sobre cordas que já não suportam mais

quando senti arrebentar em mim a imensidão vazia de quem eu realmente sou, me perdi novamente. não me entenda errado, não digo que não sou ninguém ou que não penso ou que nem mesmo existo. existo, é claro, mas de tempos em tempos eu sinto minha existência se esvair por entre os dedos tortos de minha mão. olho para o violão largado no canto do quarto e não sinto vontade de praticar. leio textos e não os sinto. olho pessoas e não as enxergo. de tempos em tempos, as pedras são somente pedras e as pessoas já não me compreendem mais — e nem eu mesma as compreendo. tenho medo de perder-me, por fim, em uma noite dessas nas quais bebo até esquecer onde termina uma crise e onde começa outra. tenho medo de perder-me enquanto estiver sozinha, ao léu. e se ninguém vier me procurar? há essa possibilidade. mesmo quando as pessoas à nossa volta afirmam e reafirmam que vai ficar tudo bem, nem sempre falam com convicção. é crível, mas há certo tempo aprendi a duvidar das coisas. aceito-as, no entanto. é difícil esforçar-se para ficar bem tendo a consciência de que nem mesmo as pessoas que mais nos amam conseguem aguentar. há um limite para tudo que um único ser humano pode aguentar, e, apesar do esforço, temos todos nossos próprios fardos. eu sou o meu. tenho medo de perder-me. hoje, senti arrebentar novamente em mim a imensidão vazia de quem eu realmente sou. me pergunto qual será a última corda a arrebentar. será que estarei preparada?

tenho medo de perder-me.
ultimamente, tenho sentido que já me perdi há muito tempo.
quando irei me salvar?