Uma janela pra si: a experiência revisitada dos ensaios
Carla Soares
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Carla,

talvez a maior questão não seja falar de si — porque certos recortes denunciam a posição da qual falamos, nossas questões, o que nos incomoda — mas o como falar. Nos últimos anos passei a ler mais ensaios e fiquei fascinada por eles justamente porque, mesmo quando falam de algo muito particular, há uma perspectiva que se abre para o outro. Não é uma exposição centrada no ‘eu’ mas usá-lo como instrumento para contar uma história.

Eu estou lendo o Hunger, da Roxane Gay, e ela consegue fazer isso de maneira espantosa. Ela é uma mulher escrevendo sobre suas memórias e sua relação com seu corpo e sabe que muitos de seus leitores não fazem a menor ideia de como é ser gorda, ainda mais da forma como ela é, alta, negra e considerada obesa. Ela oscila entre o distanciamento de uma análise cultural (moda, realities shows de emagrecimento, assentos em salas de aula, aviões, transporte público) e questões pessoais: sentir dor, estar constantemente cansada, ter medo de estabelecer contato físico com as pessoas a menos que sejam muito íntimas.

No entanto, parte das questões e como ela as aborda, acabam nos levando a pensar em milhares de pessoas que já vivenciaram situações parecidas porque não se enquadram nos padrões de magreza (nem é beleza mais, enfim). Tenho pensado muito nessa questão de estar presente no texto, sem no entanto, falar de si o tempo todo, porque talvez seja isso que abra possibilidades para que o outro se identifique, em vez de parecer um exercício narcísico.

mais uma vez, gostei muito do ensaio!

beijos!

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