Capítulo 1: o crime que nos une

A sequência de dois tiros quase sem intervalo acordou de sobressalto alguns moradores da Avenida Princesa Isabel, em Vitória. Embora acostumados com o barulho constante no movimento de boêmios e prostitutas que insistem em passar por ali, os habitantes do centro histórico passavam por uma noite tranquila, silenciosa e escura em uma das principais vias da cidade. Por ali a jovem Mariana Salles andava com passos apressados em direção à Rua Sete, onde morava desde que deixou a casa dos pais no interior do estado. Mariana não era exatamente o perfil de beleza que as moças de academia se espelhavam na briga diária por um corpo sarado. Ela era muito magra, com pouco mais de 1.70 de altura e durante o dia chamava mais atenção por seu longo cabelo castanho. Mas na noite da Boate Blitz era a principal estrela, atraindo quase todos os homens de idade, jovens empresários, aposentados, políticos e outros figurões que frequentavam a casa. Em meio a duas loiras e duas mulatas, Mariana, apresentada simplesmente como Miss M, brilhava e atraia olhares gulosos, gorjetas generosas e propostas indecentes para estender a noite em alguma suíte de frente para a praia. Como sempre, recusava todas as ofertas e após o trabalho vestia-se para iniciar a caminhada de poucos metros até sua casa, um pequeno apartamento de quatro ambientes no segundo andar de um prédio antigo. Naquela noite, porém, avistou Jonas logo na saída da boate. Ele veio em sua direção, e embora ela não quisesse papo, o rapaz loiro insistiu a ponto de chamar a atenção de alguns tipos próximos da porta que dava para a rua.

- Por favor, Jonas, eu não tenho mais nada para falar com você. Dá um tempo — disse Mariana com pouca paciência.

- Mari, adianta falar que eu vou mudar? Eu mudo, já falei isso, prometo para você. Sei que já fiz algumas promessas, mas dessa vez é pra valer, pois não agüento mais — disse Jonas com um misto de clemência e choramingo.

Mariana não estava mais disposta a dar outra chance para Jonas. Os dois se conheceram na mesma boate, e apesar de ter como regra não se relacionar com nenhum cliente da casa, não conseguiu resistir aos encantos de Jonas, que não fazia o perfil médio dos freqüentadores da Blitz. Ficaram por dois meses, tempo suficiente para Mari descobrir a fraqueza do loiro pela cocaína. Após ouvir tantas promessas mentirosas de que ele largaria a droga, a moça desistiu e não demorou a esquecer o ficante.

Após vencer a insistência de Jonas, Mariana iniciou seu trajeto com passos largos pela avenida. Ela estava acostumada com a escuridão da noite desde que começara a trabalhar na boate mais conhecida do centro, mas algo em meio aquele pretume a assustou. A sensação de estar sendo seguida logo caiu sobre os ombros recém cobertos da moça, e os passos já apressados tomaram outras proporções. O costume de uma cidade com alto índice de assaltos fez com que ela se agarrasse à bolsa enquanto o rosto se virava a cada quatro ou cinco passos. A sensação de perseguição digna de um filme de terror só terminou quando uma voz evocando seu nome ecoou quebrando o silêncio da rua. Ela se virou e mal teve tempo de reconhecer seu carrasco quando os dois disparos terminaram em seu peito, atravessando a pequena bolsa que ainda estava grudada entre o corpo e a mão.

***

Faltavam poucas horas para amanhecer quando a primeira viatura chegou até o local. A segunda já veio acompanhada do investigador Carlos Dutra, da Polícia Civil. O trabalho dos peritos foi rápido. Área isolada, fotos do corpo, evidências recolhidas e busca preliminar por possíveis testemunhas. Dutra estava disposto a iniciar as primeiras horas daquela quinta-feira focado no caso, mas a regra já conhecida no departamento de polícia era clara: qualquer crime cometido no centro da cidade passava primeiro pelas mãos do delegado. A regra tornou-se ainda mais severa quando o investigador descobriu que Mariana trabalhava na Boate Blitz após uma breve conversa com a companheira de apartamento da jovem que acabara de virar estatística. Dutra tinha pleno conhecimento de por que o delegado Marcos Werner deveria ser avisado imediatamente. E ele não ousou violar essa lei.

Sentado na cadeira do balcão que dividia a cozinha da sala de estar, Werner entortou a boca ao ser avisado do assassinato cometido poucas horas antes. A boca torta foi acompanhada da testa franzida quando o investigador do outro lado da linha contou onde Miss M trabalhava. Naquele momento Werner sabia que teria que reservar um tempo de seu dia para conversar com o dono da boate. E aquilo, embora necessário, não agradava nem um pouco.

