Está cheio de ar
Se eu dissesse que tenho várias histórias pra contar estaria exagerando. Tenho uma: a minha. Não quero e não posso dividir minha vida em antes ou depois de fulano ou durante beltrano. Em todo tempo nessas histórias, era a minha história. Não nasci pra ser muro em branco.

Quando criança fui tocada pelo irmão de uma amiga. Eu tinha menos de 10 anos e não lembro da cena mas lembro da sensação. Eu não sabia se era errado, não sabia se podia ou deveria pedir ajuda. Acordei com ele deitado por cima de mim, me tocando. Eu chorei e isso o fez parar. Nunca mais eu fui na casa deles.
Cresci com uma imagem ruim dos homens, o que deve ter acontecido com a maioria das mulheres. Meu irmão era um ótimo irmão, meus amigos eram ótimos amigos, mas no fundo eu sabia que qualquer um deles poderia ter agido como aquele menino, lá atrás. Me enojava a maneira com que falavam das meninas, a maneira como as tocavam, como riam e ridicularizavam. Até os dito mais “românticos” sempre tinham uma atitude que me afastava. Não deixei que ninguém me beijasse. Me apaixonei mas não aceitava a ideia de um homem tocar meu corpo de novo. Estava decidida a me proteger como podia.
Essa auto-proteção durou a adolescência inteira e por conta disso eu recebia apelidos de todo tipo. A estranha, a arisca, a machuda. Eu fingia não ligar. Até a maneira com que eu me vestia era do jeito menos chamativo possível. Sempre usando blusas compridas, bermudas folgadas e tops que apertassem meu seios, não queria que eles crescessem demais.
Aos 17 anos dei o primeiro beijo. Inicialmente eu descrevia minha sensação com romantismo. Fiquei sem ar, minhas pernas perderam as forças e senti o coração disparar. Mas não era amor, era medo. Só hoje enxergo isso. O quão apavorada eu estava.
Aos 18 tive minha primeira relação sexual. Eu não queria mas como um homem que me amava tanto podia aceitar que eu não quisesse me entregar pra ele? Foi doloroso. Mais uma vez eu não sabia o que fazer. Não tinha com quem falar. Como ia explicar uma coisa dessas? Chorei ao final. Me encolhi no canto da cama e chorei. Ele prometeu que a dor ia passar e depois eu ia gostar. Eu evitava o quanto podia, o que o deixou descontrolado. Ficamos 11 meses juntos mas eu já não queria mais desde o terceiro mês. Ele segurava meu braço com força quando queria provar um ponto. Puxava meu rosto quando pensava que eu estava olhando pro outro homem na rua. Tomou de conta de todas as minhas senhas e desfez minhas amizades. Eu estava só. Sozinha com um homem que falava em amor e agia com violência. Passava por amigas na rua e olhava tão fundo, esperando que alguém me resgatasse, mas não fui atendida. Ele me escrevia cartas de amor o tempo todo. Me deixava e buscava na escola, controlava meus horários e roupas. Eu me sentia completamente sufocada e culpada. Culpada por ter aberto o escudo, por ter deixado que um homem me tocasse e dominasse. Culpada por não saber lidar e por não conseguir fazê-lo se acalmar. Ele continuava me empurrando na parede, puxando meu cabelo e dizendo que eu não colaborava. Ele só queria me amar.
Era certo que se eu não terminasse esse relacionamento eu ia acabar morta. Tentava de todas as maneiras argumentar com ele que nós não estávamos nos fazendo bem, que já tinha deixado de ser amor há muito tempo. Ele me ameaçava de morte. Em uma festa da minha escola ele ficou muito enciumado por conta dos amigos que falavam comigo. Segundo ele, se eu não queria transar com meu namorado é porque estava com algum amigo. Esse dia eu comecei a terminar a relação (de dentro pra fora). Andei mais de 5 km em uma rodovia deserta pra poder voltar pra casa. A pé e sozinha, mas sem medo. Estava decidida a sair desse inferno.

O término não foi fácil. Enquanto eu tentava manter a calma e explicar que não podíamos mais ficar juntos ele passou a quebrar as coisas da casa. Derrubou a tv, derrubou o armário de louças, virou a mesa. Eu me escondia atrás do irmão mais novo dele, pedindo a Deus que não morrêssemos ali. Ele chorava, urrava, dizia que eu tinha outra pessoa e que ele ia se matar. Eu não conseguia chorar e meu corpo se tremia inteiro. Consegui abrir a porta e sai correndo pra casa. Fiz uma malinha e fui pra casa da minha vó, longe dele. A paz demorou pra chegar. Ele ligava, chorava, ia na minha escola e me cercava como podia.
Quando olho pra esses dias vejo o quanto fui mais forte do que eu julgava. Infelizmente isso não acontece com todas e mulheres continuam morrendo, apanhando, sendo sufocadas. Ainda tem aquelas que conseguem se afastar mas ele as alcança de novo e destrói sua vida. Precisamos conversar sobre isso. Precisamos ser a amiga que passa na rua e sente a dor da outra, que a ajuda. Sejamos mais empáticas ao ouvir e calorosas ao acolher.
p.s.: imagens do livro Outros jeito de usar a boca, da autora Rupi Kaur.
