Era uma vez, uma reforma…

a casa própria, os desafios da manutenção e a vidadulta

Os anos passam e vamos redefinindo a ideia do que é crescer. Estabelecemos marcos, ritos de passagem. Entrar na faculdade, sair de casa, arrumar emprego. No entanto, a vida não está nem aí para nossas pretensões da classe média que teve oportunidades de estudar mais dos que as duas últimas gerações. Ou para o tipo de ser humano que você desejava ser aos 30 anos. Em algum momento, você vai levar um caixote, uma rasteira, um cambau. E diante disso, só se pode continuar.

Fui criada por uma mãe viúva, ouvindo “você precisa saber se virar”, “mulher sozinha tem que matar barata, trocar pneu, trocar chuveiro”. Acreditei, durante muito tempo, que a maturidade estivesse ligada à autonomia. Ganhar grana, pagar contas, resolver problemas. E por mais que a experiência confirme a necessidade de alguma independência, quando me achava bem adulta, capaz de fazer meu imposto de renda e pagar a terapia, me aparece uma obra.

Acompanhar a reforma do meu apartamento foi confrontar a minha ignorância. Talvez a última que tenha me sentido tão perdida foi quando comecei a faculdade. Ouvia professores falarem de filmes, livros, teóricos e todo um jargão jornalístico que só viriam a fazer sentido com os anos, muita leitura e o mundo do trabalho.

O primeiro baque era não saber qual era o problema com o apartamento e não pode contar com um profissional de confiança. Então eu era a mulher levando pedreiros sozinha no imóvel e pedindo orçamentos. Sabia havia uma matemática de mão-de-obra x tempo de serviço em ação, mas não podia evitar a sensação de que a minha cara, minha atitude, a forma de falar, tudo isso entrava nas contas.

Um dos problemas de passar a sua vida sendo medida pelo fato de ser mulher é introjetar uma série de mecanismos: endurecer a postura ao entrar em certos lugares, pisar mais duro, sorrir menos. É extremamente desconfortável estar em uma posição em que você precisa negociar sobre algo do qual você não faz ideia de como funciona. Ouvi muito sobre saber limpar, cozinhar, fazer mercado, pequenos reparos, mas nunca a respeito de obras, educação financeira e quanto mais velha fico, mais me pergunto “por que não me falaram sobre isso antes?” .

Passada a fase dos orçamentos — com direito um senhor simpático me propondo valores absurdos por uma gambiarra e depois pedindo para eu abrir o jogo sobre o quanto podia gastar para ele resolver o problema — consegui fechar o serviço com um profissional que me parecia jogar limpo, me deu uma estimativa realista e cobrou dentro das minhas possibilidades.

Há uma coisa curiosa em conversar com pedreiros. Você percebe que alguns deles tentam fazer você falar, para entender suas expectativas. Uns são pragmáticos e vão direto para o pior cenário. Outros fazem você se sentir numa partida de poker, você não sabe o que eles estão pensando, nem o que é blefe.

A realidade era: o encanamento do imóvel precisava ser trocado. A obra começou com o tom “vamos descobrir a gravidade da situação quando quebrarmos as paredes” e conforme canos enferrujados e entupidos iam sendo revelados, só conseguia torcer para que os prazos não se tornassem elásticos.

O segundo baque era chegar nas lojas de materiais de construção e descobrir que os itens na minha lista tinham diferenças de valores absurdos. Pisos, azulejos, privadas, lavatórios, torneiras. Era como jogar The Sims: você pode colocar esse vaso sanitário higiene e conforto 2 ou gastar o dobro do valor em outro higiene e conforto 4, mas eles basicamente servem para fazer xixi e cocô. Qual o critério objetivo para tomar uma decisão?

Se para encontrar um pedreiro, as recomendações de amigos foram fundamentais, para resolver a questão dos materiais, a ajuda foi uma grande surpresa. Minha mãe comentou com uma amiga sobre a reforma, e ela, arquiteta, escreveu um e-mail imenso explicando sobre qualidades de louças e material hidráulico, anéis de vedação, resistência de pisos, tipos de rejunte e aplicações de azulejos. De repente, não estava mais perdida entre a lista de material e vendedores tentando me empurrar a argamassa disponível no estoque. Sabia como definir as prioridades.

A obra serviu para me lembrar de como a ajuda pode vir de lugares inesperados. Reluto em falar sobre os meus problemas, não gosto de pessoas se metendo na minha vida. No entanto, se amadurecer serve de alguma coisa é a distinguir interesses e generosidade. É entender que coisas boas feitas em algum momento da vida se convertem em karma bom e voltam. Não quando você quer, mas quando mais precisa, embora nem tenha se dado conta da necessidade.

Outra fonte de angústia eram as lojas de materiais de construção. Ultrapassada a fase da ignorância brutal, outra dificuldade eram vendedores que agiam como se o pedreiro tivesse pedido coisas erradas ou demais apenas porque eles não tinham para vender.

Uma loja vendeu produtos certos, mas com medidas erradas — ah, mas o registro era 1/2 e não de 3/4? ah, mas a senhora fica com crédito aqui! — teve o sujeito vendeu uma peça dizendo “todo lavatório tem um buraco do mesmo tamanho para colocar o ralo” [mentira]. Ser uma pessoa com uma lista imensa de compras em época de crise parece despertar a sanha de ganhar dinheiro nos vendedores. Até você descobrir se precisará de troca ou não, a comissão dele está garantida.

Há o aprendizado de novo um vocabulário para nomear partes da ignoradas da casa: joelhos, misturadores, prolongadores, canaletas. A certeza de que, nos últimos dias surgirão pequenos detalhes e escolhas aparente supérfluos “mas já que estamos mexendo”. Tem aquela cagadinha porque o pedreiro fez na pressa porque o prazo está chegando.

Foram dois meses nessa loucura. Tive pesadelos em que não terminávamos de achar problemas no imóvel. Saía de casa para procurar e comprar coisas que até a véspera não sabia existirem, nem para que serviam. Checava saldos e extratos calculando o quanto ainda podia gastar. Recebi ajudas inesperadas dos vizinhos, que sem eu pedir, receberam materiais e abriram chamadas para retirar parte do entulho porque a prefeitura só abre uma nova solicitação dez dias de que seu último chamado foi atendido.

Cuidar da reforma me fez refletir sobre os meus limites, me colocou diante de gentilezas surpreendentes. Deu medo, mas também alívio. Fez com que parasse para pensar quando foi a última vez em que pensei “não vou dar conta dessa merda”, mas resolvi assim mesmo. No fim, ainda que inventemos definições, ritos de passagem e tudo mais, saí dessa obra me sentindo um pouco mais adulta por lembrar que, na verdade, passamos boa parte da vida sem sabermos direito o que estamos fazendo, mas a construindo uma imagem de estabilidade, saberes e segurança.

O importante é aceitar o caixote, a rasteira. Você vai cair. Todo mundo cai. Depois disso, é levantar.

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