Werner optou pelo fim da tarde, quando os funcionários da limpeza já haviam deixado o local e os encarregados pelas bebidas começavam a circular pelo salão. O delegado não cogitou avisar sobre a visita e só anunciou suas intenções quando já estava dentro da boate, ainda com as portas fechadas para o público. Dentro do escritório localizado em um mezanino nos fundos, Vito Torrezani contava notas de cem reais e separava em pequenos bolos quando o número mil era mencionado mentalmente. Ele só parou com os movimentos quando foi avisado sobre a importante visita, mas voltou a contar quando Werner entrou na sala. O delegado sentou-se de frente para o dono da Blitz e aguardou a contagem terminar.

- Oi Werner, embora você não tenha avisado eu já esperava por sua presença. Só imaginei que viria ontem — disse Vito enquanto guardava os bolos de dinheiro na bolsa grande de um só compartimento.

- Não é de meu interesse tornar essa conversa uma investigação oficial, e você sabe muito bem porque — respondeu o delegado, com cordialidade. Vito não respondeu e aguardou Werner ir direto ao ponto.

- Uma funcionária sua foi assassinada ontem, você já deve saber disso, então não preciso entrar em detalhes. O crime aconteceu no fim da madrugada e não teve como evitar que saísse da imprensa, mas conseguimos que o local de trabalho da moça ficasse como desconhecido. Enfim, deixo para você resolver essa situação, e quando tiver algumas respostas me procure. O resto deixe comigo.

Vito apenas assentiu com a cabeça, cumprimentou o delegado e o acompanhou até a porta. Não trocaram mais nenhuma palavra. Não era preciso. Vito entendeu o recado, e de forma alguma ficou ofendido com o jeito frio com que o delegado falara. Ele sabia o que precisava ser feito, e quem deveria fazer. Uma investigação policial não era vantajosa para nenhum dos dois. O acordo firmado com Werner há pouco mais de 15 anos previa que crimes não fossem cometidos no centro. E que, quando acontecesse, Vito seria responsável por investigar.

Vito e Werner tinham poucas — ou quase nenhuma — afinidade. Não eram amigos. Mas o negócio era lucrativo para as duas partes, e eles prosperaram quando uniram forças. A parceria era simples. Por ser um dos criminosos mais influentes do submundo capixaba, Vito era responsável por manter a paz na cidade. Isso incluía mediar acordo entre traficantes e apaziguar guerras por pontos de venda de droga, jogo do bicho e prostituição. Também se comprometeu a colocar seus homens nas ruas, evitando alguns crimes em áreas estratégicas e de seu domínio. A investida deu certo. Em 15 anos a Capital registrou queda de quase 20% nos índices de homicídios, além de reduzir as ocorrências de roubo de comércios e veículos. Vitória continuava sendo uma das cidades mais violentas do país, mas longe do caos que havia se instaurado no fim dos anos de 1990, quando a parceria teve início. Werner ainda recebia informações privilegiadas sobre crimes, fazendo seu nome dentro da polícia e ganhando conceito com o Estado.

A contrapartida era extremamente lucrativa para Vito. Werner dava aval e fazia vista grossa para as atividades exercidas por ele. O nome de Vito era riscado de todas as investigações sobre o jogo ilegal. A Boate Blitz nunca foi incomodada, seja por problemas com alvará ou suspeita de ligação com o crime organizado. Se não fosse pelo simples fato da ilegalidade, a parceria poderia ser exaltada como a melhor e mais bem sucedida fusão empresarial, e seus principais CEOs escolhidos como os homens do ano. Por isso, assim que Werner deixou o escritório Vito chamou Alemão, seu braço direito, e os dois conversaram durante alguns minutos para buscar uma solução sobre o assassinato de Mariana.

O início da noite marca um momento curioso na Blitz. Assim que as portas se abrem, beberrões se misturam aos jogadores de poker que chegam cedo para as primeiras partidas. O movimento ainda é pequeno e o ambiente ainda é claro, e por isso alguns empresários e políticos utilizam o local para negociatas e lobbys. As moças de peitos grandes vestidas apenas de calcinha já circulam pelo salão e dançam no palco, embora poucos clientes fiquem por ali a essa hora. O bar é próximo aos postes utilizados pelas dançarinas, e entre uma cantada e outra os garotos de classe média se divertem com bebidas e conversas fúteis. Essa é turma de Jonas. Filho de um magnata da construção civil, o ex-namorado de Mari era frequentador assíduo da casa. Embora não fizesse questão de esconder sua boa condição financeira, não utilizava o status do pai para conseguir o que queria.

