A pior gaúcha

Sou a pior gaúcha que conheço. Fico atucanada quando alguém me faz alguma pergunta sobre o Rio Grande que não envolva as respostas: cuca com chimia, cerveja Polar ou xis. Para todas as outras grandes questões, sou uma negação. Não consigo me expressar da maneira correta e acabo por passar a imagem de que detesto o ErreEsse.
Então, antes que você me pergunte qual o melhor bairro de Porto Alegre para alugar um apartamento no Airbnb, deixe-me dizer que não, eu não conheço Porto Alegre. Só fui pra Porto quatro vezes! Dessas quatro vezes, doze eram a noite e eu não enxergo direito a noite. Sete foram para ver algum show, e eu bebo em qualquer evento artístico evolvendo palcos, luzes e muitas pessoas. Vinte e duas foram com a escola, e todo mundo sabe que eu já saí da escola há muito tempo. Nem todo gaúcho nasceu em Porto Alegre.
Também não me pergunte se conheço Bagé — já que o analista é de lá — porque a resposta também será não. Pelotas, passei na frente. Uruguaiana, muito longe. Jaraguá do Sul, só sei da música. Não-me-toque, não é lenda. Feliz, só os pavilhões de chopp, e nessa categoria posso incluir Igrejinha, Dois Irmãos e Portão. Santa Cruz do Sul também pode entrar na lista lugares que eu já fui por causa de uma cerveja, mas sinceramente, não lembro se fui ou não.
Não me faça dizer quantas vezes o Internacional ganhou o Campeonato Gaúcho porque eu não sei. Ser colorada é uma questão de opção — do meu pai, claro. Nasceu, logo é colorada.
Não me julgue quando ouvir o que tenho a dizer sobre os chocolates de Gramado ou os vinhos da Serra Gaúcha envelhecidos em barris de alumínio. Você perguntou, eu respondi.
Já são quase dez anos longe, mas o que eu posso dizer é que o Rio Grande tem gostinho de Europa servido em mini porções. Todos os lugares são pequenas versões de algo grandioso e antigo.
Mas ó, eu ainda posso te ajudar. Gaúcho que é gaúcho conhece pelo menos mais uma meia dúzia de desgarrados. A gente se esbarra como formiga em fila de açucareiro. Dispersamos pelo mundo mas tentamos nos reagrupar. Estamos sempre prestes a dizer eu também sou!, seguido pelo habitual silêncio constrangedor por não ter nada a dizer.
