Como e porque eu acabei dando aulas no Brasil e em Angola

Uma das turmas que ministrei em Angola para a empresa Catoca

Resolvi contar um pouco de como surgiu a atividade de dar aulas na minha vida nos últimos anos, pois até mesmo as pessoas que me conhecem acabam me perguntando sobre isso, já que é algo que eu nunca tinha considerado na minha vida profissional. De fato nunca pensei nisso, das vezes que cogitei era algo meio que aposentadoria, depois que eu fizer o mestrado, um projeto distante. Até porque eu não achava que tinha aptidão para a atividade, não considerava minhas apresentações brilhantes e minha essência é de uma pessoa tímida, hoje isso é contornado através de muito treinamento e dedicação. Para piorar tenho rosácea, o que significa que minhas bochechas ficam rosadas por qualquer motivo razão e circunstância minimamente diferente e aleatória. Pode ser desde caminhar na rua por 5 minutos, como subir 3 andares de escada, beber uma taça de vinho ou falar com uma pessoa. Diante desses fatores não me considerava a pessoa apropriada para esse tipo de atividade.

Eis que na volta do intercâmbio em Londres, na luta por um emprego novamente em Porto Alegre e durante uma conversa com minha tia ela disse: “Quem sabe dar aulas, tu já tem especializações, fala inglês, vou conversar com um amigo Coordenador de Cursos na Faculdade São Judas para ver o que ele acha”. Quando conversamos sobre isso definitivamente não achei que ia prosperar porque eu não tinha experiência dando aulas, mas o Coordenador me chamou para uma conversa para nos conhecermos. Ele estava inaugurando o MBA em Marketing e Vendas e não tinha professor em vista para a disciplina de Marketing Digital, justamente área na qual sou especialista. Nesse período da vida eu já estava trabalhando na Coca-Cola. Apesar de ainda não ter mestrado ele podia me contratar como freelance graças a uma clausula da instituição que permite que um percentual pequeno de docentes de cada MBA tenham somente o título de especialistas. Depois de algumas conversas e troca de emails nos acertamos para eu dar a aula de Marketing Digital, primeira turma, primeira edição do MBA, significava que eu seria a responsável por todo o desenvolvimento do conteúdo e pela roupagem que a disciplina ia ter.

Mais uma turminha em Angola

A partir do dia que nos acertamos eu tive 6 meses até minha aula começar, tempo mais do que suficiente para preparar o material. Vale destacar que só foi possível aceitar porque as aulas desse MBA eram sextas à noite e sábados pela manhã. Eu viajava bastante nesse período na Coca, mas sempre retornava para Porto Alegre nas sextas, o que me permitiu aceitar a oportunidade sem interferir no meu trabalho. E foi assim, através de uma boa rede de networking, que eu fiz minha estreia nesse mercado. Faz parte também da minha característica pessoal gostar muito do desafio e daquela sensação de frio na barriga, isso me motiva muito na preparação de algo. Confesso que me preparei muito para dar essas aulas, estudei e reestudei tudo que eu sabia sobre o tema, fui atrás de referências bibliográficas infindáveis. Dedicava muitas horas nos finais de semana elaborando as aulas e projetando a melhor forma de abordar os temas.

O primeiro dia de aula foi aquele caos emocional que todos os grandes dias causam na gente, coração pulando, focada no tempo, não falar demais sem parar e também não falar de menos. Refletindo hoje penso que me ajudou muito o fato de eu ter tentado colocar em prática tudo que eu tinha de referência dos melhores professores que tinha tido na vida e fugir do que achava entediante. Logo no primeiro dia tentei extrair o máximo dos alunos sobre os interesses profissionais de cada um e as referências que tinham, o que me permitiria direcionar o conteúdo para algo relevante para eles até o final dos nossos encontros. Encerrei a turma com uma ótima avaliação por parte deles, segundo o Coordenador que me passou o resultado a melhor nota até o momento entre os professores que já tinham dado aula para aquele MBA. Acima de qualquer recompensa financeira esse resultado foi altamente comemorado, pois vi ali uma aptidão nova, algo que eu poderia sim fazer e com uma entrega de qualidade.


Passado um tempo pós a experiência no São Judas, por motivos e razões que rendem um outro texto no blog, decidi muda-me para Luanda, meu marido já estava trabalhando lá e eu acabei pedindo demissão do meu trabalho e me mudando também. Comecei fazendo o básico, mandando meu currículo para as empresas e caçando vagas na minha área em agências e sites de emprego locais. Só que a área de Marketing não é muito desenvolvida em Angola ainda, as oportunidades são escassas, o cenário até vem mudando de um ano para cá de forma bem rápida por sinal, mas essa não era a realidade quando eu cheguei lá. Em meio as buscas de ofertas acabei me candidatei para uma vaga de formadora, é assim que eles chamam os instrutores de cursos lá, em uma Centro de Treinamentos de origem Portuguesa e com filial em Luanda. À título de comparação algo como SENAC no Brasil, com formações rápidas de 30 à 60 horas e cursos profissionalizantes mais extensos. Me chamaram para uma conversa, filmaram minha entrevista para mostrar à possíveis contratantes que às vezes querem escolher o formador e, depois disso nunca mais tive notícias da tal vaga. Segui procurando e me dedicando aos projetos pontuais de consultoria que me mantinham parcialmente ocupada.

