O curioso caso do povo tyahgnsu

Havia, no sul do Tibete, essa aldeia muito peculiar que um muito renomado antropólogo francês, em texto datado de 1951, assim descreveu:

“Os tyahgnsu (povo que vive nas montanhas, na língua local) são um povo que vive nas montanhas do Tibete. Cercados de todos os lados por altos picos nevados, a sua existência poderia passar desapercebida para o restante da humanidade. No entanto, graças ao arqueólogo inglês, Sir. Nelson Daniels Coward Gyn II, o peculiar povo foi revelado ao restante do mundo. Ocorre que, enquanto Sir. Nelson Daniels Coward Gyn II buscava algo novo para a coleção tibetana do museu pessoal da Duquesa de Junkfud, o pneu de sua Land Rover furou. O nobre arqueólogo foi, então, obrigado a caminhar na região, vindo a descobrir os tyahgnsu. Após diversas expedições, constatou-se — com grande entusiasmo e curiosidade — que a organização social dos tyahgnsu era “extremamente peculiar e não parecia seguir qualquer lógica conhecida pelo ocidente”, segundo o Professor Wurstrecht, da Universidade de Hannover. O presente ensaio tem como objetivo descrever uma importante característica desta organização social; qual seja as previsões de Merkhus.

A estrutura social dos tyahgnsu é fundamentalmente baseada numa divindade corpórea de nome Merkhus (na língua local: o eterno menino do pé invisível). De acordo com a mitologia dos tyahgnsu, Merkhus teria sofrido um castigo dos deuses, por ter nascido com o poder de compreender o mundo em sua totalidade fora jogado no meio das cordilheiras e condenado à eterna juventude. Os deuses fizeram, ainda, com que seus pés não deixassem pegadas na neve; assim, não haveria maneira de encontrar Merkhus nas perigosas montanhas.

No entanto, um grupo muito sábio de tyahgnsures fez um acordo com os deuses: poderiam ter contato com o menino na primeira hora solar de cada dia e revelar, ao restante da comunidade, os segredos de Merkhus; os integrantes deste grupo são conhecidos como os Dòks (traduzindo: os sábios que sobem a montanha para analisar). Os Dòks são, via de regra, muito bem relacionados com os Bargôiç (aqueles que detém), que são aquilo que definiríamos como elite da estrutura social. O restante da população é conhecido como Opiá (destinados a trabalhar, na língua tyahgnsu).

Não por acaso, todas as previsões da entidade Merkhus beneficiam os Dòks e os Bargôiç, em detrimento dos Opiá (breve apontamento metodológico: para chegar-se a esta conclusão, o distanciamento do objeto de estudo é fundamental). Assustadoramente, percebeu-se, ao longo dos estudos, que absolutamente todas as ações e leis do povo tyahgnsu eram regidas — direta ou indiretamente — pelas previsões da entidade Merkhus. Necessário, portanto, compreender o funcionamento do sistema de previsões:

Os Dòks saem muito cedo em direção à trilha proibida (onde apenas eles podem transitar). Na segunda hora do sol, os Dòks já estão de volta com algum tipo de previsão, que não necessariamente é exata. Por muitas vezes, toda a comunidade é reunida para que os Dòks digam: “O Merkhus acordou agitado”. O resultado é imediato: as rações de comida dos Opiá são reduzidas pela metade naquele dia. Assim, cada previsão parece ter um comando diferente, mas com resultados sempre favoráveis aos Bargôiç e aos Dòks. Exemplifico: caso haja uma “euforia” da entidade Merkhus, os Opiá — com certa alegria — são impelidos a consumir mais sementes e frutos dos Bargôiç (que os Opiá mesmo plantaram e colheram); fenômeno conhecido como Blactfride (dia da compra obrigatória). Importante medida assecuratória para a manutenção do sistema é a crença quase inquebrantável (a revolta da primavera 17 abalou a fé dos Opiá por anos) de que as previsões de Merkhus são naturais e não sofrem qualquer interferência dos Dòks.

Por óbvio, não se trata de um sistema harmônico, sem conflitos. Os Opiá são duramente reprimidos por qualquer ação que fuja do Merkhus e sempre são lembrados que sua posição social se deve à vontade do Merkhus. Ainda, existe intensa briga interna entre a casta dos Bargôiç, via de regra envolvendo a disputa pelas previsões que mais lhe interessam. Os Dòks decidem pelo lado que mais lhes aprouver, mas mantêm uma contínua dependência dos Bargôiç, não podendo extrapolar de seus poderes em proveito próprio.

Por fim, para conter insatisfações, todos os anos um Opiá é escolhido pela entidade Merkhus para tornar-se um Bargôiç, na festa do Merkhustriak (aquele que conquistou a simpatia de Merkhus). Ao longo do ano, quando um Opiá reclama de sua condição, de pronto lhe é dito que, ao invés de reclamar, deveria estar trabalhando mais pesado para conquistar a simpatia de Merkhus.

Do ponto de vista científico, me parece muito importante o estudo do povo tyahgnsu. Explico: (i.) o espírito geral dos tyahgnsures é de que inexiste qualquer possibilidade diversa de organização social, sendo qualquer outra ideia prontamente reprimida (seja com violência ou apenas ridicularizada pelos demais) e (ii.) o completo isolamento dos tyahgnsu faz com que eles desconheçam formas mais evoluídas de sociedade, como a república francesa. O resultado das observações saberá indicar de que maneira as sociedades menos evoluídas do que a nossa (e o próprio ser humano) lidam com necessárias mudanças estruturais; se existe a necessidade de um agente extrínseco ou há possibilidade de uma mudança interna.”

Derradeiramente, gostaríamos de agradecer, especialmente, à inestimável ajuda com a tradução de Caio de Macedo.

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