Almas vagantes
Era quase noite, e lá ele estava, de novo, sozinho num balanço, feito de pneu de carro, em um lago tranquilo, quase sem vida, escurecido pelo tempo, em Oregon. Kevin adorava passar horas se balançando sobre aquele lago; às vezes, atirando pedrinhas nele, observando os pequenos moinhos d’água se formarem até, finalmente, pararem de cintilar sob o sol se pondo.
Kevin passava a maioria de seus dias sozinho naquele lugar. Nada acontecia. Aliás, tudo acontecia demais em sua cabeça. Seus pensamentos não cessavam, sua imaginação o levava para outros tempos; tempos felizes, que o faziam esquecer o seu constante estado de tristeza. Lugares épicos, cheios de dragões e criaturas mitológicas. Um mundo onde tudo se materializava conforme ele tocava as coisas que via naquela fabulosa realidade. Kevin era um menino que vivia, literalmente, com as cara nos livros — sempre tinha um ou dois livros em sua mochila. Frequentemente, o pegavam com seu espírito vagante, fantasiando estórias, que para ele eram, simplesmente, mundos ocultos, onde podia entrar quando quer que quisesse.
O menino de, mais ou menos, quinze anos de idade, vivia sozinho no topo de uma colina ao sul de Oregon, um dos mais belos lugares nos Estados Unidos. Kevin era um garoto triste, porém sempre o viam com um sorriso no rosto, vagava pelos meandros do vilarejo, cumprimentando estranhos por onde quer que ele passasse. Kevin alegrava a vida de todos os aldeões, cantarolando cancões típicas, que sua família costumava cantar durante as celebrações do Dia de Ação de Graças.
Sua vida era, terrivelmente, monótona. Levantava-se todas as manhãs, e seguia para o lago. Nada mudava, a sucessão de seus dias era sempre a mesma, mas Kevin até gostava daquele lugar. Lhe trazia paz e sua existência parecia deixar de ser tão sozinha por alguns instantes. Lá, ele conseguia materializar seus devaneios, era como se àquelas águas abrigassem fantásticas criaturas em suas profundezas. Pouco ele sabia que suas ideias, talvez, não estivessem tão distante. Aquele era, sim, um lago mágico, com segredos jamais desvendados por ninguém, que já estivera ali.
E os dias de Kevin continuavam os mesmos. Kevin ia até o misterioso lago todas as tardes, e lá ficava até a noite, invariavelmente. Certa tarde, enquanto estava lá, ele percebe uma pessoa se aproximando, e assusta-se. Então, resolve se esconder para que não seja visto, temendo ser alguém indesejado. Kevin, por detrás de uma árvore, observa, atentamente, a aproximação de um garoto um pouco mais velho do que ele. De alguma forma, o garoto estranho, sabe que Kevin está escondido atrás daquela árvore, e fala para que ele não tenha medo e que saia detrás da árvore, pois ele não o fará nenhum mal.
Kevin, logo, decide sair de seu esconderijo, vendo que, realmente, o garoto de aparência pálida, não o expõe a nenhum risco. Eles, então, apresentam-se. O jovem diz a Kevin que se chama Salazar. Ele diz que seu povo necessita da ajuda dele, pois seu clã encontra-se em perigo. Kevin espanta-se com o que Salazar o diz, e indaga o porquê de ele o ter procurado e como ele, sendo apenas um franzino garoto, poderia ajudá-lo.
Salazar pede que Kevin acalme-se, e começa a contar a história de seu povo. Salazar, um jovem de aparência nobre e bastante cortês em seus gestos, explica, com detalhes, o que se passava com as pessoas, que habitavam a pequena cidadezinha, localizada próximo ao vilarejo de Kevin.
O jovem Salazar diz que sua gente corre um grave risco. Ele conta a história de que havia um médico cirurgião, que há séculos raptava crianças de seu palácio para realizar experiências, até então desconhecidas. Depois de alguns dias, os corpos delas eram encontrados, muitas vezes, mutilados e sem alguns dos órgãos. Ninguém conseguia compreender a razão pela qual ele retirava os órgãos daquelas crianças e o que fazia com eles.
