Carta sobre as poesias queimadas

Suete Silva
Nov 1 · 3 min read

01/11/2019

Meu caro amigo, gostaria de escrever tudo o que sinto à mão, como você fez há quatro anos, mas ainda não me acostumei com a ideia de guardar papéis, muito menos com a dor de guardar memórias. E é por isso que lembro de quando você contou com displicência sobre o queimar de poesias como forma de preservar a si mesmo da destruição. Os melhores potenciais ressignificados de nós se foram em combustão e nunca seremos capazes de fazer algo, no agora, senão a reanálise de nossos acordos de paz, repletos de formalidades e mecanismos que nunca serão o bastante para uma satisfatória coexistência. Esses, que já eram injustos para mim naquela época, permanecem insuportáveis (até mesmo em presença), pois suspendem circunstâncias e relações assimétricas que talvez nunca deixem de existir. E me pergunto agora se o seu processo de desapego às queimadas foi o bastante, pois tudo o que busquei durante a semana foram os traços e os meios que você utilizou para se livrar do sentimento de desamparo que lhe assolou e que me assola, nos dias de hoje, sendo que nada fui para isso senão agente de concepção. Te deixei a queimar poesias sobre nós enquanto busquei, a todo custo, uma realidade que não existe. E para mim isso não dói — me destrói, tanto quanto quase lhe destruí, pois nunca aprendi a ser poeta, mas hoje percebo que poderia ter aprendido com você. Se o fogo não houvesse exaurido as palavras que saíram de ti, talvez eu fosse capaz de entender e sentir um pouco mais tudo o que poderíamos representar em conjunto. E não é que tantas vezes tentei fazer isso invadindo seu espaço para buscar em ti a solução, sendo que sempre o compartilhamos?… Apenas para constatar que não havia nada além de amor sincero e verdadeiro, que de mim você ressignificou absolutamente tudo que havia de ruidoso enquanto eu tentava a todo custo amplificar ruídos. E encontro até mesmo no seu ato de remissão toda a consciência de meus atos mais egoístas, pois você nada fez por nós senão reescrever e reelaborar-me sozinho, organizando essa realidade irracional com uma paciência e curadoria que não tenho e nunca tive. Rabisquei e manchei os nossos papéis de rascunho por tanto tempo apenas para, afinal, utilizar os mesmos termos que você sempre utilizou. E hoje eu entendo que queimar poesias foi um dos atos mais generosos que você já teve consigo, pois a dor é impossível de queimar, mas coexistir com ela é opção. E hoje vislumbro a necessidade de materializar sentimentos de dor no papel apenas para dissociá-los (e dissociá-lo) de mim, como se fossem letra morta sobre algo que não existe. Já queimar? Seria enganar-me duplamente, mas também um desrespeito - nunca me proporia a pôr o que sinto numa balança, mas utilizo seus processos como referência para a saída de minha dor. Até mesmo porque, mesmo depois de tanto tempo, ainda não sou capaz de reescrever e manifestar o valor da sua existência da forma que você merece. Por isso sempre cairia em erro ao sentar e escrever algo sobre ti ou contigo, tanto quanto erro nas vezes em que te busco para descobrir se aprendi. E sinto que não — não aprendi a fazer matemática e poesia de você ao mesmo tempo, como você sempre fez de mim e nós, para ver potencial lógico até mesmo nos nossos mais grosseiros erros humanos. Mas eu tento, peço desculpas e, mais que tudo, agradeço! Com você aprendi e ainda aprendo que amar não é apenas sobre manter vivo o sentimento, mas também deixar ir e deixar queimar. Por ora, é o que faço para suportar as saudades.

de sua eterna amiga —suete

    Suete Silva

    Written by

    Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
    Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
    Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade