O antes, durante e depois de um emprego tóxico
Uma das funções mais duradouras que exerci na minha carreira foi como repórter — vivendo a vida fora da caixa, aliás, do escritório. Depois de tanto tempo vivendo as ruas e pessoas novas todos os dias, até que não demorei muito para me adaptar ao ambiente de um escritório, afinal, eu estava feliz com o emprego novo, as pessoas, o lugar e a função. Desde o início já havia indícios de que algo não funcionava bem naquele local, mas a empolgação é igual amor — deixa a gente cego.
Depois de alguns meses e a empolgação desmoronando a cada dia, passei a pontuar para mim mesma os “defeitos” daquele emprego como um todo, desde os processos passando pelo ambiente, pessoas, clientes.. tudo. A partir daí ir trabalhar era uma tortura diária porque já previa ações e principalmente, problemas e acredite: gritos!
Eu lia muitos artigos falando sobre trabalho, o quanto ambientes como aquele eram prejudiciais e por outro lado como pessoas eram bem-sucedidas e felizes deixando a “estabilidade” de uma carteira assinada para ser “dono do próprio nariz” e trabalhar por conta. Quando os textos eram bons eu suspirava como se me encorajasse, mas então lia algum um pouco mais negativo e lembrava que sair daquela situação não era tão simples — pelo menos não parecia.

Não precisa ter um chefe como a Miranda de O diabo veste Prada para sofrer as conseqüências de um emprego tóxico. Porém, apesar de enxergar todos os danos que o emprego te causa, o salário — por menor que seja, “te compra” pela falsa sensação de estabilidade. E um estudo da Associação Americana de Psicologia comprova isso com os seguintes dados:
Enquanto 27% das pessoas que trabalham para chefes tóxicos se demitem assim que garantem outro emprego e 11% se demitem sem um novo emprego, impressionantes 59% continuam no mesmo lugar.
Existem diversas teorias que tentam desvendar a causa desse número alarmante de pessoas que se torturam diariamente por empregos que as fazem infelizes — eu já fiz parte da estatística e acredito que você também já possa ter feito. É preciso analisar até onde a lealdade corporativa compensa, quando você não tiver saúde devido ao desgaste do próprio emprego, vão te pagar para ficar em casa sem reclamar? Nesses casos a “rádio-corredor” só tem um assunto “fulana está há uma semana em casa, disse que ta doente — mas postou ‘Bom dia’ no Facebook hoje, engraçado isso”.
O problema é que quanto mais você enxerga os “problemas” do seu trabalho e permanece, ele torna-se ainda mais abusivo e a sua dificuldade de deixá-lo só cresce. Certa vez li um artigo que trazia três pontos muito interessantes e condizentes com a minha realidade naquele momento e eles entraram para minha listinha de confirmações negativas sobre o meu emprego — que em pouco tempo me faria muito mais do que repensar, criar coragem e agir.
Explosões nervosas:

Todo mundo tem seus dias ruins, seja chefe ou funcionário, mas como disse o Tio Ben em Homem Aranha , “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Se o seu chefe esbraveja toda vez que algo não sai como o esperado, tem alguma coisa muito errada: ele!
Chefes que gritam e dão chiliques, não importa se são direcionados a você, outro funcionário, a mãe dele ou o universo, aquela energia se espalha pelo local de trabalho e cria bloqueios. As pessoas ficam hesitantes em dar idéias ou compartilhar pensamentos e opiniões com medo de levar coices, em alguns casos prejudicam o próprio trabalho com medo de levar um coice repentino. Então a parte mais marcante do artigo:
Se você ouvir gritos do seu chefe pela sala e em vez de pensar “o que está acontecendo” o seu pensamento for “lá vamos nós de novo” é hora de repensar
Falsas expectativas:
Chefes muitas vezes têm participações nos lucros ou são sócios da empresa, ambos já são dois motivos para eles não pararem de pensar em trabalho. Porém eles esquecem que não é o seu caso e, além disso, você tem obrigações familiares, amigos, atividades de lazer e vida fora do escritório.
Quando der seu horário de saída e você encerrar o expediente com a sensação de que está decepcionando o chefe, fuja enquanto há tempo — se realmente ainda houver!
Chefe manda, líder dá exemplo:
Uma coisa que tira o funcionário sobrecarregado do sério e rapidamente chega a “rádio-corredor” é quando o chefe prega, exige e cobra que as coisas sejam feitas de tal forma, mas ele é sempre uma exceção a essa regra. Chefe não precisa atender o telefone se a secretária não estiver, não precisa chegar na hora, pode estender o almoço, emendar o feriado, assistir pegadinha no YouTube, contar piada e seguem os absurdos que o funcionário suporta calado.
Depois de ler tantos indícios de que havia problemas graves no meu trabalho, cutucava a colega do lado que vivia a mesma situação e ela respondia: já li esse também. Eu chegava em casa com dor de cabeça todos os dias, acordava sem querer sair da cama e pensando se naquele dia (todos) não podia dar uma desculpa pra não ir, deseja ter realmente um problema que me impedisse só para não ir e não ter que mentir para isso.
Demorei para decidir, precisei de muito apoio de pessoas fundamentais na minha vida e até da minha psicóloga — que quando comecei só me ouvia reclamar do tal trabalho. Mas hoje digo para os meus amigos, aliás hoje mesmo eu disse: não sou rica financeiramente (já não era), mas sou rica de vida!
Sim a minha riqueza está em ter a saúde que eu não tinha, deixar de perder cabelo por estresse, passar a manhã na academia porque eu amo praticar atividades físicas nesse horário, ver o nascer do sol na praia enquanto tiro o projeto surfista do papel, encontrar meus amigos quando quero (e eles podem), passando dias livres em família, tirando um cochilo no meio da tarde se não estiver sendo produtivo. Sendo dona de mim, do meu tempo, da minha vida.
Nada pode te fazer mais feliz do que sendo dona da sua própria vida
Ameaças de perder trabalhos não me apavoram mais porque hoje a riqueza está em mim. Hoje eu não faço parte das pessoas que temem perder o emprego e com isso acabam aumentando em 50% suas chances de ter problemas de saúde. Me enquadro menos ainda nos que têm demandas excessivas e aumentam em 32% as chances de ter problemas físicos — meus problemas físicos hoje são outros, dores no corpo porque além de trabalhar posso fazer tudo que eu gosto e ter um vida realmente vivida!
A insegurança no trabalho e as demandas inacabáveis têm efeitos negativos tão prejudiciais quanto aqueles que sofrem pessoas expostas ao fumo passivo
Stephany Muzi
Escritora, produtora de conteúdo, analista de mídias e feliz!
Autora do blog Entrelinhas da Muzi — atualizado apenas em picos de felicidade ou reflexão , sempre em busca de novos projetos de voluntariado e atividades físicas desafiadoras.