Seis dezenas


Esperei a madrugada porque ela é mais apropriada. Agora o silêncio do mundo parece bom. O volume diminui. São 2h15 da manhã, Aline, e eu já sequei a garrafa de Old Parr. Tu dormes, tu e as tuas irmãs, e a mãe de cada uma delas. Mal conheces. Quer dizer, não conheces ainda ninguém, nem o mundo, nem a mim, nasceste hoje. Mas vais saber que elas existem e que é preciso dividir tudo com elas.

Sim, tu também tens direito. Tua mãe só fala de dinheiro e do teu nome, para o registro de nascimento, como eu fiz com todas as outras. Na primeira, eu só tinha dezoito anos. Desde então, a minha vida é trabalhar para pagar contas. Contas que não são minhas. Meu pai não pagaria.

Que ironia! Deu vontade de gargalhar alto. Eu gargalhei muito, desde que vi o resultado da mega sena ontem. A mesma explosão dentro. Gargalhei, bebi, pulei e agora estou exausto te escrevendo da sacada. Mas é a estafa derradeira.

É verdade que eu não te queria, mas a tua mãe não teve coragem. Eu nunca quis nenhuma. Acho importante dizer isso, mesmo que tu nunca ouças. A minha parte está feita. E muito bem feita. Por isso, comprei esse bilhete e escolhi como números a minha idade e a idade de vocês. Seis dezenas. Pra ti marquei zero um, pelo teu primeiro dia de vida. Tu foste o sexto número, o que faltava. Que sorte tu tens, Aline. Não! EU que tenho sorte, porque num ímpeto, tonto com a tua chegada, entrei sem pensar na lotérica. Agora posso me liberar de tudo isso. As cobranças enfim vão se esgotar.

Não dá pra acreditar, Aline, mas tu és a quinta e esse é o teu nome. Não tinha amor, saímos poucas vezes e tu surgiste. Tuas irmãs também vieram assim, de deslizes, de farras, de irresponsabilidades. Uma repetição de fatos. Não quero mais repetir nada, nenhum erro, nenhum acerto.

Eu não consigo ignorar a existência de vocês. Não dá pra suportar que eu esteja em vocês, que eu faça parte de vocês. Ser pai assim é um vínculo terrível, um cárcere eterno. Eu coloquei cinco seres no mundo e eu não faço ideia do tipo de gente que vão se tornar.

Eu não sou pai.

Mas quando eu recebo o meu contracheque vocês estão todas ali, nos descontos. E eu sou só um bancário, lido com muito dinheiro, há 20 anos. Mas não é nada meu. Mesmo de longe, vocês também tiram tudo de mim.

Nasceste hoje e eu nem vi o teu rosto, nem fui no hospital. É insuportável demais.

Nada dá certo. Nem com ninguém. Sei que não é possível existir sem dinheiro. E hoje, justo hoje, sei também que não vale a pena nem ter dinheiro pra existir. Mas vocês vão ter.

É, Aline, eu tenho cinco filhas e nem sei o que é família. Continuo sozinho aqui. São doze andares. O voo é certeiro. É a minha escolha. E se a minha vida é assim eu a recuso. Devolvo. Dedico tudo a vocês. Fiquem com tudo. Pra mim fica o eterno alívio.

Gilson

*Texto escrito entre setembro e novembro de 2014 no Laboratório de Ficção Contos Para o Próximo Milênio, orientado por Ronaldo Bressane, no Clube Literário Hussardos.

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Originally published at baudevime.wordpress.com on June 3, 2015.