quanto custa o dinheiro?

Quanto custa o dinheiro? Imagine que o papel do dinheiro ou o uso do capital prevaleça como superfície de registro da objetivação de absolutamente tudo (imagine ser possível esse mundo possível, apenas). Nesse momento você começa a esquecer o caráter material, concreto e qualitativo das coisas, das pessoas, do trabalho.

Minha avó Terezinha me contou que quando era criança em Sta Margarida eles não usavam quase dinheiro. Salvo para comprar fósforos, tecido, algum utensílio de casa, das mãos de um caixeiro que regularmente subia a Zona Oeste. Minha avó tem (só) 75 anos.

Lukács faz coro com Marx: “Quando os valores de uso aparecem, sem exceção, como mercadorias, eles adquirem uma nova objetividade, uma nova substancialidade que não tinham na época da troca meramente ocasional, em que sua substancialidade originária e própria é destruída, desaparece.” Significa que a forma mercantil, e com ela o dinheiro, demoliram o antigo sistema da produção orientado pelo valor de uso, pelas necessidades contingentes e imediatas da mesa da casa do meu bisavô.

Imagine então o seguinte — agora que todas as relações mercantis foram objetivadas pelo fantasma do “valor” chamado dinheiro — , imagina que eu receba um salário 10S, e você 100S. No mundo inteiramente enfeitiçado pelo dinheiro, meu salário tem caráter alimentar, o seu salário também (embora possa acontecer para algumas pessoas nunca se depararem com essa experiência). Acontece, entretanto, que o metabolismo das relações sociais é a tal ponto fetichizado pela relação entre mercadorias, que você naturalmente pode nunca se dar conta de que um saco de feijão custa pra mim 10 vezes mais do que custaria pra você.

No mundo enfeitiçado pelo capital, e que diariamente se instaura buscando amortecer a finitude do homem que trabalha (seja na passagem de ônibus pro trabalho, no aluguel, na padaria), a desigualdade será também desigualdade do valor do dinheiro. Isso tem sentido de apontar justo para a perversão que é fantasiar a vida particular como medida universal do valor do dinheiro. Não é nada excepcional, por exemplo, tentar fazer a experiência de comparar a multidão que faz a feira de domingo com a matriarca que chega atrás da xepa da feira, na hora em que o feirante começa a separar o lixo e desmontar as barracas. Aquele desleixo público na hora de lidar com o valor do dinheiro— traço de caráter bem arraigado numa classe média urbana que gera tanta mais-valia — é um modo bem arrogante de ser complacente com as tantas formas de desigualdade social que temos inventado.

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