Toque-me como na primeira vez

Você sabe quando seu relacionamento está fadado ao fracasso depois de uma transa sem emoção e que se resume em fazer um ao outro gozar o mais rápido possível para que aquilo acabe logo e cada um possa seguir o seu caminho.

(E quando ele não te tira o mínimo de fôlego como a frase acima.)

Sinceramente, eu sei que ele teve o mesmo pensamento que eu. Quanto antes ele gozar, mais rápido posso sair daqui. E a gozada nem acaba sendo gostosa como das outras vezes. Você sente aquela vontade desconhecida de gemer só para fazer ele se sentir bem e sentir que está tudo bem entre nós, porque o sexo é o que resolve todos os nossos problemas. Gozamos quase que desesperadamente para acabar com aquela torta de climão que parecia se refazer a cada pedaço devorado.

E então tudo parece continuar a mesma coisa. Cada um para o seu lado. Ele liga a TV em algum canal de esportes e eu vou para a sacada, vestindo apenas a camisa xadrez azul dele, sem abotoar. Acendo meu cigarro e fico ali por quase meia hora, observando a lua e as estrelas. Seria uma pena se o céu estivesse fechado, eu não teria com o que ocupar mente.

Fumo um cigarro. Dois. Estou prestes a começar a tragar o terceiro quando me dou conta que apenas comecei aquilo há dois anos com a intenção de acabar lentamente com a minha vida.

Mas agora que tudo está bem, por que eu ainda estou fumando? E por que tão desenfreadamente?

Eu costumava ser alguém feliz ao lado dele. Eu sabia que nós éramos felizes, mas agora, a cada tragada que vou dando, eu não consigo ver um motivo para não fumar. Ouço a televisão desligar no outro cômodo. Torço para que ele tenha ido dormir para que eu possa ir deitar em paz, e adiar aquela conversa mais uma vez.

“Me dá um?”

Me viro surpreso em sua direção. Ele está apenas de cueca, a mão estendida em minha direção e eu só faço oferecer o meu cigarro para ele.

Ele não fuma. Odeia que eu fume. Se ele quer fumar, é porque sente o mesmo que eu. Então eu sei que agora é a hora. Estou prestes a fugir novamente quando, de repente, ele impede que eu me vire completamente e envolve seus braços ao redor do meu corpo, o cigarro preso em seus dentes e eu preso entre seu corpo quente e a sacada.

Ele cospe o cigarro para baixo.

“Não gosto que você fume”, sussurra em meu ouvido com certa ternura. “Não gosto de ficar assim.”

“O que eu posso fazer?”

“Me diz o que você tem.”

“Nada, já falei para deixarmos isso de lado.”

“Seja honesto comigo, é tudo o que eu lhe peço.”

“Estou sendo honesto.”

Há um silêncio entre nós. Ele me mantém preso, seu corpo roçando lentamente contra o meu em uma carícia íntima. Me arrepio ao toque de seus lábios em meu pescoço, abandonando a visão da cidade e do céu ao fechar os olhos.

“Eu te amo.”

Ele continua trilhando sua saliva por meu pescoço e ombros, fazendo a camisa xadrez escorregar por meus braços enquanto sua mão desliza pelo meu peitoral, nossos corpos agora mais unidos do que nunca contra o concreto da sacada, incapazes de se importar com os vizinhos do prédio da frente. Ele me toca com vontade. Me aperta. Me sente.

“Eu te amo…”

Sua mão continua descendo, até eu senti-la atravessar a cueca que eu vestia. Nossos corpos se mantém unidos, e agora mais do que nunca sinto que estamos bem. A outra mão dele vai até meu pescoço, subindo até ele pegar em meu queixo, me forçando a manter a cabeça levantada e virada em sua direção.

“Tenho vontade de te levar pro inferno comigo.”

Ele da um tapinha em minha cara, selando nossos lábios com uma fome desesperada, enquanto eu sinto minha cueca cair até os olhos.

E desta vez nós fodemos com vontade, diferente da primeira. E dormimos juntos, como se tudo estivesse bem.

E agimos normais no dia seguinte.

E nas duas semanas seguintes.

Até tudo acontecer novamente.