Salazar, então, o convida para ir até o palácio para que possa conhecer seus irmãos, que lá estão. Eram todos crianças menores que ele. Era bastante escuro, podia-se ouvir gemidos de desespero e o arrastar de correntes percorrendo todos os pavimentos daquele lugar tão medonho e, assustadoramente, funesto.
Kevin começa a conversar com os irmãos de Salazar. Todos parecem bem amáveis, mas seus rostos mostram um dor, indescritivelmente, profunda. Fica tarde, e Kevin fala que precisa regressar ao seu vilarejo, pois sua família poderia zangar-se ele, caso chegasse em casa mais tarde do que o habitual.
Kevin, então, volta para a sua casa. Durante a noite, Kevin têm pesadelos sobre aquilo que o jovem Salazar o contara. Sonha com o lago da floresta e diversas criaturas mágicas, que escondiam-se nas profundezas daquelas águas. Amanhece o dia, e Kevin passa a lembrar de todos aqueles sonhos que lhe perturbaram a noite toda.
O menino Kevin, logo, apronta-se para ir até o lago. Chegando lá, ele encontra Salazar à sua espera. O misterioso Salazar, por sua vez, o convida para voltar ao seu palácio. Kevin decidi ir com ele. A caminho do palácio Salazar fala um pouco mais sobre sua vida. Diz que seus irmãos e ele, também, foram vítimas do tal médico. Kevin salta, assustado, pergunta se ele e seus irmãos estão bem, e como aquilo tudo aconteceu com eles. Salazar e Kevin seguem, juntos, a caminho do palácio.
Os garotos, finalmente, chegam ao palácio, sobem às escadas, que dão para o pavimento mais alto, onde os irmãos de Salazar encontram-se sentados à janela, observando o passar do tempo, sonhando com a vida, que fora, impiedosamente, arrancada deles de forma tão prematura.
Kevin chega e cumprimenta os irmãos de Salazar. As crianças ficam felizes ao vê-lo chegar, pois havia muito tempo que eles não estabeleciam contato com as pessoas do mundo exterior. Kevin, então, observa uma grande estante de livros em frente à imensa janela, onde os irmãos de Salazar assistem os pássaros chilrear durante o dia todo, desde que sua liberdade fora cessada de maneira tão drástica.
Kevin vai até à estante, perde-se em meio a tantos livros. O garoto fica absolutamente estasiado diante de tantos exemplares de odisseias clássicas. Ele seleciona um daqueles livros e começa a lê-lo para as crianças, que o escultam, inebriadas, pelas fantásticas estórias, que aquelas páginas guardam em meio ao pó, que por sinal, faz Kevin espirrar enquanto ler. Mas, isso de nada importa. Kevin se empolga ao ver as crianças o escultarem com tamanha atenção.
Kevin, então, escuta alguns gemidos vindo de um quarto ao lado, e questiona Salazar quem poderia está gemendo daquela forma tão horripilante. Salazar chama Kevin para ir até lá junto com ele. Kevin mostra-se um pouco titubeante. Não sabe se seria uma boa ideia ir até lá, pois não sabia, ao certo, o que poderia está detrás daquela porta. Mas uma coisa era certa: aqueles gemidos pareciam vir de uma criatura que estava sofrendo de uma dor nefasta.
Salazar e Kevin vão até lá. Kevin toca a maçaneta para tentar abrir a porta, mas Salazar pede para que ele fale mais baixo e diz que eles não podem entrar lá, por enquanto. Os garotos voltam ao quarto, onde as crianças estão. Chega a noite, e Kevin anuncia a sua partida. As crianças o fazem prometer que ele regressará outro dia para visitá-los de novo. Kevin promete que voltará amanhã e despede-se de todos.
No outro dia, logo pela manhã, Kevin levanta-se, conversa um pouco com sua madrasta, sentado à mesa, enquanto fazem a refeição matinal. Kevin aborrece-se com ela e deixa a mesa. A madrasta de Kevin sempre fora ríspida e amarga com ele. Não se davam bem de maneira nenhuma, e em nada agradava Kevin o fato de seu pai viver junto com ela.
