Você é linda e tá tudo bem

Olhar com carinho para si faz diferença até na percepção dos registros fotográficos ou como estamos acostumados a dizer, das selfies. Recentemente fiz uma dessas fotografias com uma tímida vontade de postar, mas despretensiosa em relação a ângulos, filtros e motivações de vaidade. Nem tirei trinta fotos, só umas três hahaha.

Coloquei na internet. Olhei. Olhei de novo e percebi uma semelhança com outra fotografia revelada ainda na época da escola, naquelas ocasiões que uma fila de alunos se reúne pra fazer foto oficial com um cenário de estudante e placa indicando a série em que se está. Se você cresceu no Brasil nos anos 80 ou 90, com certeza tem pelo menos uma dessas. Na época, eu me importava com todos os fatores ignorados na última selfie, mas gostava de fotos sim. Estava disposta a participar.

Estranhei a assistente do fotógrafo mexendo no meu cabelo e o resultado ficou mais para bagunça do que apropriado para fotos segundo meus critérios capilares vigentes. É o que se chama hoje em dia de cacho sem definição ou desconstruído, acho. Os colegas de escola veriam e usariam como material para bully, pensei. Mesmo assim me submeti ao clique.

Um mês depois quando as fotos chegaram, odiei o resultado. O fotógrafo não falou “vamos tirar outra só pra garantir” depois que me clicou. O meu ângulo mais desfavorável foi exposto e eternizado naquele papel couchê com diagramação que imitava uma capa de revista. Apesar de tentar esconder a foto, um colega viu e para minha surpresa não riu de mim. Não fez piada.

Na época não entendi. Hoje entendo que até o meu coleguinha lançou um olhar carinhoso pro meu momento. Menos eu naquele dia. Praquela menina não era legítimo estar numa capa fake sendo ela mesma. Pra mulher que vos escreve é totalmente permitido. Posso dizer que existe sim um olhar amoroso pros próprios traços que fazem de cada selfie despretensiosa uma oportunidade de dizer “você é linda do seu jeito e tá tudo bem com isso”.