Olhando através da janela do outro

Toda grande cidade abriga uma imensidão de vidas, e, naturalmente, estas vidas pertencem a pessoas, como você e eu. Mas, diante da turbulência que avassala nossos dias, deixamos de perceber que as outras pessoas carregam, também, consigo uma multiplicidade de sentimentos, uma miscelânea ideológica e, principalmente, memórias, cravadas em suas palmas, que as moldaram boas ou más; chatas ou interessantes; frias ou, enfadonhamente, sentimentais.

Sim, você leu certo. Para algumas pessoas, nossos sentimentos as sufocam. Todo mundo acaba se cansando da gente um dia. E nós deles. Parece inevitável. Alguns dirão que não, mas nascemos para diferir. O ser humano é, terrivelmente, inconstante. Descartamos e somos descartados constantemente. É como se fôssemos objetos de decoração — os trocamos assim que passamos por alguma loja e vemos uma nova tendência. Estamos tão preocupados em saciar nossos próprios caprichos para alimentar nosso ego, que acabamos esquecendo que as outras pessoas, também, pulsam. Esquecemos (ou fingimos esquecer, não se sabe), que o outro sente, sofre e se fere com nossas ações e palavras — muitas delas impensadas e abrasivas.

Observando o vai-e-vem de pessoas, nas ruas, podemos perceber que algumas delas caminham sem rumo; outras parecem perdidas; outras correm para alcançar o transporte, que as levarão até o aconchego de suas casas, após um dia exaustivo em meio à correria da turbulenta cidade; outras conversam sem preocupação (se é que se pode não ter nem UMA), mostram-se leves como uma pluma; outras cansadas, sem esperança, em busca de uma mão que as afaguem; já outras caminham depressa como se a vida fosse, a qualquer momento, escapar-lhe das mãos, enfim, todas elas repletas de sonhos e memórias, esculpidas em seus rostos. É engraçado como podemos contar tanto sobre uma pessoa apenas pela forma como ela nos olha — ou, às vezes, a maneira como algumas delas evitam nos olhar.

Ao longo de nossas vidas, nos deparamos com milhares de indivíduos. A grande maioria deles, passa por nós tão rapidamente, que nem sequer conseguimos conhecê-los direito. Pouquíssimos ficam. Frequentemente, esquecemos que aquela pessoa, que nós avistamos na rua, num shopping, passeando numa praça, também, têm sonhos e amam alguém — talvez, até estejam sofrendo pelo fato de aquele amor não ser recíproco, mas dentro de si há uma alma que busca outra para fazer-lhe companhia no sereno da existência humana.

Muitas vezes esquecemos de perguntar como o outro está. Fingimos não perceber que, até mesmo, aquelas pessoas que parecem mais felizes e consideradas donas de uma vida perfeita, por vezes, usam uma máscara para camuflar a infelicidade em suas vidas, pela simples, porém complexa razão de elas mesmas não saberem onde e/ou por que a ferida dói. A única coisa que elas sabem é que se sentem feridas e frágeis, mas sofrem, em silêncio, pondo um largo sorriso no rosto, e assim, continuam a viver como se elas não fossem dignas da tristeza também.

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