outro lugar

um poema para Angélica Freitas

foto de Francesca Tirico

para embarcar na poesia
contemporânea é preciso passar 
pelo poema de aeroporto

cite um país 
fora do circuito turistão
ou uma cidade não óbvia 
se for um destino muito desejado

na ausência de um drink 
com nome curioso, escolha:
café, 
chá, 
uma coca cola com você
água, só se for com gás

emule a linguagem afetiva
e recortada dos cartões postais
ou apenas dê um jeito 
de colocá-los em cena

use um vocativo,
para atrair o leitor, logo em seguida
jogue uma piada interna com os amigos
deixando claro 
que não, o poeta não estava
pensando em quem lê

mas em A., M. ou em D. 
insira a inicial 
de uma pessoa querida
ou uma letra avulsa que soe bem

evoque uma sensação
estranhamento, impermanência
fragilidade

ao observar uma cena que se passa num(a)
( ) café
( ) bar
( ) livraria
( ) saguão de aeroporto
( ) estação de trem

traga uma escritora, um autor 
pouco conhecido
talvez ainda sem tradução, 
ouse, faça uma versão livre

vá da reminiscência 
para uma canção daquela banda indie 
e insira uma estação do ano

ou eleve o tom e cite 
música clássica, mas
jamais um compositor
sequestrado 
por centrais telefônicas
nem pelo caminhão de gás

se o poeta mora 
onde há tubulações, como saberia
o que fizeram com Beethoven

artistas pop com trabalhos conceituais
também valem, especialmente se
fazem parte de minorias

descreva um obra de arte
que fará o leitor 
recorrer ao google se ele estiver
num lugar com wi-fi ou ainda
houver uns megas em seu pacote 
de dados

cole um trecho de conversa 
engraçada mantida em sua mídia social favorita, 
é de bom tom 
avisar ao interlocutor,
vai que

na edição do poema de aeroporto
além dos cortes 
que evocam
 movimento, 
a incapacidade
de captar o instante, 
o ouvido sensível à língua 
estrangeira
o analfabetismo 
geográfico

caem fora 
os boletos que podem ser pagos 
com a taxa do passaporte
[considerando que PF ainda emita] 
a passagem parcelada na promoção,
o câmbio meses antes, horas pesquisando
hospedagens, o tédio do voo atrasado,
a bagagem perdida [qualquer perrengue 
diferente ser confundido com terrorista 
não entra no poema]

e cabe menos ainda 
o dia em que o plano 
era passear a pé mas a chuva
fez o poeta se refugiar num
museu/ bar/ café
com seu caderninho e
(volte para a segunda estrofe)

Stephanie Borges
jul/2017

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