Setembro amarelo, silêncio e suicídio

Sobre como eu era ignorante até perder alguém

É necessário reconhecer como só nos tornamos atentos a determinados assuntos quando eles se tornam parte da nossa história. Há alguns anos, um amigo muito querido cometeu suicídio. Lembro-me de quando recebi a notícia. A ligação falha, a voz embargada da amiga do outro lado da linha. Uma estranha sensação de irrealidade, até outras mensagens começarem a chegar, de outros amigos, com mais informações sobre o acontecido, o funeral. Eu, que por princípios não choro no trabalho, fui atrás de um canto no depósito da editora e um pouco de privacidade.

2016 é o primeiro ano em que ouvi falar sobre o Setembro Amarelo. Acompanhei diversas postagens divulgando atendimento psicológico gratuito ou a preços acessíveis, comentando a importância de profissionais preparados para lidar com realidades diferentes das suas. Observo esses debates com a esperança de que haja uma sensibilidade maior sobre a questão da saúde mental, menor preconceito sobre tratamento psiquiátrico e psicanálise.

Quando meu amigo morreu, muitas coisas me passaram pela cabeça. A primeira delas foi “pelo que ele passou para tomar uma decisão dessas?”. Não nos falávamos há quase um ano e nossa última conversa, por e-mail, tinha sido dura. Ele falava de suas dificuldades em encarar um emprego careta 40h por semana, arcar com aluguel, contas e ainda cuidar de si mesmo, ter um relacionamento afetivo saudável. Como a necessidade de grana dificultava sua dedicação à arte. Eu compreendia o quanto ele considerava toda a dinâmica desgastante e concordava. No entanto, ele agia como se fosse muito fácil para mim, e aquilo me magoava.

Um dia fui clara sobre como me chateava a visão que ele tinha da minha vida, como se minhas conquistas fossem fáceis. Precisei me esforçar para conseguir e manter meus empregos, depois de dividir as contas da casa o meu maior gasto era a análise, escolhi viver em São Paulo e muita coisas boas me aconteceram lá, mas às vezes me sentia deslocada. Era cômodo imaginar a realidade dos outros como algo mais leve e ignorar os percalços alheios, mas nenhuma vida é um comercial de margarina da década 90. Ele nunca me respondeu. Se algum dia imaginasse que seria a nossa última troca de e-mails, teria procurado por ele enquanto pude, o meu tom seria outro.

Nunca sabemos como será nossa última conversa com alguém até não termos mais a oportunidade. Queremos acreditar no tempo como apaziguador das nossas mágoas, na chance de reencontrar e pedir desculpas. No fato de que a pessoa terá experiências e será capaz de compreender o nosso lado. Embora nos conhecêssemos há anos e bem, sentia nele numa tendência a comparar nossas trajetórias e se colocar numa posição de quem estava ficando para trás. Eu não tinha interesse em discutir quem tinha mais problemas, apenas não queria ser tratada como se tudo para mim se resolvesse magicamente. Todo mundo tem as suas questões e dificuldades, apenas são diferentes.

Sabia que ele tinha depressão, vivia fases boas e ruins, e conversávamos a respeito. No entanto, só depois da morte dele passei a prestar atenção sobre como os relatos de pessoas deprimidas abordam a dificuldade de se comunicar. A imagem d’ A redoma de vidro se tornou mais nítida, sólida e capaz de turvar o mundo do lado de fora. Era fácil ler Sylvia Plath, mas não sabia nada sobre o ar viciado lá dentro.

É narcisista e arrogante imaginar que houvesse algo que eu pudesse fazer para evitar o suicídio dele. Jamais tive essa pretensão. No entanto, me pergunto se poderia ter sido uma amiga mais atenta e presente. Quais perguntas deixei de fazer? Quantas mágoas seriam evitadas ao levar em conta que estava lidando com alguém doente, não apenas um sujeito inteligente e sensível se sentindo triste, inadequado diante das exigências sociais.

Perder um amigo fez com eu passasse a ler sobre depressão e empatia. É fácil compartilharmos frases motivacionais nas redes socias, mas o quanto estamos dispostos a reconhecer nossa ignorância sobre a experiência de quem lida com transtornos mentais. Estamos realmente ouvindo? Queremos aprender a respeito? Ou apenas repetindo clichês?

É fácil querer gentileza, mas como ser gentil?

Ouvia sobre os momentos ruins do meu amigo, mas achava que o meu papel era ter uma atitude otimista. Dizer que cada um tem seu tempo. Não é porque os outros decidiram seus rumos profissionais na primeira graduação que ele precisava se cobrar por ter mudado de curso. Dividir aventuras afetivas e observar como precisamos aceitar quem somos, assumir a responsabilidade pela nossa felicidade e não jogar as expectativas por se sentir completo em um relacionamento. Ele tinha clareza sobre como a sociedade nos oferecia modelos injustos, mas ainda assim, tinha seus dias em que era duro consigo se medindo por padrões tortos.

Conviver com pessoas com depressão, transtorno bipolar ou ansiedade, sem ter enfrentado essas condições, faz com que esbarremos no incomunicável. Nuances da experiência escapam. No entanto, é possível se fazer presente, perguntar, filtrar o que ouvimos, o ruído e a distorção provocados pela redoma. São limites tênues, tentativa e erro.

A minha dor é só uma, entre tantas pessoas que também amavam esse meu amigo e sentem a sua falta. Mal consigo imaginar a verdadeira extensão da sua ausência. Posso falar apenas do impacto de sua morte sobre mim, de como a vida me parece ainda mais frágil. De como o suicídio me faz pensar menos em tought love e mais em acolhimento, embora muitas vezes não saiba como fazer isso.

Não há o que eu possa fazer, além de tentar me perdoar por ter sido dura e ter ficado na minha, me sentindo incompreendida. Há uma regra não escrita no jornalismo de não cobrir suicídios para não glamourizar o ato, no entanto, me pergunto o quando esse silêncio reforça o tabu. Não falamos de suicídio, não falamos de morte, nem de luto. Da perplexidade de perder alguém dessa maneira. Não falamos de saudade, porque parece haver algo de vergonhoso em reconhecer sentir falta de alguém capaz de acabar com a própria vida.

Duvido que falar sobre suicídio nos leve a compreendê-lo, mas pode ser útil para processar a perda. Pode tornar um pedido mais fácil para quem precisa de ajuda. Não há garantias, mas vale tentar.

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