Kevin deixa a casa, mas desta vez, vai direto ao lar de Salazar, no palácio. Chegando lá, os garotos ficam felizes ao vê-lo de volta. Salazar o fala que resta pouco tempo para que seus irmãos e ele não fossem castigados a viver por toda eternidade, sofrendo na forma humana, sem poder descansar em paz. Kevin, de início, não compreende o que Salazar quis dizer com àquelas palavras, e então, o indaga por quê.
Salazar, então, começa a dar-lhe explicações de tudo o que acontecera com seus irmãos e ele, bem como diversas outras crianças, que habitavam as redondezas do palácio em que vivia. Kevin fica horrorizado diante das barbaridades que aquele médico havia feito. E foi, então, que Kevin descobre que a razão pela qual Salazar fez contato com ele, foi porque o tal médico era, na verdade, o seu pai. Kevin fica perplexo diante de tal revelação.
Kevin, prontamente, o pergunta como ele deveria proceder para ajudá-lo. Salazar explica que é necessário que Kevin descubra para que seu pai retirou os órgãos de todas aquelas crianças e que, também, encontre as estatuetas fabricadas, a pedido do seu pai, por um artesão local logo após a retirada dos órgãos das crianças vítimas dele. Salazar fala a Kevin que estas estatuetas são oferecidas às criaturas, que vivem no fundo do lago, em alguma espécie de ritual. Kevin pergunta a Salazar se estas criaturas são más. Salazar diz a ele que não, mas que é preciso que Kevin entre no lago e recupere todas as seis estatuetas e as tragam para ele.
Kevin compromete-se a realizar seu pedido, e parte para sua casa a fim de apurar sobre tudo aquilo que Salazar o contara. Chegando lá, Kevin tenta investigar sobre o que seu pai fazia no escritório, trancado durante dias, mas foi, então, que descobriu que ele mantém as portas do escritório fechadas. Kevin procura alguma forma de pegar as chaves de seu pai, porém todas suas tentativas fracassaram.
Kevin descobre que há uma forma de entrar no escritório pelos fundos da casa, por uma túnel secreto, que o leva à uma das entradas do misterioso cômodo, que seu pai passa grande parte do tempo trancafiado. Ele espera até a noite cair. O pai de Kevin e sua madrasta falam que sairão para jantar num pequeno bistrô, que fica perto da casa deles, mas que logo voltarão.
É o momento propício para que Kevin consiga entrar no escritório e tentar encontrar algo, que possa ser útil para ajudar Salazar e seus irmãos. Kevin, então, apressa-se e passa pelo túnel escuro que o leva até uma outra casa pequena dentro de sua própria casa, o que o espanta.
Kevin escuta o barulho de uma TV. Vai até o quarto de onde o barulho vem, e depara-se com uma garota de, aproximadamente, 26 anos de idade. A garota parecia muito debilitada e doente. Pálida, sem forças, mas com olhos bem arregalados, assistindo, atentamente, os movimentos engenhosos do Mickey Mouse, deitada na cama, em seu quarto.
Kevin se aproxima da cama, onde a garota está deitada, e pergunta quem é ela. Um pouco confusa ao falar, ela diz que não lembra. A garota agarra, com uma força descomunal o braço de Kevin — que se assusta, e pergunta se ele a acha bonita. Kevin, um pouco apavorado, responde que ‘sim’.
Ela diz que seu pai costuma falar que ela é a garota mais bela do mundo. O tesouro mais precioso de todos. Kevin reafirma que ela é, realmente, muito bonita.
Kevin escuta o barulho do carro chegando, mas a garota não o larga. A madrasta e seu pai apressam-se ao entrar e vão, imediatamente, para o escritório, pegando Kevin no quarto conversando com a garota. Ele pergunta quem ela é, e ele responde que ela é sua irmã mais velha. Kevin indaga como é possível que ele tenha uma irmã sem nunca ter ouvido falar sobre dela. Seu pai diz que ela nasceu pouco depois dele, mas que teve que mantê-la afastada de todos, pois ela tinha uma saúde muito fragilizada.
