UMAS SIMPLES HISTÓRIAS - CAPÍTULO 5- "OS CLIMAS", O SEGREDO E O ALMOÇO

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CAPÍTULO 5 — “OS CLIMAS”, A CAMA E O ALMOÇO

Depois de tudo que aconteceu, as brigas, discussões e os dias tediosos no hospital, Arthur recebe alta e pode voltar para casa. Apesar das restrições, como não poder se mexer muito, não conseguir mexer a cabeça muito rápido, problemas para ouvir, tonturas e ser obrigado a ficar sob os cuidados nada cuidadosos de Felipe, Arthur se sentia feliz por poder dormir na própria cama e já conseguir tomar banho sozinho, mesmo com as tonturas.

Dois dias depois do retorno de Arthur, próximo ao meio-dia, Felipe estava pondo um avental enquanto ia em direção à cozinha para preparar o almoço. De repente a campainha toca. Felipe corre para atender enquanto tenta amarrar a parte de trás do avental. Quando Felipe abre a porta se depara com quatro moças bonitas enfileiradas olhando para ele, Victória, Alice, Juliana e Anna. Ao verem Felipe, as moças ficam paradas por alguns segundos sem sequer piscar os olhos e logo em seguida uma chuva de risadas acontece. Felipe estava apenas de cueca, exibindo suas pernas peludas e usando um avental amarelo estampado com flores rosas, vermelhas e azuis acompanhadas pela frase “O Senhor é meu pastor”. Por algum motivo isso era engraçado para as moças.

Assim que as risadas cessaram, Juliana enxugando as lágrimas de risada pergunta:

— E aí? O Arthur já chegou mesmo?

— Já sim. Ele tá lá no quarto. O médico disse pra ele não se mexer muito esses dias, então ele vive com a cara enfiada nuns livros que só ele gosta. — responde Felipe com ciúmes, pois Arthur estava dando mais atenção para “Adeus às armas”, de Hemingway, do que para ele.

— Pelo menos a gente sabe que ele ainda é ele — diz Victória rindo da forma como Felipe falou do amigo.

— Bem, eu tenho que cozinhar, já que virei babá. Então se vocês quiserem entrar pra ver ele, fiquem à vontade — diz Felipe mais uma vez em tom de reclamação.

— Claro. Vamos meninas? —aceita Anna antes que qualquer uma das amigas possa abrir a boca.

— Nossa… que pressa né? — sussurra Alice no ouvido de Victória enquanto Juliana e Anna adentram a casa de Arthur acompanhando Felipe em seu “Avental supermacho”.

— Qual é o problema? — sussurra Victória de volta apressando o passo deixando Alice para trás.

Juliana, Anna, Victória e Alice se dirigem ao quarto. Arthur já não lia “Adeus às armas” e sim “Por Quem os Sinos Dobram”. Arthur fecha o livro imediatamente ao se deparar com Juliana e Anna chegando em seu quarto sem pedirem permissão nem baterem na porta, seguidas por Victória e Alice, que ainda estava machucada pelo que Eugênio a disse alguns dias atrás no hospital. Possuída por um sentimento de culpa, é a mais preocupada com Arthur, entretanto, das moças, a que Arthur mais dá sua zonza atenção, é Anna. Alice fica ainda mais triste ao perceber o olhar pelo qual Arthur tomava Anna (parece que o fato de Arthur conseguir gostar tão rápido de outra pessoa, a feriu onde mais dói, no ego).

— Oi Arthur? Está melhor? — pergunta Anna se aproximando da cama de Arthur, como se já tivessem muita intimidade.

— Claro. Obrigado pela preocupação, Anna — responde Arthur com a voz um pouco arrastada e roca.

— Desculpa não ter te visitar no Hospital. É que eu estava lotada de trabalho. — explica Anna.

— Fica tranquila. Já fico Feliz em saber que veio até minha casa — diz Arthur dando um sorrisinho pequeno e tímido apenas com o canto direito da boca, o que fez Anna perceber que ele tinha covinhas muito atraentes.

— Nossa. Como eu fiquei apavorada com aquilo tudo. Era muito sangue. Eu pensei que você tivesse morto quando caiu no chão. Foi horrível. Eu fiquei com tanto medo. Você tá bem mesmo? Ainda lembra meu nome? Quem sou eu? Quantos dedos tem aqui? Como você se chama? Que dia é hoje? — falava Juliana desesperada e sem parar para respirar.

