A história secreta da Mulher Maravilha

Uma biografia para entender as origens e contradições da heroína

Stephanie Borges
Aug 26, 2017 · 7 min read
detalhe da capa de A´história secreta da Mulher Maravilha

O filme de Patty Jenkins tem levantado vários debates sobre a representação de mulheres no cinema, diretoras de cinema, feminismos e a Mulher Maravilha. Seria ela um modelo? Uma bissexual? Ícone? A super-heroína que vai salvar a DC depois de filmes medíocres com Batman e Superman? Enfim são muitas as questões e várias delas não serão respondidas, ou ainda, não importam.

A ideia de que exista algo como um ícone feminista me parece impossível, uma vez que ícones são símbolos associados a religiões, e um movimento formado por pessoas, com diferentes agendas e vertentes com foco na igualdade, não pode estabelecer esse tipo de imagem sagrada. Pessoas são complexas, contraditórias, têm interesses diversos. Um dos méritos da biografia de Jill Lepore é nos ajuda a compreender como a Mulher Maravilha se tornou uma figura importante na cultura pop e as pessoas envolvidas e que influenciaram a criação da personagem.

Em A história secreta da Mulher Maravilha, Lepore usa a biografia William Marston, Elizabeth Holloway e Olive Byrne, como fio condutor para falar de diversas reivindicações nos movimentos de mulheres nos EUA antes da década de 1960 e sobre as ideias que embasaram o quadrinho.

William Marston é creditado como o criador da Mulher Maravilha e no entanto, a biografia de Lepore nos mostra como a invenção não é um processo individual, ele envolve diálogos, influências e nesse caso, a convivência com mulheres interessadas em terem trabalhos intelectuais e criativos, relações amorosas e construir famílias.

Marston era psicólogo e inventou um método de detecção de mentiras à partir de alterações na pressão sanguínea, que viria a se tornar popular como o teste do polígrafo. No entanto, Marston era uma figura ávida pelo reconhecimento, e sua busca pela fama fez dele uma figura sem credibilidade acadêmica. Suas tentativas de fazer do detector de mentiras um método jurídico e investigativo apenas trouxeram descrédito.

HQ da década de 1940

Embora Lepore construa uma série de paralelos cronológicos entre o percurso de William Marston, contextualizando a presença das mulheres que o tornam sensível a questão da igualdade em termos de capacidade e talentos, assim como as desigualdades socias, há momentos do livro no qual é possível ter muito mais curiosidade sobre as manifestações em favor de universidades mistas ou do direito ao voto para mulheres. Uma surpresa foi descobrir como Emily Pankhurst, a ativista interpretada por Meryl Streep em As sufragistas também foi uma influencia para as militantes nos EUA.

Lepore rejeita a ideia de que existam “ondas” no movimento feminista. Para ela, as ondas são momentos em que as questões feministas ganham espaço no debate político, na imprensa ou no mainstream. Existiram lutas por direitos, disputas e conquistas das mulheres desde o final do século 19 e o início do século 20 que não são consideradas “história oficial”. O movimento não esfria e volta como a moda. O feminismo é retirado da pauta, mas as reivindicações seguem. A autora tenta jogar uma luz nos primórdios da disputa pelos direitos reprodutivos nos EUA. A proibição de métodos contraceptivos, redes de apoio de enfermeiras distribuindo camisinhas e diafragmas para mulheres pobres, a realização de abortos clandestinos e várias prisões, greves de fome e disputas políticas até que se estabelecessem o direito a comprar camisinhas e a legalização do aborto nos anos 1970.

Elizabeth Holloway e a Olive Byrne cresceram e foram educadas com a premissa de que as mulheres são igualmente capazes e escolheram caminhos pouco tradicionais. Elizabeth se casou com William Marston e durante anos os dois cuidavam de suas carreiras. O casal hospedava em casa outras mulheres que participavam do relacionamento esporadicamente e, num determinado momento, Olive, ex aluna dele, veio fazer parte do arranjo familiar de forma definitiva. O acordo era: Holloway continuaria com seu emprego como editora de enciclopédias (e provendo a família durante anos) e Byrne cuidaria das crianças e trabalharia em casa, escrevendo como freelancer. Olive cuidou da educação de todas as crianças e seus filhos biológicos com Marston foram adotados pelo casal constituído legalmente para que todas as crianças tivessem direito à herança.

A Mulher Maravilha por Adam Hughes

Com a popularidade das histórias em quadrinhos entre os anos 1930/40, Marston enxergou o entretenimento como forma de difundir os valores feministas. Se o Superman promovia a coragem e a nobreza, o Batman usava a determinação e a inteligência, porque não uma heroína que pudesse inspirar as mulheres a serem corajosas, independentes e lutarem pela verdade e pela justiça?