Até que em uma segunda-feira me ligaram para saber se eu poderia assumir uma turma que estava começando na sexta seguinte, um Seminário de 30 horas de Gestão em Vendas, pois o instrutor estava doente e eles não tinham mais como adiar o mesmo. Analisei o conteúdo e o material, vi que poderia assumir, até porque contemplava muita coisa de Marketing e da experiência que já tinha e decidi aceitar, mesmo com o prazo super curto de 4 dias somente para me preparar.


Mais uma vez me joguei para o desafio, mantendo sempre em mente meu princípio, fazer o melhor que eu puder para que eles saiam de sala de aula com conteúdo de qualidade e que possam aplicar em suas atividades cotidianas. E foi um desafio mesmo essa primeira turma. Metade dela era composta de gestores de vendas super experientes provenientes de Portugal e, que trabalhavam em uma filial da empresa em Luanda. Outra metade jovens angolanos em busca de uma primeira visão e contato com o assunto gestão de vendas, estavam estruturando a área na empresa em que atuavam. Contou ao meu favor o fato de que essa turma acontecia somente sextas e sábados pela manhã, logo tive intervalo de uma semana para remodelar todo o pensamento que tinha construído para o Seminário. Com metade da turma super experiente eu precisei mesclar e subir o nível de conteúdo, focando em ferramentas que os ajudassem e aproveitar para aproximar os mais novatos deles, para que desse mix todos saíssem com seus objetivos alcançados.

A estreia desafiadora valeu muito a pena, pois além de poder compartilhar conhecimento com eles, tive oportunidade de aprender muito com essa integração cultural, os feedbacks foram extremamente positivos. Apesar de ter sentido no primeiro dia de aula, que eles ficaram receosos pelo fato de eu ser tão mais jovem do que eles, ao final nossas metas foram alcançadas. Mais do que qualquer avaliação positiva, guardo na memória a emoção que senti quando recebi de um dos alunos angolanos um e-mail de agradecimento, onde ele mencionava ter sido essa a sua primeira qualificação, fora o ensino escolar.

Logo depois veio o convite para uma “pequena aventura” pelas províncias de Angola, ministrando formação para os profissionais do Banco BCI, o banco mais antigo de Angola e que tem participação do governo, uma espécie de estatal. Contrariando todos que me recomendavam não aceitar ir para uma província, eu fui. Meu raciocínio foi o de que essa oportunidade não passaria novamente pelas minhas mãos, obviamente ciente de que teria de ter cuidado redobrado com questões referentes à alimentação, etc. Infelizmente a infra estrutura nas províncias ainda é muito deficiente, ela é deficitária em Luanda, imagina no interior. Construções remanescentes da Guerra Civil, áreas minadas, pouco desenvolvimento comercial, mas pessoas infinitamente dispostas a fazer o seu melhor e altamente receptivas. Sempre fui muito bem recebida pelos Angolanos, eles adoram brasileiros e em todas as turmas ouvi sempre a preferência que tinham de se qualificarem com instrutores Brasileiros ao invés de Portugueses.

A experiência na província do Sumbe, mais uma vez me desafiou a fazer mais com menos. Estávamos no auge do verão angolano e a sala em que as aulas aconteceram não tinha ar condicionado e era extremamente quente. Manter alunos concentrados em uma aula das 08h às 17h com mais de 40 graus na sala realmente é bem desafiador. Eu terminava as aulas no mesmo estado em que termino uma corrida de 10 km, suava por todos os poros. Durante cinco dias dividi conhecimento e experiências com um pessoal que me deixou muita saudade, alegres, felizes, sorridentes e todos os dias ao final eu pensava: que lição de vida. Na verdade considero que o aprendizado foi meu. Conhecer as histórias pessoais de cada um me fez fortalecer a gratidão por todas as oportunidades que eu tive na vida. Uma semana dando aulas no Sumbe me proporcionou o que nenhum curso ou palestra motivacional poderia me proporcionar, disso eu tenho certeza.

Uma das turmas na Província do Sumbe

E assim segui ministrando cursos em Luanda por todo o período em que estive lá, compartilhando o que sei, aprendendo com pessoas incríveis, ouvindo histórias e contando as minhas também. A experiência me ajudou a aperfeiçoar meu modelo de dar aulas, hoje penso cada vez mais na entrega que deve ser feita, no objetivo do aluno ao final daquele curso, seminário, etc. Além, obviamente de ter aprendido a controlar minha ansiedade e aperfeiçoar minhas técnicas. Sei que é bem “piegas” e super auto ajuda, mas sou fiel seguidora da frase do Bernardinho que diz: “talento é resultado da prática”. Sou imensamente grata à Angola por ter me permitido aperfeiçoar minha prática e aprender com histórias de vida tão ímpares e diferente de tudo que eu já tinha vivido.

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