— Calma Ju. Eu não fui atropelado por um trem, foi só um… um… um…

— Tá vendo? Ele perdeu a memória, meu Deus. A gente não devia ter ido pra aquela festa — interrompe Juliana desesperada.

— Calma Ju. Eu tô bem. Só não sei o que me atingiu mesmo — gemeu Arthur, já que não conseguiu gritar.

— Foi uma garrafa de cerveja, algumas na verdade — disse Alice ao fundo de braços cruzados encostada numa parede afastada de todos.

— Nossa. Não acredito que uma garrafa de cerveja fez isso comigo. — surpreende-se Arthur.

— Não foi uma garrafa de cereja, foram aqueles “negões” filhos da puta com garrafas de cerveja na mão —corrige Felipe indignado com a covardia dos “armários” que espancaram ele, Eugênio e Arthur.

O celular de Juliana toca interrompendo a conversa. Juliana atende sem se retirar do quarto obrigando todos a olharem para a cara um do outro e ficarem em silêncio, tentando não atrapalhar sua conversa. Ao desligar, Juliana diz que tem que ir para casa, ajudar sua mãe a preparar as coisas para o aniversário de seu pai, Sebastião. A moça se despede de todos, dá um beijinho da testa de Arthur e se retira. Alice chateada por não receber a atenção que gostaria de Arthur, acompanha Juliana. Felipe se oferece para acompanha-las até a porta e o faz.

Segundos depois, Felipe retorna ao quarto com a pergunta:

— Aí… alguém pode me ajudar com o almoço? Eu não cozinho muito bem…

Um longo silêncio se estabelece. Arthur e Anna pareciam nem ter ouvido a pergunta de Felipe, que ainda trajava seu “avental supermacho”. Victória percebe que é a única sobrando naquela situação e, ao invés de “segurar vela”, prefere ajudar Felipe com o almoço.

Na cozinha, Victória vê o que pode fazer para ajudar Felipe a preparar a comida.

— E aí, Felipe? O que você vai fazer?

— Eu ia fazer miojo, é a única coisa que eu sei fazer. Quando eu morava só eu sempre comia fora. Todos os dias almoçava no trabalho e jantava na faculdade. Como você vai ajudar… sei lá… sabe fazer o quê? — diz Felipe se aproveitando da boa vontade de Victória.

— Ah… fala sério. Tudo bem. Deixa que eu faço essa merda, só tira esse avental ridículo.

Felipe tira o avental, que era a única coisa que o cobria, além da cueca. Quando Victória viu Felipe sem avental e apenas de cueca, fez o máximo que pode para não olhar para o corpo do rapaz, que por morar sozinho por muito tempo, achava perfeitamente normal andar seminu pela casa inteira, o tempo todo.

Felipe e Victória conversaram bastante enquanto preparavam o almoço. Victória, sempre que dirigia a palavra a Felipe, procurava olhar nos seus olhos. Por algum motivo não passou pela sua cabeça que seria melhor pedir ao rapaz que pusesse uma roupa que o cobrisse mais. Talvez ela também não quisesse isso.

Enquanto isso no quarto, Anna e Arthur se conhecem melhor.

— Você disse que não foi me visitar no hospital porque estava trabalhando. No que você trabalha? —pergunta Arthur curioso.

— Eu sou designer gráfica, lembra? Te falei isso no dia do… sabe… o dia que… — dizia Anna enquanto apontava para a própria cabeça.

— Disse? — pergunta Arthur confuso.

— Sim. Eu disse sim — responde Anna novamente.

— Bem… Posso colocar a culpa na pancada que levei na cabeça? — brincou Arthur.

— Acho que não foi a pancada, foi o que tinha dentro do objeto, usado pra te dar a pancada — disse Anna rindo.

— É… talvez… talvez tenha sido — disse Arthur rindo junto com a moça.

— E você? Trabalha? Estuda? — pergunta Anna ainda sorrindo da piada anterior e observando o sorriso de Arthur.

— Eu acabei de me formar em Publicidade e Propaganda. Eu pretendo abrir minha agencia ainda esse ano. Na verdade… tá mais para produtora — responde Arthur.

— Nossa! Que bom. Meu sonho é me formar de verdade em design. Ainda não sou formada, daí todos os meus amigos formados ficam me chamando de “sobrinha”. É um saco. Mas eu tenho que aguentar. A grana tá curta e meu trabalho não tá recompensando muito. É que… você sabe, design não dá muito dinheiro mesmo, além disso, trabalho com meu pai e ele me explora muito.

