Cabelo, identidade e crianças sorrindo

Notas sobre abandonar a química, aprender a cuidar e espalhar a palavra

Na fila da sorveteria havia uma família na minha frente. O pai segurava um menino de mais ou menos três anos no colo e conversava com a mãe. O garoto me olhou e sorriu, ri de volta, e com sua inocência infantil sem filtro ele disparou “papai, olha o cabelo da moça”.

A surpresa não foi a criança estranhar meu cabelo volumoso e cacheado, mas a cara do pai, que mandou o moleque ficar quieto com um tom meio envergonhado sem travar qualquer contato visual comigo. Não era uma atitude maldosa do menino. A mãe dele tinha o cabelo pintado de louro, fino, liso. Era só um garoto que até aquele momento parecia não ter descoberto que cabelos podem ter texturas diferentes dos quais ele tinha visto até o momento. Acho que o pai perdeu a chance de ser simpático e ensinar algo a ele, em vez só mandá-lo parar de falar.

Por volta de 2012 de black power

Durante anos fui a vários dermatologistas por causa da acne, trocando tratamentos, mas sem grandes soluções. Vários deles me recomendaram usar Rouacutan, mas recusava por medo. Alguns amigos falaram de efeitos colaterais desagradáveis, aftas, queilites, e eu teria que tomar anticoncepcionais porque a medicação poderia causar problemas no caso de uma gravidez inesperada.

Uma vez, depois de repetir espertamente todos os meus motivos para um dermatologista que cogitou o Rouacutan, chegou minha vez de ouvir — mas você usa química no cabelo, né? — faço relaxamento com guanidina a cada três, quatro meses — mulheres grávidas também não podem usar certos produtos químicos para relaxar o cabelo porque podem ser prejudiciais. Mais uma vez na vida, eu não era tão esperta o quanto pensei.

Fiz as contas. Relaxava os cabelos há quase nove anos. De três a quatro vezes por ano. Em diversos momentos tive queimaduras no couro cabeludo, meu cabelo ficou fraco, quebrou, precisei cortar e deixar crescer. Ficava ansiosa, esperando quando poderia marcar o salão de novo porque as raízes estavam aparecendo. Eu achava feio. Tentava disfarçar, com faixas, mais creme, gel, mousse, mas só sossegava quando fazia o famigerado retoque.

Só que a conversa com a dermato me fez perceber que estava entrando na vida adulta sem nunca ter pensado em outra opção além de relaxar o cabelo. Já tinha descartado escovar toda semana, fazer touca, usar bobes. Eu não ficava bem de cabelo liso e achava inútil algo que não resistisse à água. E sem saber, enchia meu corpo de substâncias que eu nem sabia serem tão perigosas quanto o remédio que conscientemente me recusava a tomar durante seis meses.

Não foi de uma hora para outra que consegui voltar ao meu cabelo natural e aprendi a cuidar dele. Tudo começou com um corte errado. Pedi para moça tirar uns três dedos, porque estava querendo tirar o comprimento danificado pela química, ela entendeu a só “tirar a química” e me deixou com mais ou menos uns três dedos de cabelo.

Chorei, fiquei com raiva, me senti péssima. Foi a época em que mais ouvi “você é tão bonita, mas esse cabelo”. Comecei a reparar que as pessoas olhavam muito mais aquele corte curto, os cachinhos mínimos, do que numa cabeleira artificialmente relaxada do meio das costas. Eu não tinha mais como me esconder atrás de uma cabeleira, me sentia exposta.

Uma publicitária com quem trabalhava na época veio me elogiar e quando contei que o corte não tinha sido proposital, me animou: você é jovem, passa um batom vermelho, usa uns brincos grandes, muda o foco e ninguém vai reparar no seu cabelo.

E entendi que era eu quem precisava parar de ver o meu cabelo como um problema.

Quando mudei para São Paulo, tinha atingido a média de um a dois relaxamentos por ano, no Beleza Natural, onde me sentia muito a vontade com toda aquela mulherada cacheada. Tinha aprendido que hidratação é o segredo do negócio. Shampoo sem sal é bom, anti-resíduos pode ser uma vez por semana é legal, mas resseca muito. Sair da minha cidade e ter que refazer minhas referências de estabelecimentos de confiança fez com que eu desapegasse da química de vez. Lá se vão uns quatro anos de cabelo sem nenhuma química.

