Mofo (trecho)

Vencer a umidade não era tarefa fácil para quem gostava de guardar, ainda mais em Belém.

Cansou de encontrar papeis molhados e bolorentos. Tentava salvar alguma coisa com o secador de cabelo, mas nem sempre funcionava. A água estava no ar, consumindo tudo, não havia escapatória. Produtos antimofo, giz, receitinhas da tia da amiga da prima, dicas da avó, desumidificador. Quase nada amenizava o avanço das matérias orgânicas invisíveis em decomposição. De janeiro a maio era bem pior, porque a chuva não cessava e a atmosfera da cidade estava sempre irrigada. Até a pele parecia envolvida por um orvalho pegajoso.

Mesmo assim, Ravena guardava de tudo e em grande volume: cartas das primas durante a adolescência, brinquedos da infância, a anágua da avó morta há uma década, o cordão umbilical dos dois irmãos menores, os arranjos de patchouli das festas juninas, as provas nota dez dos anos do primário, as apostilas do pré-vestibular, os ingressos de cinema e shows musicais, guardanapos de papel decorado de restaurante, pedras das praias onde pisou. Sem contar as revistas, fotos, livros, jornais…

O apartamento de Ravena tinha dois quartos grandes e a sua suíte. Um quarto estava sempre pronto para algum hóspede. Dificilmente era ocupado, nem mesmo por parentes distantes que chegavam à cidade para o Círio em outubro. O outro funcionava como um grande arquivo do passado dela, cheio de coisas de um tempo feliz e passageiro, que encobertavam os restos mortais de memórias inaceitáveis, porém ainda pulsantes. Parte estava em armários. Livros e revistas ficavam em prateleiras. Nenhuma ordem, apenas caixas e etiquetas de identificação pelo chão. O espaço deste quarto já se esgotara e muitas coisas já estavam sendo colocadas nos outros compartimentos da casa, na sala e nos corredores.

Ravena não tinha mais lugar para tanto, precisava desocupar. A decisão significava reavaliar o que serve carregar com a vida e o que é necessário deixar para trás como questão de sobrevivência.

Naquela manhã, com Solange, ela encarou aquele monstro.

Trecho do conto MOFO, publicado na Revista Literária Polichinello número 16, de outubro de 2014.

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Originally published at baudevime.wordpress.com on April 9, 2015.

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