Há muitas coisas não ditas mas que deveriam ser. Cresci cheia de silêncios, lacunas vazias de palavras que nunca vieram. Dizem que não tem como sentir falta do que nunca se teve, não é mesmo? Ledo engano. Cresci feita em saudade e desespero, sempre aprendendo com a dor tudo o que nunca se deram ao trabalho de me dizer. Cresci me escondendo pelos cantos, sobrevivendo as chuvas de granizo, imaginando quando o mundo seria realmente salvo pelo príncipe encantado ou pelas meninas superpoderosas, pouco importava o salvador.
A maioria das meninas aprendem a brincar de boneca aos 3 anos, eu aprendi a lutar. Aprendi que a vida é uma guerra, e que não há problema em perder algumas batalhas desde que no fim você a vença. Não demorou muito para que eu aprendesse a perder, nunca fui capaz de aprender a ganhar. Sobrevivo em meio aos escombros das batalhas perdidas, me rastejando rumo a próxima batalha sem ter direito a curativo nas feridas.
Aos 8, enquanto outras crianças aprendiam a andar de skate ou a pular corda, eu aprendi a fugir. Sempre fui boa nisso. Minha mãe costumava dizer que fugir é para os covardes como meu pai, infelizmente eu sou uma cópia fiel dele. Mas há algo que não te contam sobre fugir, é que não há como fugir de si mesmo, uma hora ou outra, você vai ter que lidar com a única pessoa que nunca te abandona.
Aos 12, enquanto as meninas da minha turma se apaixonavam pela primeira vez, eu chorava a morte do meu amor. Apesar de ter aprendido a perder cedo, nunca fui boa em lidar com isso. Ainda consigo ouvir os gritos ecoando por cima das risadas juvenis e dos bilhetes apaixonados trocados.
Aos 15, enquanto todos da minha idade descobriam o prazer de viver, eu aprendia a pior lição que a vida poderia ensinar: algumas pessoas não são amadas. Eu era uma delas. Correndo pelas ruas, fugindo do que ruía dentro de mim, perdendo o que restava da minha sanidade, lidei com a dor de ser eu mesma e nada além de mim.
Hoje, sento-me neste banco, o vento gélido me toca e sinto minhas bochechas esquentarem, não há ninguém além de mim nessa praça, mas não sinto medo. Sinto saudade, saudade do que nunca tive, da infância que perdi lutando guerras que não me pertenciam, das vozes que nunca me disseram o que fazer, do pai amoroso que nunca conheci. Sinto saudade do amor que nunca tive, das dores do primeiro amor, sinto saudade do funeral que nunca fui, das aulas que nunca frequentei, da pessoa que nunca fui. Sinto saudade de tudo o que eu perdi lutando uma guerra que nunca seria capaz de ganhar.
Dizem que não tem como sentir falta do que nunca se teve, mas é essa a saudade que mais dói. A falta de tudo aquilo que só conhecemos em nossos sonhos, em nossos delírios mais felizes, saudade daquilo que só fomos capazes de imaginar. Para essa saudade, não há cura.
Ouço o telefone tocar, vejo seu nome no visor, sei exatamente quais serão suas palavras, mas deixo tocar. Penso em todo o amor que nunca tive, e penso nele, penso em sua voz que me acalenta quando os pesadelos veem, seu sorriso que aquece minha alma quanto tudo parece me congelar, seus olhos que me trazem paz em dias sombrios, penso em como ele não fugiu de mim, penso em como eu mereço isso, eu mereço ser feliz, eu mereço ser amada.
Levanto-me, sei do que estou abrindo mão ao decidir ficar, sei que em alguns dias irá doer, mas também sei o quanto de dor sou capaz de suportar. Vou para casa decidida que isso não será uma batalha, isso será a minha vitória.