Jonas tinha acabado de chegar a boate. Pediu uma garrafa de cerveja e ficou observando a loira dançando a poucos metros de seus olhos. Por trás do palco elevado onde as dançarinas faziam strip ele avistou Alemão, que não fazia questão de esconder que estava observando-o. Ele temia Alemão. Não por ter feito algo que pudesse desagradar o braço direito do manda-chuva, mas porque todo mundo temia Alemão. O cara era o típico mal-encarado. Raramente era visto sorrindo. Corpulento, Alemão tinha o cabelo ralo, cortado de forma com que fosse possível ver o coro cabeludo por debaixo dos fios amarelados. O estilo capilar também fazia com que a testa enrugada e as sobrancelhas arqueadas pudessem ser reconhecidas de longe. E não era só o físico que intimidava. Alemão colecionava histórias assustadoras. Certa vez durante uma festa longe dali, em outra cidade, Jonas ouviu a história de que o grandalhão havia quebrado todos os dentes de um sujeito com uma só cotovelada. Também corria a história de que um cara que devia uma grana para Vito apanhou tanto com porradas no rosto que durante a surra pediu para que fosse assassinado de uma vez. De fato o inadimplente morreu, mas dois dias depois, no hospital, devido às graves lesões cerebrais. Jonas não queria comprovar se as histórias eram verdadeiras, então tomou o resto de sua cerveja com uma só golada e caminhou em direção a saída da boate. Já na porta deu uma última olhada para ver se Alemão ainda estava olhando para ele, mas não avistou mais o brutamontes. Jonas não deu mais do que cinco passos na rua quando Alemão saiu de uma entrada lateral e o abraçou pelos ombros. Foi possível sentir o peso dos braços em cima das costas. Ardeu de calor.

- Você é o Jonas, né? Fiquei sabendo que você namora a Mari, é verdade? — perguntou Alemão, voltando a falar antes mesmo de ouvir as respostas — Parece que ela não vem hoje. Sabe me dizer por que? Será que ela está doente?

- Na verdade não estamos mais juntos — respondeu Jonas, com a voz calma, escondendo por dentro todo o nervosismo por estar naquela conversa nada agradável.

- Oh, que pena. Aposto que pelo menos você aproveitou o tempo com aquela gostosa, hein? Mas me diz, tem notícias dela?

- Não tenho, cara. Não a vejo desde ontem.

- Hum. O que aconteceu ontem?

- Como assim o que aconteceu?

- Ontem. Você disse que a viu. Que horas foi isso?

- Ah, era quase cinco da manhã, foi logo que ela deixou a boate. Sei lá, cara, ela não estava muito a fim de papo.

- Então foi aí que você foi atrás dela?

- Atrás dela? — questionou Jonas, mostrando surpresa ou fingindo muito bem o espanto com a pergunta — Eu continuei na boate. Ela se foi, não a vi mais depois disso.

- Certo. Acho que você poderia me ajudar procurá-la então, talvez ela esteja em casa — disse Alemão, apontando para o carro que havia acabado de estacionar. Com certa insistência, Jonas ainda alegou que não fazia ideia de como encontrar a moça, mas Alemão mostrou não estar aberto a uma recusa. Jonas entrou no caro.

Alemão sentou no lado do carona, deixando Jonas ficar no banco de trás. Apenas os dois e o motorista estavam no veículo e Jonas pensou que se Alemão quisesse fazer algo com ele não teria sentado na frente. Lembrou dos filmes de máfia, quando o coitado que está prestes a morrer senta no banco do carona e é surpreendido pelo cara do banco de trás. Não era o que estava acontecendo, e isso o tranquilizou. Mas o trajeto deixou Jonas apreensivo. Ao invés de ir para a Rua Sete onde Mariana morava, o carro seguiu reto em direção a saída da cidade, atravessou a ponte e andou por mais sete quilômetros entrando em bairros que Jonas só conhecia pela televisão, nos telejornais ensanguentados da hora do almoço. Jonas só teve coragem de perguntar onde eles estavam indo quando o carro estava prestes a parar.

- Tenha calma, garoto. É que tem uma pessoa querendo conversar com você — disse Alemão sem olhar para trás.

Quando o carro se aproximou do campo de futebol de terra batida Jonas conseguiu ver outro veículo estacionado ao lado de uma das traves. Alemão pediu para ele descer do carro e assim que cumpriu a ordem conseguiu ver quem estava ao lado do veículo já parado. Era impossível não reconhecer. O sujeito com poucos quilos acima do peso, vestindo calça jeans, camiseta branca e óculos escuro o aguardava fumando um cigarro. A careca branca quase refletia o sol, queimando os olhos de Jonas, que temendo cada vez mais a situação tomou coragem para perguntar, quase suplicando.

- Cara, o que vocês querem? O que ele quer comigo? Tem a ver com a Mari? Eu juro que não fiz nada com ela.

Os dois se aproximaram da trave e Vito Torrezani jogou fora o cigarro para ir direto ao ponto.

