ninguém liga.

se você não divertir, se não entreter, se não se adequar, se não opinar, se não concordar, se não aparecer, se não comprar, se não fizer, se não doar, se não ajudar: ninguém liga.

ninguém sequer lembra da sua existência se você não confirmar presença, se confirmar e não for, se for e não interagir, se interagir e destoar, se destoar e for embora.

estar triste é feio, é desnecessário, é muita exposição. ninguém quer encarar a própria tristeza, quem dirá a tristeza do outro.

o outro deve sempre servir como exemplo, como fonte de ajuda e inspiração, deve causar inveja, se destacar. afinal, de frustrações já bastam aquelas com as quais lutamos internamente todos os dias, não é mesmo?

não é não.

absolutamente todos nós travamos batalhas diárias com a nossa própria consciência, mas é mais fácil achar que deve-se alcançar um novo estilo de vida a ter que enfrentar os monstros que habitam em nós.

MAS NÃO É ÓBVIO que se uma pessoa sumiu, nunca mais respondeu, nunca mais postou, nunca mais ofereceu ajuda é porque ela está estranha, é metida e se acha autossuficiente? não.

tem dias que eu quase consigo contar o número exato de ossos que tenho no corpo, tamanha a minha dificuldade de levantar de uma vez. preciso me sentir aos poucos, despertar parte por parte e me sentir um pouco viva.

e, enquanto levanto, amaldiçoo cada pedaço de mim por essa falta de capacidade de lidar com o peso do meu próprio corpo. com o peso do corpo, da mente e do coração.

e após tanto esforço ainda ter que encarar um espelho que endossa ainda mais aquilo de que as pessoas fogem: a feiura, a tristeza, o descontentamento, o cansaço, a indisposição, a fraqueza.

lidar com as próprias frustrações e prever as frustrações dos outros são tarefas tão desgastantes que deveriam estar nas olimpíadas.

ninguém tem a ver com seus problemas e sempre parece uma boa ideia de afastar do grupo e se resolver consigo. mas, geralmente não resolvemos nada: apenas tomamos o remédio mais forte e dormimos o máximo que podemos, pra esquecer dos problemas que jamais ousaremos tirar da gaveta.

se é chato pra você que está lendo até aqui, imagine pra quem vive desse jeito?

não me lembro de nenhuma fase da minha vida que não tenha sido assim. a diferença de uma fase pra outra são os boletos, a responsabilidade e o quanto eu ligo. os boletos, paranoias e responsabilidades crescem e as únicas coisas que diminuem são o número de pessoas que se importam de fato comigo e o quanto eu ligo.

espero ainda ter para o que ligar no futuro.

    Susana Maria da Silva

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    Nessa Terra Minha conformação De matéria É uma porção de Erros