Aos que se deixam espetar

O final dos ciclos sempre recaem em mim como um luto, para o processo de luto ser efetivo, preciso elaborá-lo, para tal, venho vivenciando um processo de luto da minha graduação, me aproximo do último ano de faculdade, para muitos, esse período é a despedida de algo vivido de forma muito intensa, para mim foi assim. Vivi e aprendi coisas que nunca imaginaria. Muito embora eu saiba que a multiplicidade de experiências de formação profissional são vastas, creio que aos que escolheram a psicologia enquanto profissão, partilhamos do mesmo ponto em comum: o confronto com o Eu.

Isso se dá ao longo de todo o processo de formação e, sobretudo, nos espaços de estágio. Voltando ao meu luto, encerro essa semana meu estágio em um Centro de Atenção Psicossocial, de longe, o espaço de maior transformação até o momento da minha existência aqui na terra. O confronto com o Eu que mencionei, se deu desde que coloquei os pés na instituição pela primeira vez, isso porquê um dos maiores medos da nossa civilização é enlouquecer, ser tutelado, encarcerado e controlado, lá, os corpos circulam assim. Corpos que carregavam as marcas físicas da violência sofrida no manicômio, como o caso do A. 50 anos, que tinha os braços marcados pelos tecidos de contenção, ou ainda do Q. (idade não sabida) que sentava-se o tempo todo agarrando as pernas com os braços, assim como faziam com que ele ficasse quando estava contido.

Meus singelos quatro meses de estágio foram um turbilhão de sentimentos e trocas, tudo isso entre um cafézinho no final das atividades e um cigarro compartilhado ao final grupo, os espaços terapêuticos não-convencionais são poderosos, as narrativas de sujeitos adoecidos trazem memórias e histórias que tocam o que há de mais profundo em nós, neuróticos. A psicose muitas vezes reinventa formas que gostaríamos de ter e ser, mas que por convenções sociais, não a fazemos, e é por isso também que ela nos choca. Ás vezes a tradução dos gritos e o regurgitar de sons quase inaudíveis, expressam muito mais que textões que escrevemos nas redes sociais, basta aprendermos a simbolizar-los.

Eu terminei o semestre exausta, caindo no choro durante as orientações, até que no meio da minha penúltima orientação veio o insight, o meu principal papel foi me deixar afetar. Com isso, trago a metáfora do Porco-espinho, proferida recentemente em uma palestra que fui. Ela foi escrita por Schopenhauer e trazida nos escritos de Freud:

“Um número de porcos-espinho ​​se amontoaram buscando calor em um dia frio de inverno; mas, quando começaram a se machucar com seus espinhos, foram obrigados a se afastarem. No entanto, o frio fazia com que voltassem a se reunir, porém, se afastavam novamente. Depois de várias tentativas, perceberam que poderiam manter certa distância uns dos outros sem se dispersarem.”

O fato é, no campo psi, a distância mínima não existe, o deixar-se espetar é inerente ao processo de escuta, este deve ser contrabalanceado com as nossas expectativas e fantasias. Ali naquele espaço precário (não de estrutura, mas de acolhimento verdadeiro) pude perceber que meu papel era fornecer uma corporalidade para a tradução dos símbolos. Era usar dos meus olhos, dos meus ouvidos e da minha língua para ouvir atentamente e poder dizer o quanto aquelas vidas interessavam e novas formas de existência eram possíveis, para ter a sensibilidade necessária e perceber que ainda naqueles corpos dopados e institucionalizados, re-existia algo que era único e que ninguém tiraria deles, nem a mais rigorosa violência: a sua subjetividade.