— Entendo. Família paga muito mal né?

Os dois riem muito e Anna não consegue parar de observar o sorriso de Arthur.

Sentados na cama, enquanto riem, os dois esbarram simultaneamente no olhar um do outro. Anna percebe que não era apenas o sorriso de Arthur que era charmoso, seus olhos brilhavam tanto que a moça parecia hipnotizada por eles. Sem perceberem, a distância entre seus rostos foi diminuindo consideravelmente até que um podia sentir a respiração do outro chegar suavemente em sua face.

De supetão, Victória chega no quarto interrompendo sabe-se lá o que, dizendo:

— Arthur, o almoço já tá pronto.

Rapidamente os dois se afastam e retornam aos seus lugares na cama.

— Até mais Arthur. Foi bom te rever — despede-se Anna desconcertada.

— Ué? Você não vai ficar pra almoçar com a gente? — pergunta Arthur.

— Tenho que voltar pro trabalho. Se eu chegar atrasada meu pai desconta do salário que nem recebo — responde Anna.

— Eu também vou ter que ir, Arthur. Ainda tenho que fazer os salgados para a festa surpresa do pai da Ju — explica Victória.

— Poxa. Que pena… Obrigado pela visita então, meninas — lamenta e agradece Arthur.

— Por nada. Não pensa que se livrou da gente… enquanto não melhorar, a gente vem aqui incomodar — brinca Victória.

— Que é isso… não é incomodo algum — diz Arthur educadamente.

— Até mais Arthur — despede-se Anna dando um beijinho na testa do rapaz.

Mais tarde, durante o almoço, Felipe e Arthur conversam a respeito de Anna e Victória.

— Cara… você acha que é uma fase boa pra começar um… um… alguma coisa? — pergunta Arthur com uma certa preocupação.

— Alguma coisa tipo oque, cara? — pergunta Felipe não entendendo o que o amigo quis dizer.

— Tipo… eu e a Anna. Saca? — esclarece Arthur.

— Não posso te dizer nada, irmão, mas eu acho que tentar não mata. Vai fundo.

— É verdade, mas…

— Já que você tocou no assunto. Sabe se a Victória tem namorado ou namorada? — pergunta Felipe interrompendo Arthur.

— Não. Eu acho que ela nunca teve na verdade — responde Arthur.

— Como assim nunca teve? — pergunta Felipe muito surpreso.

— Sei lá. Às vezes acho que ela é assexuada — diz Arthur sem perceber que provocava tremenda confusão em Felipe.

— Não foi o que me pareceu hoje na cozinha… Percebi que ela olhou algumas vezes pro meu…

— Precisa falar mais nada. Já entendi — interrompe Arthur.

— Mas mudando totalmente de assunto. Já resolveu aquela parada? Tipo, aquele lance dos pesadelos e tal… — indagou Felipe mudando totalmente o seu tom de voz, falando baixinho como se tivesse medo que alguém fosse ouvir, mesmo sabendo que não havia ninguém ali, além dele e Arthur.

— Eu decidi deixar isso pra lá… — diz Arthur exalando o ar de seus pulmões e abaixando a cabeça.

— Cara, eu no seu lugar, não deixava barato. Pensa bem antes de deixar pra lá. É a sua vida, e talvez a vida de outras pessoas também. — Desta vez, Felipe fala em tom de voz mais sério.

— Perdi a fome, cara. Eu vou descansar. Falou… — diz Arthur afastando a cadeira e largando os talheres sobre a mesa.

— Foi mal, cara. Eu não sabia que ainda doía tanto. Desculpa mesmo— arrepende-se Felipe.

— Tranquilo, cara. Eu só tô sem fome mesmo. Acho que é por causa daqueles remédios — explica Arthur apoiando-se nos móveis e nas paredes enquanto se retira da sala de jantar.

Horas mais tarde, enquanto Felipe lavava a louça, recebe um áudio no WhatsApp. Era Victória.

— Aí, Felipe. Salva meu contato aí, esse é meu número. Eu só tô passando pra perguntar se você quer ir na festa surpresa do pai da Ju, nessa quinta. O que acha? Se o Arthur já tive melhor, leva ele também. Acho que a Anna também vai. Até mais. Abraço.

Ninguém tem pesadelos atoa.

Ninguém guarda segredos atoa.

Deixar para lá é mesmo uma solução?

Ou será apenas mais uma forma de fugir do que nos assombra?

O segredo mata algumas pessoas enquanto deixa outras impune.

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