- Confessa. Confessa que você matou a Mari — disse ao mesmo tempo em que tirava os óculos para olhar nos olhos do garoto.

- Matei? Que porra é essa, a Mari está mor… — Jonas não chegou a terminar a última sílaba quando foi atingido na orelha por uma barra de ferro que Alemão segurava com as duas mãos.

Jonas foi ao chão. Um zumbido insuportável seguido de uma forte dor na fonte deixou o rapaz enjoado. Ele levou a mão até a orelha e só sentiu sangue. Imaginou que pudesse ficar surdo, mas poucos segundos depois já estava ouvindo normalmente. Não que ele quisesse continuar escutando.

- Confessa, garoto, eu não quero ficar aqui muito tempo — disse Vito mais uma vez.

- Eu não sei de nada, senhor. Não fui eu, eu nem sabia que ela estava mor… mor… ai meu Deus. A Mari morreu mesmo? — perguntou Jonas, ainda no chão, com uma lágrima escorrendo e se misturando ao sangue que saía da fenda aberta na costeleta.

- Garoto, já percebi que você é um bom ator, mas vamos facilitar as coisas. Eu não quero que você me diga porque fez isso, como fez, onde conseguiu a arma, nada disso. Só quero que você confesse de uma vez.

- Mas não fui eu, senhor! — gritou Jonas, substituindo o choro pela resposta rebelde.

Alemão estendeu a barra de ferro e dessa vez acertou as costas de Jonas, que caiu de bruços. Antes mesmo que pudesse se levantar, recebeu um chute que acertou sua boca. Sentiu pelo menos dois dentes passeando próximos da língua. Alemão deu mais um chute, acertando a barriga. Ao gritar de dor Jonas cuspiu para fora os dois caninos com sangue e pedaços da gengiva. Vito e Alemão ficaram em silêncio, mas a sequência de chutes continuou enquanto Jonas chorava e se engasgava com o próprio sangue. Em determinado momento, ele teve a sensação que a dor ardia em camadas, indo da pele, passando pelos ossos e chegando aos órgãos internos. Jonas não sabia o que era, mas algo dentro de seu estômago parecia estar solto, batendo de lado a lado das paredes internas como os dentes minutos antes. Foi quando ele desmaiou.

Quando acordou Jonas era um mistura pastosa de sangue e areia. Estava sentado com as costas apoiadas em uma das traves do campo. Pensou estar amarrado com os braços para trás, mas julgou inútil alguém se prestar a fazer isso, já que ele mal conseguia mover os dedos. Dor. Dor. Dor. Tudo doía. A voz de Vito soou reconfortante, e ele percebeu que ainda estava vivo.

- Garoto, pode não parecer, mais você é forte.

- Eu… eu acho que sei quem fez isso — disse Jonas ao tentar abrir os olhos.

Alemão e Vito se olharam. Os dois já haviam participado de inúmeras surras como aquelas. Ossos quebrados, rostos desfigurados, pele em carne viva, morte. Já haviam presenciado de tudo, e nunca viram alguém apanhar tanto sem dizer a verdade. Pela primeira vez sentiram sinceridade nas palavras do garoto. Não havia espaço para pena, pois ambos sabiam que aquilo era naturalmente necessário. No entanto, acreditaram nele. Jonas foi levado para uma clínica de um médico que devia uns dez mil para Vito. O Doutor não era especialista em trauma e jamais havia atendido alguém naquela situação, mas conseguiu deixar Jonas minimamente bem após alguns antibióticos e pontos no rosto. Quando Jonas acordou, já na manhã do dia seguinte, Vito estava sentado de frente a sua cama, com roupa nova e exalando cheiro de perfume caro.

- Fala garoto.

- A gente já não estava tão bem — começou a contar Jonas. Ela vivia falando em se mudar para o Rio, São Paulo, coisas do tipo. Eu nunca levei a sério, mas quando a gente se separou de vez ela colocou isso na cabeça e eu percebi que era pra valer. Um cara que ela conheceu na Blitz disse que tinha um sócio no Rio, dono de uma das principais boates da cidade. Ele ofereceu emprego, e disse que se ela quisesse ainda poderia conhecer Paris no fim do ano, quem sabe até ficar lá para trabalhar. A grana era alta pra caralho, mas a Mari começou a desconfiar quando o cara disse para ela não contar a ninguém. Uma semana depois ela disse que não ia mais e voltou normalmente para a Blitz.

- O que te faz pensar que esse cara pode ter feito alguma coisa com ela?

- Sei lá, cara. Ela não desistiu por desistir. Acho que ela ficou com medo, descobriu alguma coisa. Não foi só desconfiança. Ela sabia de algo. Algo que talvez ela não devesse saber.

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