Kevin começa a fazer uma série de perguntas ao seu pai, o que acaba o irritando. Pergunta onde estão as estatuetas. O pai de Kevin assusta-se ao perceber que Kevin sabe sobre elas, e pergunta a ele quem lhe falou sobre aquilo. Kevin diz que sonhou com aquelas estátuas e o lago. Kevin pede para vê-las; no entanto, seu pai se recusa a mostrá-las. Kevin insiste, o que deixa seu pai ainda mais furioso.
O pai de Kevin tenta sedá-lo, diz que sabia que algum dia ele o seria útil. Fala que sua irmã precisa de dois rins novos para conseguir viver, e que somente o dele é compatível com o dela. Kevin recusa-se a doá-los para ela, sabendo que para que aquilo fosse possível, ele teria que morrer. É nesta ocasião, que Kevin descobre o porquê de seu pai ter matado todas aquelas crianças ao longo de todos os esses anos.
A madrasta de Kevin, finalmente, consegue sedá-lo, e ele desmaia. O pai de Kevin o põe numa maca, e vai até o outro quarto para preparar a garota para a cirurgia, que a fará renascer de novo. Tem sido assim toda a sua vida. Eles a mantiveram viva roubando a vida de outros inocentes, que tiveram que morrer para que ela ficasse continuasse a viver.
Kevin, passados alguns minutos, recobra a consciência. Um pouco atordoado, tenta levantar-se, veste-se e procura fugir dali sem que seu pai perceba. Antes de sair de lá, ele procura pelas estatuetas, e finalmente, as encontra. Kevin sai pelo túnel secreto, seu pai retorna ao quarto, onde o deixou, e percebe que ele havia fugido de lá.
Ele alerta a mulher que o garoto fugiu, e que ela tome conta da garota, enquanto ele tenta alcançá-lo em direção ao lago. Kevin ainda está meio tonto por causa dos entorpecentes que inocularam nele. Kevin corre o mais rápido que pode, mas tomba. Percebe que seu pai se aproxima, e esconde-se atrás de uma árvore. O pai de Kevin grita por ele. Kevin escuta vozes dizendo para que ele entre no lago, que as criaturas o protegerão. Kevin continua correndo em direção ao lago, seu pai o ver, mas já é tarde. Kevin já está dentro d’água. Ele escuta a voz de Salazar dizendo para que ele nade até o fundo do lago e busque todas as seis estatuetas e as tragam para ele no palácio o mais depressa possível.
Kevin, então, começa a retirar todas as estatuetas do lago. Seu pai entra na água, também, para tentar impedi-lo. As criaturas do lago o pegam e, magicamente, o sufocam até a morte. Kevin, então, consegue retirar todas as seis estatuetas do lago. Ofegante e, ainda, bastante tonto, corre ao encontro de Salazar no palácio.
Chegando lá, Salazar e seus irmãos o olham com um brilho imenso de felicidade. Salazar e seus irmãos revelam as partes de seu corpo que foram tomadas pelo médico insano. O último a revelar-se fora Salazar. Dele, haviam roubado o coração.
Salazar pede para que ele continue segurando as estatuetas, e diz que é chegado o momento de eles irem até o quarto de onde ele sempre ouvira sair os gemidos. Seguem todos para lá. Kevin entra e ver uma mulher amarrada à cama. Ele aproxima-se dela, e ela o olha nos olhos. Kevin espanta-se ao ver que àquela mulher é, na verdade, a sua mãe, que seu pai dissera que havia morrido há vários anos.
Enquanto isso, na casa de Kevin, a garota convulsiona e começa a entrar em estado de choque. A madrasta se desespera e ver que ela está morrendo. Não há mais nada a fazer. Ela escuta a sirene do carro da polícia, eles invadem a casa e a levam presa. Todos os seus crimes foram descobertos.
Lá, no palácio, Kevin entrega as estatuetas dos órgãos roubados de todos aqueles garotos, que estavam sofrendo durante todos aqueles anos à mulher, que vivia presa à cama, que também era sua mãe. Uma luz invade o quarto onde eles estão. Salazar e seus irmãos aparecem, miraculosamente, saudáveis de novo, agradecem e partem rumo a descanso de suas almas.
Baseado no filme “Neverlake” (2013), dirigido por Riccardo Paoletti.
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