Mudar de casca

Eu não me lembro de gostar de algumas coisas, os gostos sempre mudam. Lá vou eu falar de coisas que eu mesmo faço e depois critico, criticar é viciante e me vicio fácil. Todo vício deixa marcas, o de pessoas, de carinho, do próprio vício, e toda marca é uma lembrança cíclica. Sim, lembramos em círculos, nos viciamos em círculos, isso tudo porque nos tornamos dependentes facilmente, porque a rotina evita o erro. Dessas vontades ressurgentes, saem pela tangente os resultados de vivermos arraigados à dependência: ela apaga cada traço de identidade que edificamos. Lembro de gostar de coisas que me deixavam feliz, alegre, uma pessoa diferente. Talvez tudo que vicie dê esse efeito estúpido de uma inconsciência plena, torpe, que liquefaz a identidade em virtude de um objetivo mais débil ainda. Cria-se o costume de fazer tanto uma mesma coisa, boa ou ruim, que não a fazer nos dá a sensação de não cumprirmos nosso papel dentro do nosso próprio corpo, como se contrariássemos uma vontade unilateral, absoluta, como se não fossemos mais nós mesmos. Cada vez que se faz as vezes de viciado em qualquer coisa, por puro azar, aquela índole sem consciência se faz dominante, e não se percebe que se perde a voz, que tu já não é quem era, o que é não pode ser. Lembro de como tu não gosta de vícios, diz que eles te sequestram e só devolvem quando o êxtase passa. Tu tens razão, o viciado é sempre a máscara de um indivíduo comum. É estranho, concordas? Gosta-se de algo, idolatra-se algo, e em troca, damos nossa identidade. Evoluir é trocar de casca. O triste de tudo ou a catarse, como preferir, é que uma realidade é sempre relativa, pra mim, pra ti, pra ele… não dá pra dizermos, embasados por uma empírica lembrança ruim e individual, que ser viciado é errado, pois é possível e comum assumirmos a forma extasiada e divergente da original como uma válvula de escape de uma realidade nefasta, como uma rota de fuga de um problema maior. Nos viciamos em ignorar pessoas pois uma nos fez mal, em beber por não suportarmos um fado de culpa, em alguém que nos dê carinho, nos viciamos em uma pessoa por medo de perdê-la. Tu sabes, eu sei, toda forma de vício é uma forma de se esconder do desafio de encontrar uma nova visão, interpretação, ideologia que nos faça sentir bem. O controverso é que, nesses casos, perder a velha identidade é ganhar uma nova, apagar a que não se adaptava aos intemperismos, criar uma casca impenetrável aos infortúnios da vida. Pois, no fim das contas, se o objetivo é a felicidade individual, se cada vontade for mutável e incompatível com determinadas situações, somos, para mais “controversidades”, seres sem uma identidade única, pois ela não existiria, assim, seria o desejo pelo nosso próprio bem, a busca de cada ideal, o alicerce sustentador de cada nova identidade.