350 dias sem ver TV

Não assistimos muita televisão em casa. Não é grandes coisas, só trocamos o tipo de entretenimento. Vemos seriados, ficamos grudados no celular e a maioria das propagandas que vi em 2014 foram antes de vídeos do youtube. Mas as coisas são diferentes na casa dos meus pais. Eles têm um pacote grande de TV a cabo que fica ligada basicamente na Globo, em programas sensacionalistas e no Discovery Home & Health.

Confesso o mea culpa sobre o H&H. Eu adoro os programas de medicina e de reforma da casa. Também gosto muito dos de culinária. Então nesses dias de preguiça a TV ficou ligada o dia todo, a noite toda, passando programas, novela e muita propaganda.

Não sou nenhuma cordeirinha de TV. Sou muito consciente do que vejo. Reclamo sobre as propagandas machistas. Reclamo dos programas. Reclamo das novelas. Reclamo tanto de tudo que vejo que já me expulsaram da sala e me ameaçaram me dar calmantes.

Então fiquei muito brava esta tarde quando fiz minha pedicure.

Explico: eu nem ligo para os meus pés, sabe. Pra falar a verdade eles mal servem para andar. E quando vi a propaganda para um aparelho de pedicure, fiquei bravíssima. “Faça seus pés e se sinta confiante” uma ova. Não preciso fazer os pés para ser confiante, que absurdo. Eu mal depilo as pernas. É uma coisa estúpida demais, burra. E, inconscientemente, uma semana depois cá estou eu com os pés lixados.

Eu já tinha percebido que estava cada vez mais insegura quanto a casa. Claro que estar em um “momento entre casas” é naturalmente uma droga, mas não tem nada que eu possa fazer a respeito senão esperar a hora de agir chegar. Mas de tanto ver programas de casa, comecei a ficar desesperada por não ter casa, o que me fazia buscar casas na internet e me deixava mais ansiosa. Minha mãe também sofreu sem notar: “por que só a minha casa não é bonita?”. Acho que é porque as casas bonitas da TV são… cenários.

Obviamente existem milhares de outras coisas que nosso subconsciente absorve da televisão. De qualquer outra mídia também, mas acho que a televisão é o aparelho que menos temos controle do que vamos ver, porque nos atinge de forma muito subjetiva (você pode trocar de canal, mas tudo é feito para que você não queira). A propaganda das vitaminas para homens e mulheres promete força para os homens e pele/cabelo mais bonitos para mulheres. Achamos perfeitamente razoável que homens e mulheres tenham fisiologias diferentes, mas o que a propaganda realmente quer dizer? Homens para trabalho; mulher para enfeite.

Fora os programas que têm crianças como protagonistas. Os de competições de beleza são um extremo que, na minha opinião, deveriam ser proibidos tanto para crianças quanto para adultos por não incentivarem nada além de padrões inalcançáveis e distúrbios alimentares, além de uma sexualização precoce de crianças e adolescentes. Mas também os de qualquer outra coisa de adultos com protagonistas mirins. Por mais que eu goste de Master Chef Jr, meus amigos me mostraram e tenho de admitir: crianças não deveriam fazer coisas de adultos. Elas deveriam brincar, como crianças. As que fazem, se prejudicam sem notar. As que assistem, se sentem inferiores por não serem tão boas. E os pais que assistem, cobram suas crianças objetivos inalcançáveis para elas. O que gera todo um ciclo de frustração.

A televisão é uma janela para toda parte do mundo, um tipo diferente de espelho. Depois que a prensa foi inventada, pequenos vilarejos começaram a ver como era a vida em sociedade fora do círculo onde seus passos (ou os passos de seus animais) os levavam. Hoje, sabemos como é a vida de todo o mundo (e de todo mundo), mas infelizmente construímos um modelo de conduta padrão onde todo ser humano precisa ser encaixado para supostamente ser feliz. Um modelo construído de retalhos, passado por padronizações inventadas e impossível de ser atingido, tanto física quanto psicologicamente.

Quando eu estava no começo da minha maior crise de depressão, boa parte do meu desespero era que eu não tinha ideia do que era normal e do que era a doença. Eu não tinha referências, porque todo mundo aqui em casa sofre de alguma coisa. E as referências fora de casa eram tão inatingíveis quanto ir ao Giga Byte (aquele bar de Malhação, lembra?) depois da aula, pedir um suco e deixar a bebida pela metade.

Só que esses padrões não são pensados pelo telespectador, e me incluo. São construídos no nosso subconsciente, da mesma forma que o emoticon =) é mais visualmente agradável que (= apenas porque estamos acostumados a ler da esquerda para a direita. Quando vemos, não pensamos porque achamos mais visualmente agradável; apenas é.

A publicidade utiliza muito desses conceitos “visualmente agradáveis”. Você precisa fazer algo agradável para relacionar sua marca, porque o mínimo desvio causa uma estranheza e afasta o espectador, e nem ele mesmo sabe porquê. Por isso quem faz o controle de qualidade do seu site, programador, é tão chato com pixel perfect. Ele aprendeu que precisa, sim, estar milimetricamente alinhado para passar o máximo de conforto. (nós, de internet, sabemos que mais importante que isso é a experiência do usuário mas esta é uma outra história).

Além de usar o “visualmente agradável” a mídia (aqui incluo jornalismo, novelas e programas além de publicidade) cria o que é visualmente agradável. Ela dita as regras quando escolhe brancos para serem ricos e negros para serem escravos ou empregados. Quando a menina gorda não arranja namorado e faz dietas sem parar. Quando a mulher que usa roupas curtas é assediada. Quando as pessoas com deficiência são representadas por pessoas sem qualquer deficiência. É um círculo vicioso.

Por isso muita gente discordou veementemente quando Nigela foi eleita mulher mais bonita do mundo. Eles não perceberam que a imagem de “bonito” foi construída em suas mentes desde sempre e que é claramente branca, de cabelo liso e loiro, olhos claros, proporções simétricas, magra. Quanta gente sai dessa lista? A maioria das pessoas.

A parte engraçada da coisa é que é incontrolável resistir. É impossível não se sentir péssimo às vezes, e ser culpado por não estar “correndo atrás dos seus sonhos”, sonhos que nem são seus. É irresistível cobrar as pessoas a sua volta a ter “uma vida mais saudável” quando elas passam do peso, por exemplo. Achar algo feio ou bonito não é algo só seu: é algo que construíram para você. E você pode reconstruir.

Hoje achei melhor não ligar a TV. É a segunda da medicina no Discovery H&H, meu dia favorito, mas escolhi ver um filme, ler um livro. Assim sou menos bombardeada por coisas cujo único intuito é me fazer me sentir mal.

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