Fui a salões black na Galeria do Rock. Cortei um black power. Aprendi que a melhor forma de cortar o meu cabelo é seco. Não vivo mais sem difusor. Aceitei o volume. Comprei turbantes, faixas coloridas, flores de tecido. Adotei o batom vermelho.

Desde que a minha relação com meu cabelo mudou, acontece todo tipo de coisa. Crianças apontam na rua. Meninas cacheadas me olham com admiração e um brilho no olho. Mulheres desconhecidas me perguntam como cuido dos cachos. Uma senhora me catucou no metrô uma vez só dizer que achou meu cabelo bonito. Pessoas tentaram por a mão sem ter permissão, outras pediram para tocar.

Por isso o menino da sorveteria não me surpreendeu. E se ele só conviver com gente branca? Se todas as mulheres da família dele tiverem o cabelo liso ou fizerem progressiva? Eu também acho meu cabelo divertido, encaracolado, volumoso, macio, tudo bem ele me olhar e sorrir. Triste é falta de diversidade em sua vida que faz com que ele repare na diferença e o pai dele não saiba como ensinar a ele como lidar com isso.

Vejo muitas páginas no Facebook sobre cabelos cacheados, transição, meninas lindas no instagram reafirmando o orgulho dos seus cachos. No entanto, a única vez que vi alguém falar sobre o aspecto econômico dos cabelos crespos e cacheado foi o Chris Rock no documentário Good Hair.

Ele começa a perguntar o quanto as mulheres gastam com relaxante, produtos, apliques de cabelo humano. É assustador. Fora as horas passadas em salões, entre esperar e ser atendida. Então ele coloca alguns pontos: 1) a indústria cria o padrão branco, eurocêntrico, cabelo liso e lucra oferecendo uma série de opções que sempre farão as pessoas gastarem mais dinheiro para tentar resolver uma insatisfação permanente; 2) o que aquelas mulheres poderiam fazer com todo o dinheiro gastos com o cabelo? Pagar cursos, viagens, juntar, investir em melhorias em suas casas?

Eu tinha reparado que ao parar de fazer relaxamento, sobrou dinheiro para outras coisas. Menos produtos no trato diário, menos gastos ou produtos de melhor qualidade. Não vou entrar na discussão sobre um sistema perverso que faz com que as pessoas gastem seu dinheiro com a aparência deixando de priorizar outras coisas. Há pessoas que sabem exatamente o quanto custa sua química, seu aplique, sua progressiva e estão dispostos a bancar, é uma escolha. Minha preocupação é com quem ainda não percebeu que a escolha existe. Depois que as opções estão claras, há todo um caminho de tentativa e erro, de repensar a autoestima, de aprendizado. O legal é que dá pra encontrar um monte de gente na internet compartilhando sua a experiência e trocando dicas.

Há anos não uso mais shampoo. Foi uma das melhores coisas que me aconteceu. Fui cuidar dos cabelos no Salão Red Team e o Robson Trindade me apresentou o no poo. No início estranhei. Não faz espuma, embora dê para sentir o cabelo muito limpo no enxágue. Nas primeiras semanas, comecei a notar que o cabelo estava bem menos ressecado. Os cachos estavam ficando mais bonitos.

Passei a usar só no poo e condicionador. Sem creme para pentear, sem vários finalizantes. No máximo um pouco de gel da mesma linha do no poo para segurar a definição dos cachos entre uma lavagem e outra. Quando menos coisas ponho, mais leve, mais macio, mais hidratado tem ficado o cabelo. Então, quando alguém me pergunta o que faço no cabelo hoje, brinco que parei com as drogas, não uso nem shampoo.

Recentemente, encontrei meu tio e ele me contou que está ensinando para minha prima, de cinco anos, “em terra de chapinha, quem tem cachos é rainha”. Isso me dá muitas razões pra sorrir.

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