Familiar

Stephanie Borges
Aug 28, 2017 · 3 min read

minha avó perdeu sua melhor amiga
sua madrinha de casamento, há 53 anos
uma amiga que a viu casar ter filhos
lamentar ter se casado,
viu seus filhos e os de minha avó
saírem da cidade, de casa, do armário
voltarem pro subúrbio, atravessarem o túnel
depois de casados e terem crianças
bem diferentes de seus filhos e filhas
netos que ainda não sabemos quem serão,
minha avó e sua amiga perderam suas mães irmãos
ao longo desses 53 anos também se foram
outras amigas com quem organizavam festas
de ano novo, acampamentos e férias na praia
barracas isopores crianças
seus maridos são compadres,
grandes amigos, sobreviveram
a chegada ao Rio de Janeiro,
à ditadura militar, às crises econômicas,
angioplastias, parkinson, quimioterapia
resistiram ao tédio trazido pela aposentadoria
a homens que trabalham desde a infância
e vivem mais
seus pais não envelheceram o bastante
para um amizade durar tanto
53 anos e a família cresceu e
madureira, colégio, irajá,
cascadura, méier, copacabana,
vila da penha, jardim botânico,
ilha do govenador
quem nos vê não diria,
tudo começou com uma lavadeira,
melhor nunca esquecer,
diz a irmã da minha avó
de quem ela nem é próxima,
o quanto era de sua amiga,
mas cuidou das sobrinhas, uma delas
a primeira da família a fazer faculdade
uma médica quando todas outras antes
só terminaram o primário, a primogênita
a abrir caminho para professoras,
a jornalista, a historiadora, a veterinária
só agora os meninos estudam,
os filhos dos filhos
de minha avó vão para universidade
quando seus pais nessa idade
se preocupavam em ganhar a vida
minha avó e sua amiga viram
as mulheres que vieram depois
e a maior facilidade pra estudar,
ganhar dinheiro, dar, separar
criar filhos continua difícil
talvez hoje em dia mais ainda, minha filha
dizia a amiga de minha avó,
que já era bisa, aconselhando a não ter pressa
enquanto a vó perguntava
e o bebê?
ainda há tempo
o tempo das mães é sempre outro
53 anos e as duas amigas conversavam
sobre filhos, suas falhas
não ensinaram, eles não têm juízo
mas crises de meia idade, dívidas,
filhos tardios enchendo a casa
de som outra vez aos domingos
enquanto se juntam, seus maridos
se espantam com a própria idade
quero morrer antes dela, não agora
repete meu avô e seu compadre aconselha
não pense nisso.
no enterro, meu avô chorava
não só pela madrinha perdida
mas com medo, o mundo mudando
aconteceu a seu amigo o seu maior temor,
mas minha avó havia perdido sua melhor amiga
e não a vimos chorar, se alguém viu nem comentou
sentimos o luto
em todas as coisas não ditas
que uma boa mulher não deveria confessar,
talvez divididas apenas
com quem é possível compartilhar
meio século, a nostalgia, as verdades
cruéis e duras de se articular
as jovens irão descobrir,
e torcer que não venha o dia em que verão
o mundo desconfigurado pela perda
os pais irmãos o genro
desaparecerem, a possibilidade de futuro
mais curta, as ausências acumuladas,
e um outro silêncio
não o do entendimento
a dispensar palavras
quando se tem uma boa amiga

Stephanie Borges [fev.2017]

)

Stephanie Borges

Jornalista, tradutora e poeta. Escrevo sobre livros, filmes, séries e cultura pop na newsletter: tinyletter.com/stephieborges

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade