O que um Marlboro não faz


Eu comprei o cigarro mais forte, aquele de filtro amarelo que eu tanto odeio. Eu comprei pra ver se sentia alguma coisa enquanto fumava, pra ver se tava tudo bem comigo, porque se tivesse, eu iria apagar na metade. 
Na hora de comprar foi normal, o moço da padaria - que não me reconheceu - perguntou quantos anos eu tinha, no caso... Mais de 18. Eu ri por dentro. Vinte anos nas costas e ainda tenho cara de criança.
Paguei pelo meu maço e sai. Acendi e fumei devagar. Cada tragada, eu reprimia uma tosse. Cada tragada eu me matava um pouco mais por dentro. Cada tragada eu sentia as lágrimas indo embora, porque não tem como você se matar aos poucos quando não se tem certeza de que é isso que você quer. 
Eu comecei a refletir, a caminho do ponto de ônibus. Decidi que iria mais cedo pro trabalho. Decidi que seria melhor começar a trabalhar para esquecer que eu era uma pessoa péssima, que não merecia nada do que tem. Decidi que seria melhor fazer isso do que ficar chorando na cozinha. 
Eu cheguei a conclusão de que, quando você passa por um relacionamento abusivo por 20 anos, você também acaba se tornando um pouco abusador, por mais que não queira. Você acaba ficando a mercê das coisas que aprendeu por meio do que sofreu, ainda mais quando se trata da sua família. 
Sei que isso é uma maneira sutil de jogar a culpa neles pelo que eu faço de vez em quando, mas deixe-me concluir o raciocínio antes que meu ponto chegue e eu tenha que descer. 
Quando te privam de tudo, você se torna uma pessoa que não teve experiências como as outras da sua idade. Uma pessoa que nunca experimentou um porre ou uma noite virada, tomando uns gorós. Quando te privam da liberdade, você acaba querendo cortar um pouco a asa das pessoas próximas a você, seja amigo, seja namorado, seja quem for. 
E veja bem, eu fiz isso com a pessoa que mais amo e admiro nesse mundo. Eu deixei me levar pelos meus sentimentos, deixei que meu ciúme e minha inveja falassem mais alto. 
A questão é, eu deveria ter respirado fundo, ter só respondido que tudo bem, e deixar pra conversar no dia seguinte. Mas eu sou meio louca. Devia ter ficado quieta. Mas eu não fiquei, e assim que é a vida, não é? 
A questão que eu queria dizer, é: quando se vive uma vida abusiva, com familiares abusivos que cortam suas asas e te deixam mal por qualquer motivo, você acaba ficando estragado. Você acaba se tornando uma pessoa ruim. Uma pessoa má. 
Eu nunca fui assim, na verdade. Esse lado só me aflora de tempos em tempos. Bem verdade que sou compreensiva, mas sou humana, erro também. 
Sei que meu erro é perdoável, sei que o que sentimos um pelo outro é maior que isso, mas meu medo se mescla com meus erros, e é aí que o problema começa. 
Eu não quero perdê-lo, e pelo que ele me disse ontem, ele também não quer. 
Sei que sou possessiva, sei que sou uma pessoa difícil tem hora, sei que sou explosiva, sei que sou isso tudo. Tento todos os dias, com toda a força do mundo, ser uma pessoa melhor, tanto pra ele, quanto pra mim. É frustrante ver minhas decaídas, e perceber que tenho grandes chances de me tornar alguém que abomino, é desesperador. 
Não estou triste com ele, apesar de ter ficado irritada ontem, isso passou. Meu choro e minhas lágrimas são de ódio de mim mesma, por deixar me levar por uma coisa que poderia ser conversada mais calmamente.

Não vou pedir desculpas porque isso eu já fiz. Isso serve como lição para que eu entenda que as pessoas ao meu redor não tem uma vida igual a minha, não tem uma criação igual a minha, nem pais abusivos como os meus. 
Sei que errei, mas me lamentar não faz as coisas se apagarem então... O que me resta é só aguardar os próximos capítulos, e dar passos mais cuidadosos da próxima vez.

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