Um Manifesto do Afro-Surreal

Contemple o invisível! Você verá maravilhas desconhecidas!

Stephanie Borges
Sep 3, 2018 · 4 min read
La Junge, de Wifredo Lam (1943)

1. Nós vimos estes mundos desconhecidos emergirem do trabalho de Wifredo Lam, cujas origens afrocubanas inspiram obras que falam de deuses antigos com novos rostos, e nas obras de Jean-Michel Basquiat, que nos deu novos deuses com rostos antigos. Nós ouvimos este mundo nas tompas-ebó de Roscoe Mitchell e nas letras de DOOM. Nós os lemos pelas palavras de Henry Dumas, Victor Lavalle e Darius James. Este mosaico embrionário de influências radicais se estende de Frantz Fanon a Jean Genet. Murmúrios sobrenaturais de Reed e Zora Neale Hurston se misturam com o estilo dos rabiscos implacáveis de Chester Himes e William S. Burroughs.

2. O Afro-Surreal pressupõe que além deste mundo visível, existe um mundo invisível empenhado em se manifestar, e é nosso trabalho revelá-lo. Como os Surrealistas africanos, Afro-surrealistas reconhecem que a natureza (também a natureza humana) cria mais experiências surreais do que qualquer outro processo teria a esperança de produzir.

3. Afro-surrealistas restauram o culto do passado. Nós revisitamos os costumes antigos com novos olhos. Nós nos apropriamos dos símbolos da escravidão do século 19 como Kara Walker, dos símbolos coloniais do século 18 tal qual Yinka Shonibare. Nós re-apresentamos a “loucura” como visitas dos deuses, e reconhecemos a possibilidade da magia. Nós damos continuidade às obsessões dos antigos e acendemos a chama do des-conforto, clareando a névoa da inconsciência coletiva que se manifesta nestes sonhos chamados de cultura.

recortes de Kara Walker

4. Afro-Surrealistas usam o excesso como o único modo legítimo de subversão, e a hibridização como forma de desobediência. As colagens de Romare Bearden e Wangechi Mutu, a prosa de Reed, e a música de Art Emseble of Chicago e Antipop Consortium expressam este transbordamento.

Afro-Surrealistas distorcem a realidade para um impacto emocional. 50 Cent e seu tom frio monótono e Walter Benjamin com suas táticas de choque pouco cordiais podem beijar as nossas bundas. Basta! Nós queremos sentir alguma coisa! Queremos chorar em público!

5. Afro-surrealistas se empenham no rococó: o belo, o sensual e o impulsivo. Nós apelamos a Sun Ra, Toni Morrison e Ghostface Killa. Nós contemplamos Kehinde Wiley, que observa o corpo do homem negro de uma forma que se aplica à toda arte e cultura: “Não existe imagem objetiva. E não há um modo de ver a imagem em si objetivamente.”

“You are my sunshine”, de Wangechi Mutu (2015)

6. A vida dos Afro-Surrealistas é fluída, repleta de pseudônimos e censos — desafiando classificações. Não há endereço ou número de telefone, nenhuma disciplina ou vocação. Afro-Surrealistas são commodities de alto rendimento a curto prazo (em oposição às que recebem muito pouco em longo prazo, também conhecidas como escravos).

Afro-surrealistas são ambíguos. “Sou preto ou branco? Sou hétero ou gay? Polêmica!”

Afro-Surrealistas rejeitam a servidão silenciosa que caracteriza os papéis existentes para os afrodescendentes na América, os de ascendência de asiática, os latinos, as mulheres e pessoas queer. Apenas através da mistura, da combinação, da conversa cruzada entre estas supostas classificações pode haver a esperança de libertação. O Afro-surrealismo é intersexual, Afro-Asiático, Afrocubano, místico, tolo e profundo.

7. O Afro-Surrealista usa uma máscara enquanto lê Leopold Senghor.

pintura de Kehinde Wiley

8. Ambíguo como Prince, negro como Fanon, literário como Reed, dândi como André Leon Tally, o Afro-Surrealista busca a definição no absurdo de um mundo “pós-racial”.

9. Na moda (John Galliano; Yohji Yamamoto) e no teatro (Suzan Lori-Parks), o Afro-Surreal escava os resquícios deste pós-apocalipse com um instinto dandificado, uma língua suave e um coração sem coração.

10. Afro-Surrealistas criam deuses sensuais para rastrearem os ícones de uma beleza colapsada.

Traduzido de Afro-Surreal Generation, de D. Scot Miler.

Stephanie Borges

Written by

Jornalista, tradutora e poeta. Escrevo sobre livros, filmes, séries e cultura pop na newsletter: tinyletter.com/stephieborges

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