Familiar

minha avó perdeu sua melhor amiga
sua madrinha de casamento, há 53 anos
uma amiga que a viu casar ter filhos
lamentar ter se casado,
viu seus filhos e os de minha avó
saírem da cidade, de casa, do armário
voltarem pro subúrbio, atravessarem o túnel
depois de casados e terem crianças
bem diferentes de seus filhos e filhas
netos que ainda não sabemos quem serão,
minha avó e sua amiga perderam suas mães irmãos
ao longo desses 53 anos também se foram
outras amigas com quem organizavam festas
de ano novo, acampamentos e férias na praia
barracas isopores crianças
seus maridos são compadres,
grandes amigos, sobreviveram
a chegada ao Rio de Janeiro,
à ditadura militar, às crises econômicas,
angioplastias, parkinson, quimioterapia
resistiram ao tédio trazido pela aposentadoria
a homens que trabalham desde a infância
e vivem mais
seus pais não envelheceram o bastante
para um amizade durar tanto
53 anos e a família cresceu e
madureira, colégio, irajá,
cascadura, méier, copacabana,
vila da penha, jardim botânico,
ilha do govenador
quem nos vê não diria,
tudo começou com uma lavadeira,
melhor nunca esquecer,
diz a irmã da minha avó
de quem ela nem é próxima,
o quanto era de sua amiga,
mas cuidou das sobrinhas, uma delas
a primeira da família a fazer faculdade
uma médica quando todas outras antes
só terminaram o primário, a primogênita
a abrir caminho para professoras,
a jornalista, a historiadora, a veterinária
só agora os meninos estudam,
os filhos dos filhos
de minha avó vão para universidade
quando seus pais nessa idade
se preocupavam em ganhar a vida
minha avó e sua amiga viram
as mulheres que vieram depois
e a maior facilidade pra estudar,
ganhar dinheiro, dar, separar
criar filhos continua difícil
talvez hoje em dia mais ainda, minha filha
dizia a amiga de minha avó,
que já era bisa, aconselhando a não ter pressa
enquanto a vó perguntava
e o bebê?
ainda há tempo
o tempo das mães é sempre outro
53 anos e as duas amigas conversavam
sobre filhos, suas falhas
não ensinaram, eles não têm juízo
mas crises de meia idade, dívidas,
filhos tardios enchendo a casa
de som outra vez aos domingos
enquanto se juntam, seus maridos
se espantam com a própria idade
quero morrer antes dela, não agora
repete meu avô e seu compadre aconselha
não pense nisso.
no enterro, meu avô chorava
não só pela madrinha perdida
mas com medo, o mundo mudando
aconteceu a seu amigo o seu maior temor,
mas minha avó havia perdido sua melhor amiga
e não a vimos chorar, se alguém viu nem comentou
sentimos o luto
em todas as coisas não ditas
que uma boa mulher não deveria confessar,
talvez divididas apenas
com quem é possível compartilhar
meio século, a nostalgia, as verdades
cruéis e duras de se articular
as jovens irão descobrir,
e torcer que não venha o dia em que verão
o mundo desconfigurado pela perda
os pais irmãos o genro
desaparecerem, a possibilidade de futuro
mais curta, as ausências acumuladas,
e um outro silêncio
não o do entendimento
a dispensar palavras
quando se tem uma boa amiga
Stephanie Borges [fev.2017]
