Gestalt dos relacionamentos interpessoais

A luta entre eu, eu mesmo e quem você acha que eu sou

Existe algo que eu — do alto da minha ignorância acadêmica — chamo carinhosamente de Gestalt dos Relacionamentos Interpessoais.

De acordo com a nossa amiga Wikipedia, Gestalt “é uma doutrina que defende que, para se compreender as partes, é preciso, antes, compreender o todo.”. É o clássico “o todo é maior do que as partes”. Guarde isso.

Agora imagine um encontro entre duas pessoas. Elas se encontram, se olham e automaticamente criam uma imagem mental de como o outro é através dos códigos visuais. Ninguém trocou uma palavra sequer, mas já possuem um juízo de valor sobre o outro. É o primeiro tijolinho do pré-conceito. Sabe quando a parede é grossa demais e não deixa o sinal de wi-fi passar direito? Esses tijolos empilhados funcionam exatamente assim, só que o que não passa direito, nesse caso, é a comunicação.

A partir do momento que se inicia uma conversa com alguém você também começa uma luta entre você e a imagem que a outra pessoa projetou na cabeça dela sobre você. É como se ver num espelho distorcido e não poder modificar aquela imagem.

A construção que o outro fez de você não pode ser partida simplesmente dizendo “não”. Você precisa provar. Provar que do alto de toda a experiência de uma vida inteira sendo você, a visão rasa e sem embasamento do outro está errada. Você tem que provar que você é você. E aí, amigo, haja argumento, foto, link, papel ou mídia social pra legitimar a sua palavra. O outro só terá certeza que você é você após provas concretas carimbadas e juramentadas em cartório. Três vias de igual teor e forma.

Se eu digo que sou publicitária, vem uma imagem. Se eu digo que sou advogada, vem outra completamente diferente. Se eu disser que sou publicitária e trabalho com criação, você automaticamente começa a ampliar essa construção mental com mais tijolinhos. Completamos as lacunas deixadas nas conversas com estereótipos para tentar construir a personalidade desse sujeito que está na nossa frente se apresentando. São ideias que estão por aí boiando no éter no senso comum e que nem sempre condizem com a verdade. É uma luta diária. Provar-se continuamente até que o outro valide a opinião que você tem sobre você mesmo.

Eu posso dar partes de mim em uma conversa, mas você vai ter um pouco mais de trabalho se quiser realmente conhecer o todo. Eu não sou uma pilha de partes soltas. Eu não sou um inteiro vazio. Afinal, o meu todo é muito maior do que qualquer tijolo desse muro que você criou na sua cabeça e que insiste em jogar na minha cara.

“Você parece um Power Ranger azul.”
“Sério? Mas eu sou o vermelho.”
“Mentira!”
“Verdade.”
“Sério mesmo?”
“Tô te falando! Olha aqui o meu morfador.”
“Sei não, hein…”
“Péra, vou chamar meu megazord.”

O problema é que todo mundo faz isso em algum grau. Relacionamentos nunca (nunca mesmo?) são baseados na realidade. Lidamos com projeções psicológicas. Uma guerra entre quem você acha que é, quem o outro acha que você é e quem você é de verdade. Isso tem, em alguns aspectos, um relacionamento próximo ao que Freud chama de Mecanismo Psicológico de Projeção. Você nega (ou desconhece) algo em si com tanta força que “arranca” isso de você e introjeta na personalidade do outro. Somos espelhos e o outro se reflete de forma distorcida em nós.

Bem, talvez nunca saibamos quem o outro é de verdade. Talvez nunca deixemos que alguém nos conheça realmente. Ou talvez tudo o que precisamos fazer é parar de ler textos aleatórios baseados em psicologia de bar. Vai saber.

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