher segura, que vive a vida que escolheu, o espectador logo percebe ali inseguranças e frustrações. Brooke nunca fez faculdade, por se considerar autodidata, e tem o sonho de abrir um restaurante — que seria ao mesmo tempo um cabeleireiro, uma loja, um espaço cultural… Falta objetividade em todos os seus planos.
I think I’m sick, and I don’t know if my ailment has a name. It’s just me sitting and staring at the internet or the television for long periods of time, interspersed by trying to not do that and then lying about what I’ve been doing. And then I’ll get so excited about something that the excitement overwhelms me and I can’t sleep or do anything and I just am in love with everything but can’t figure out how to make myself work in the world. (Brooke)
No momento em que o namorado grego descobre a traição com o músico e deixa de financiar a obra para o empreendimento, Brooke se vê obrigada a recorrer à ex-melhor amiga e ao ex-namorado, que estão casados, para conseguir dinheiro. Brooke coloca a culpa de todos os seus fracassos nos outros, e logo Tracy passa a ver como defeitos o que antes considerava qualidades na sua heroína.
Brooke é uma pessoa egoísta, e isso fica claro em diversos momentos do filme. Mas o mais simbólico seja talvez o momento em que encontra uma antiga colega da escola, que espera uma retratação por ter sofrido bullying e confessa ter precisado de terapia para lidar com a situação. Sem qualquer empatia, Brooke diz que nem se lembrava de quem ela era, e se defende chamando a mulher de histérica e louca. Em outro momento, seu pai liga para avisar que não vai mais se casar e diz para a filha “eu sei que você não se importa”, mas se impressiona quando Brooke diz que ele deveria insistir no casamento. Logo depois, ela pergunta “o que eu e Tracy seremos, então?”. Novamente, sua preocupação não estava com a felicidade do pai, mas sim com seu próprio interesse, sua relação com Tracy.
Ao mesmo tempo, Brooke é insegura. Ela acredita e defende com convicção sua ideia, mas basta que o ex-namorado diga que ela não é capaz de levar adiante o plano para que ela desista.
Talvez este seja o retrato da nossa geração: pessoas arrogantes e egoístas, mas ao mesmo tempo inseguras e despreparadas. Acreditamos que somos melhores que nossos pais e avós, pois quebramos paradigmas, não devemos nada a ninguém. Mas toda essa liberdade é usada de forma improdutiva. Fazemos planos, mas não conseguimos colocá-los em prática, culpamos os outros por isso, e nos achamos melhores do que aqueles que efetivamente constroem alguma coisa.
Ao perceber em Brooke suas próprias falhas, Tracy decide mudar e cria o próprio clube de literatura na universidade. E imagino que, assim como eu, outras pessoas talvez tenham saído do cinema como se tivessem assistido aos seus próprios defeitos, e dispostas a fazer alguma coisa sobre isso.

