A industrialização das tarefas domésticas: uma proposta de Angela Davis

“Se fosse possível acabar com a ideia de que as tarefas domésticas são um trabalho da mulher e, ao mesmo tempo, redistribuí-las igualmente entre homens e mulheres, esta seria uma solução satisfatória? Liberadas de sua associação exclusiva com o sexo feminino, as tarefas domésticas deixariam de ser opressivas?”

No livro “Woman’s Work: The Housewife, Past and Present”, Ann Oakley demonstrou que as “tarefas domésticas” consomem, em média, de 3 mil a 4 mil horas — de125 a166 dias — do ano de uma dona de casa.

É com essa informação que Angela Davis inicia o capítulo 13, denominado “A obsolescência das tarefas domésticas se aproxima: uma perspectiva da classe trabalhadora”, do livro “Mulheres, Raça e Classe”.

Ao analisar a relação entre “tarefas domésticas” e “donas de casas”, Davis diz que, embora o movimento de mulheres tenha “encorajado as mulheres a reivindicar que seus companheiros ofereçam auxílio nesse trabalho”, e obtido avanços nesse sentido, “desvincular o trabalho doméstico do sexo não altera a natureza opressiva do trabalho em si”.

“Em última análise, nem as mulheres nem os homens deveriam perder horas preciosas de vida em um trabalho que não é nem estimulante, nem criativo, nem produtivo”.

Davis defende a inclusão deste trabalho na economia industrial, de modo que:

“Equipes treinadas e bem pagas de trabalhadoras e trabalhadores, indo de casa em casa, operando máquinas de limpeza de alta tecnologia, poderiam realizar de forma rápida e eficiente o que a dona de casa atual faz de modo tão árduo e primitivo”.

Entretanto, para ela, a economia capitalista é estruturalmente hostil à industrialização das tarefas domésticas.

“A socialização das tarefas domésticas implica amplos subsídios governamentais, a fim de garantir que se torne acessível às famílias da classe trabalhadora, para as quais a necessidade desse serviço é mais evidente. Uma vez que, em termos de lucro, o resultado seria pequeno, a industrialização das tarefas domésticas — como todas as iniciativas que não geram lucro — é um anátema para a economia capitalista.”

Porém, mesmo com esta hostilidade, como a força de trabalho feminina está se expandindo, a industrialização e a socialização das tarefas domésticas se tornam cada vez mais uma necessidade social concreta. Assim,

“As tarefas domésticas, enquanto responsabilidade individual reservada às mulheres e trabalho feminino realizado sob condições técnicas primitivas, finalmente podem estar chegando ao ponto de obsolescência histórica”.
Imagem encontrada no Google Imagem. Autor desconhecido.

Desse modo, Davis diz que o fato de “50% de todas as mulheres dos Estados Unidos trabalharem é um forte argumento para que o peso das tarefas domésticas seja aliviado” e defende a abolição das tarefas domésticas.

Para ela, é necessário novas instituições sociais que assumam parcela das velhas obrigações da dona de casa. Esse é o desafio que emana das fileiras cada vez maiores de mulheres da classe trabalhadora.

Ela cita, como exemplo, que a reivindicação pelo atendimento universal e subsidiado em creches é uma consequência direita do número crescente de mães trabalhadoras.

“E, à medida que mais mulheres se organizam em torno da reivindicação por mais empregos — empregos em termos de completa igualdade com os homens -, questões sérias são cada vez mais levantadas a respeito da viabilidade futura das obrigações das mulheres como dona de casa.”

Ela também diz que a linha de montagem, sem dúvida, é o mais poderoso incentivo para que a mulher pressione pela eliminação de sua antiga escravidão doméstica — mesmo considerando que a “escravidão a uma linha de montagem” não é em si a “libertação da pia da cozinha”.

Assim, ela concluí que a “abolição das tarefas domésticas enquanto responsabilidade privada e individual das mulheres é claramente um objetivo estratégico da libertação feminina”.

Por fim, Angela Davis ressalta a importância da luta pelo socialismo na libertação feminina:

“a socialização das tarefas domésticas — incluindo o preparo das refeições e o cuidado das crianças — pressupõe colocar um fim ao domínio do desejo de lucro sobre a economia. Os únicos passos significativo na direção da eliminação da escravidão doméstica foram dados, de fato, pelos países socialistas atuais. As trabalhadoras, portanto, têm um interesse vital e particular na luta pelo socialismo. Além disso, no capitalismo, as campanhas por empregos em base de igualdade com os homens, combinadas com movimentos pela criação de instituições como creches subsidiadas pelo poder público, contêm um potencial revolucionário explosivo. Essa estratégia coloca em dúvida a validade do capitalismo monopolista e deve, em última análise, aponta na direção do socialismo.”

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. S.Paulo: Boitempo, 2016 [1981].