das pequenas decepções

ia começar esse texto elencando a primeira decepção do dia, mas não foi aquela a primeira. oito horas e sete minutos da noite de terça-feira, vinte e três de março de dois mil e dezesseis — o dia já estava mais pra lá do que pra cá, nove horas + metade delas passadas no trabalho, evidentemente aquela não era a primeira decepção do dia. essa conta quem é de humanas sabe fazer.

algumas são latentes, uma explosão decepcionante. perdi o emprego, o pneu furou, qualquer merda grande o bastante pra ser digna de nota.

mas as pequenas decepções machucam também — e elas são tão lazarentas que você sequer se sente no direito de reclamar sobre elas. “problemas pequenos”, o peso da classe média sobre seus ombros.

então lá estava eu, dirigindo numa noite de chuva. a música era boa, eu estava indo para casa, tudo estava bem, diria harry. mas tinha esse imbecil dando farol alto bem na minha bunda, querendo que eu corresse mais. não corri. foda-se, essa libertadora filosofia da fodelância. o sinal fechado, ele parou ao meu lado, na faixa de conversão. não converteu, esperou o sinal ficar verde para entrar na minha frente. e, bem devagar, ele se arrastou. na traseira do carro, um adesivo gigante “EU AMO JESUS”. o cara ama jesus, olha só, o cristão-que-não-converteu. se isso não é decepção, eu não sei o que é.

parei na padaria e pedi meia dúzia do francês. a atendente usou um pegador melado de açúcar pra manusear meus pães, ficaram todos com um gosmento sabor doce que, meu deus, se isso não é decepção, eu não sei.

na saída da padaria — paguei no débito — um homem me estende a mão pedindo moedas. eu não dei e nem tinha pra dar, o olhar azul opaco dele na chuva sem genuinamente entender o não. e se isso não é decepção…

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