Ladainhas*

Entrou e acendeu as luzes. Nada.

Deu poucos passos e apalpou a parede em busca de um outro interruptor. Nada.

Ficou ainda mais aborrecida. Não conseguia encontrar o telefone na bolsa. Serve de lanterna. Nada.

Celular sem bateria.

Agora o jeito é esperar a luz voltar no escuro, que pesa nas pálpebras, mas não ajuda a dormir.

Lembrou da caixa de fósforos na primeira gaveta do armário do banheiro. Nem velas perfumadas relaxam.Nada.

Acendeu a da mesinha da sala. A chama ocupou toda a casa. Era azulada, mas vacilava, bêbada, ameaçando não ficar de pé. No ritmo do fogo, ela teve vontade de recitar ladainhas. Nunca esquecera das preferidas da avó.

Mãe da Divina Graça, pronunciou. Rogai por nós, respondeu.

Ouviu a própria voz e achou que não era dela. Tentou dizer mais versos do louvor, enquanto a vela derramava lágrimas de cera. A luz mostrava força e seus olhos dançavam com a chama. Rosa Mística, Torre de Marfim, Casa de Ouro, Porta do Céu, Estrela da Manhã. O fogo se alimentava da voz dela e crescia, e consumia tudo mais rápido. Mais lágrimas.

O pavio queimou por inteiro. No breu, viu outra chama bem em frente, como um negativo de fotografia. Piscou rápido e largou o sono sobre o rosto. Era leve demais.

*Texto escrito entre setembro e novembro de 2014 no Laboratório de Ficção Contos Para o Próximo Milênio, orientado por Ronaldo Bressane, no Clube Literário Hussardos.

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Originally published at baudevime.wordpress.com on April 8, 2015.

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