Histórias de fantasmas

A lei que rege o afastamento de dois corpos é a lei do ghosting.

Há alguns meses atrás, uma história muito esquisita me aconteceu e colocou uma pulga atrás da minha orelha. Bom, talvez não seja tão esquisita assim pra quem enxerga de fora, mas o fato é que me deixou incomodada por várias semanas — e eu ainda sigo incomodada. Foi o seguinte: eu estava saindo há alguns meses com um cara do Tinder, uma daquelas histórias que quase fazem a gente acreditar que o mundo tem lá suas exceções e que ainda vale a pena ter essa merda instalada no celular. Nos falávamos todo santo dia, bom dia e boa noite, ele respondia todos os meus stories, curtia todas as minhas postagens nas redes sociais, mandava foto da comida, da balada, da planta, do gato e do pau. Falava de um jeito meio assustador sobre o futuro, engatando frases como “quando a gente viajar juntos” ou “no dia que você conhecer minha família”, o que me dava certo receio e ao mesmo tempo uma sensação de “caramba, já faz quatro meses que estamos saindo e nos falando o dia inteiro, talvez seja isso mesmo”.

De repente, silêncio. Sem nenhum sinal ou explicação, ele desapareceu e eu fiquei sem resposta. O único vestígio que restou foi o fato de que ele continuava sendo a primeira pessoa a ver meus stories no Instagram, mas depois de uma semana fui eu que cansei dessa patifaria e bloqueei ele de todas as minhas redes. (Aliás, leiam sobre orbiting também)

Mas isso tudo me deixou profundamente intrigada. Quando fui contar pros meus amigos, para a minha surpresa, ninguém achou estranho. Muito pelo contrário, a reação geral foi se solidarizar com o meu caso de ghosting: é foda mesmo, olha, eu também sofri um ghosting esses dias. Ah, bem-vinda ao mundo dos relacionamentos de aplicativos. Melhor nem perguntar o que aconteceu pra não parecer doida e assim por diante. Um deles me contou sobre cinco números de telefone diferentes no Grindr naquela mesma semana e todos resultaram em ghostings. Outra amiga já estava tão acostumada que nem sofria mais, então me mostrou uma lista ridiculamente grande de contatinhos pra todos os dias da semana. Um ex-namorado chegou a me contar que viajou 600 km pra encontrar em Ilha Comprida uma tal menina que conheceu na Internet e levou bolo a viagem inteira. Viajante solo por acidente, coitado. De repente, eu não sei se deveria me confortar ao ouvir estas histórias ou ficar ainda mais deprimida com a indiferença que anda pautando (não só as minhas, mas todas) as relações humanas.

Tentei me lembrar da última vez que de fato terminei um relacionamento a olho no olho. Foi lá pelo começo desse ano. Lembro que uma frase ficou especificamente marcada pra mim, e só agora eu consigo entendê-la: “acho importante essa conversa, afinal, nós temos uma história”, foi o que ele me disse. Foram dois fucking anos de história, com muitos altos e baixos, mas que incluíram algumas madrugadas em claro, viagens e planos de sair do país juntos, e ele ainda estava tentando justificar pra mim e pra ele mesmo o porquê de ter aquela conversa! Era óbvio que precisávamos sentar pra terminar, mas foi aí que eu percebi que a ideia do ghosting na verdade é o padrão dos relacionamentos, e estar terminando comigo com uma conversa decente era uma exceção à regra: a regra do ghosting.

Entender isso me fez ver o quanto a gente precisa se esforçar pra receber um “não” na cara, em um mundo tão acostumado com a indiferença. As conversas francas sobre querer ou não ficar com alguém estão se tornando um luxo de apaixonados, já que começamos a achar que qualquer coisa parecida com esse tipo de diálogo é uma afronta às nossas liberdades e um passo para um contrato de relacionamento sério. Eu até entendo que não se termina algo que não começou (tenho ressalvas, porque acho que sempre começamos algo quando nos relacionamos com alguém), mas eu realmente gostaria de poder exigir o mínimo de clareza das pessoas sem que isso fosse lido como carência afetiva ou desespero. É o mínimo.

Semana passada fui tomar um vermute com um mocinho muito querido que conheci no Tinder. Ele me contou sobre essas mesmas frustrações, falou de uma menina que conheceu semanas atrás e que resolveu bloqueá-lo justo no dia combinado do date. Desabafamos sobre os namoros anteriores, divagamos bastante sobre a liquidez das relações e as infinitas possibilidades contidas no afastamento de dois corpos. Achei tudo incrível, se não fosse por ter levado um ghosting dele logo em seguida.

Tenho vontade de burlar essa maldita lei do ghosting e perguntar o que deu errado entre nós — se é que existiu algum nós. Enquanto não crio coragem, essa história vai lentamente se transformando em mais um fantasma para a minha coleção.