O irmão de Olive conseguiu uma reunião de Marston com editores e ele conseguiu vender sua proposta. Lepore analisa como elementos biográficos foram incorporados nos quadrinhos. A influência do romance Charlotte Perkins Gilman em uma Themyscira que reunia mulheres inteligentes e guerreiras. Os mitos gregos deixando como as histórias em quadrinhos na época evocam não apenas os poderes extraordinários dos deuses, mas os valores do heroísmo. Os braceletes da Mulher Maravilha são inspirados nos que Olive passou a usar quando foi viver com William e Elizabeth.

Sim, existem referências a homossexualidade, bondage e submissão nos roteiros da Mulher Maravilha, especialmente nos anos em que Marston participou ativamente da produção da HQ. Ele tinha uma ideia de que as mulheres, por serem iguais aos homens, inteligentes, capazes, talentosas, viam na submissão uma forma de demonstrar seu verdadeiro amor. Uma mulher consciente de seu poder abre mão dele, ainda que temporariamente, para obter prazer ou pelo bem do relacionamento. Ou ainda para compensar seu papel de liderança e sua assertividade. Enfim, por mais solidário que Marston pudesse ser com as causas das mulheres, ele tinha uma visão idealizada e recheada de pseudociência. Sua visão era incorporada a HQ, que como qualquer produto da cultura pop, pode ter várias camadas de leitura.

A biografia cita episódios nos quais adultos escreviam para editora indicando terem reconhecido nós de bondage ou sobre sua surpresa com cenas pareciam aludir ao lesbianismo. O uniforme da Mulher Maravilha também era uma questão. Até que ponto mostrar o corpo de uma mulher é uma demonstração do domínio sobre o corpo, até que ponto é a exposição ao olhar masculino, ou a sexualização de um personagem criado para entreter crianças?

A Mulher tem todo um histórico de socar nazistas

Com o fim da segunda guerra, os quadrinhos de super-heróis deixaram de explorar temas patrióticos e passaram a ser atacados pelos conservadores. O uniforme sexy, o fato da Diana não ter um namorado, a ilha grega cheia de mulheres sem a necessidade de homen, tudo virou motivo para que a princesa de Themyscira fosse considerada subversiva. Vieram fases tristes em que a personagem ganhou um marido, virou apenas uma coadjuvante da Liga da Justiça, até que na década de 70, as feministas que cresceram lendo as histórias da Era de Ouro retomaram a personagem como um simboloe ela foi capa da primeira Ms. Magazine. Aqui um video rápido da Gloria Steinhem falando sobre a Mulher Maravilha. Ainda nos anos 1970, veio a série de TV com a Linda Carter.

Capa da primeira Ms. Magazine

O filme reacendeu o debate e surgiram diversas críticas à Mulher Maravilha. Sobre a reafirmação de uma feminilidade dentro dos padrões de beleza, sobre pouca diversidade racial no filme depois que Diana deixa Themyscira. Após vários filmes de super-heróis na última década, acredito que precisamos situar esse blockbusters como produtos feitos para agradar um público amplo, no máximo, propor questionamentos, no entanto, eles não vão contemplar a falta de representatividade de corpos, orientações sexuais e de possibilidades de mulheres fora do padrão. No entanto, pode ser um começo.

Se A história da Mulher Maravilha é uma boa biografia por mostrar como as pessoas envolvidas em sua criação estavam ligadas ao feminismo, ao poliamor e preocupadas em oferecer referências positivas para crianças sem um viés sexista, por outro lado, há pouquíssimo recorte de questões raciais, por exemplo. A leitura de Mulheres, raça e classe de Angela Davis ajuda muito a entender como movimentos pelo voto e pela liberação das mulheres tiveram momentos de colaboração entre mulheres brancas e negras e depois as pautas divergiram.

Talvez o maior problema do livro seja seu desfecho abrupto. O recorte de Jill Lepore está muito centrado nos movimentos os direitos reprodutivos e ela acompanha a trajetória da Mulher Maravilha e da família Marston Byrne e Holloway muito bem até a década de 70. Contudo, após a legalização do aborto, o livro, até então rico em detalhes, se torna um pouco corrido no sentido de dar um desfecho a história familiar. A retomada da mulher maravilha na Era de Prata dos quadrinhos fica de fora e os fãs de HQ sentem falta da contextualização e análise dessa parte do percurso da heroína. Considerando que a fase atual, aos cuidados de Greg Rucka, que deixou claro que a Mulher Maravilha se relaciona com homens e mulheres, é muito recente e está fora do recorte da autora.

Uma biografia cheia de curiosidades, capaz de nos fazer entender como certos produtos culturais podem ser falhos e ainda assim ter um impacto considerável no imaginário do público, A história secreta da Mulher Maravilha é um bom livro para entender como a princesa das amazonas continua despertando tantas discussões em 2017.

Escrito originalmente na newsletter a cartinha de banalidades que pode ser assinada em: http://tinyletter.com/stephieborges

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Stephanie Borges

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Jornalista, tradutora e poeta. Escrevo sobre livros, filmes, séries e cultura pop na newsletter: tinyletter.com/stephieborges

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