Não vejo a hora desse dia não chegar

Estou a três dias sem dormir.

Só por causa de um jantar.

Que não está confirmado e que talvez não aconteça. Com amigos do Luca que não conheço tão bem. Que provavelmente tem namoradas que eu não terei assunto. Aqueles jantares em que os meninos conversam entre si porque se conhecem a anos e as meninas conversam entre si porque são meninas. As meninas conversam porque já se conhecem, eu bebo um dry martini porque quero parecer sofisticada. Os meninos conversam sobre aquele dia lá na escola. As meninas sobre a situação política do país porque são muito maduras. E inteligentes. E porque é disso que se fala hoje em dia. Eu espero uma brecha para introduzir o meu assunto do momento: O novo filme Alien.

O nome do lugar é Oswaldinho, Joãozinho, Laurinho. Não sei. Só sei que é no Leblon. Só de estar aqui eu pago taxa de 14% pro ar. Tem um famoso ali do lado. Vou ter que pagar setecentos e quarenta e dois mil reais por uma refeição. Esqueci de ver se o meu cartão de crédito tem limite disponível para os setecentos e quarenta e dois mil reais. Não existe nada mais constrangedor do que cartão de crédito que não passa na frente de desconhecidos. Meu cartão não vai passar.

A comida do lugar é japonesa. Comida japonesa é peixe cru na minha cabeça. Tenho que comer pelo menos um peixe cru. Estou no Leblon, em um restaurante japonês, do lado de um famoso. Preciso comer pelo menos um peixe cru. Quero dizer que peixe cru tem trezentos e setenta e quatro e milhões de bactérias prontas para atacar o meu rim esquerdo e que bactéria só morre em óleo quente, mas eu ainda não consegui entrar na conversa. Não existe nada mais constrangedor que explicar a desconhecidos porque eu não como comida japonesa. Estou pensando em assistir Prometheus de novo quando chegar em casa. E depois o novo filme Alien.

Os talheres são dois pauzinhos. São e sempre serão dois pauzinhos. Começo a suar só de sentir que os pratos estão a caminho. Olho pro Luca e ele dá um sorriso como se dissesse que está tudo bem. Eu tento uma conversa telepática que diz ME TIRA DAQUI, mas ele não entende e me alcança o um guardanapo. Ainda estamos aperfeiçoando nossas conversas telepáticas. Preciso usar os pauzinhos para comer. E eu não sei usar os pauzinhos para comer. E eles vão descobrir em 3,2,1. Chegou a comida, e com talheres normais. Penso em dizer que sei fazer saquê bomb com os pauzinhos, mas isso não me parece nada sofisticado. Minha resposta, caso eles façam a pergunta, está na ponta da língua: tenho artrite e não consigo usar os pauzinhos. Eles nunca descobrirão se é verdade ou mentira. Ninguém pede exame pra provar artrite. Não existe nada mais constrangedor que usar talheres em um restaurante japonês na frente de desconhecidos. Pelo menos quando eu chegar em casa vou ver o Michael Fassbender. Isso ajuda, não?

AI MEU DEUS. Começou. Preciso me deitar, agora. Encolhida em baixo das cobertas, talvez chorar só um pouquinho. No escuro. Só por um minutinho. Talvez dois. E logo tudo volta ao normal. Respira que vai passar.

Não me venha com a história. De que eu preciso mudar. Preciso me acostumar. Preciso provar. Preciso socializar. Preciso ser diferente do que sou. Por favor, não me venha com a história.

Ansiedade é ter medo do diferente. É criar situações hipotéticas absurdas. É acreditar nas desculpas imaginárias que fazem o total sentido na sua cabeça (mas só na sua). É sofrer por algo que ainda não aconteceu e que talvez não aconteça. Tudo para não mudar. Tudo para ficar-no-mesmo-lugar.

Não vejo a hora desse dia não chegar.