34

Faltava menos de um mês para completar 35.

Estava difícil dizer o que sentia em resumo, coisas sucintas, respostas.

Calçou os chinelos, vestiu uma manta, saiu do quarto às 4h30 da manhã.

Olhou o céu ainda com estrelas, entrou no grande salão, se juntou à mais de 70, que sentados, meditavam.

Passava os dias assim, apenas despertando em silêncio.

Por 10 dias sentiu uma síntese do que não poderia falar.

Cada dor em seu corpo. Na mente, era como se ouvisse vozes, os pensamentos surgiam em ápice como um filme, imagens nítidas. Pensou que finalmente enlouquecia, um dos medos lúcidos.

Estava ali para aquietar-se. Mas dentro de si se movia fuga, estar totalmente só assim com suas sensações penosas era como uma prisão.

Dor.

E a gente, aqui com essa carne, sofre muito.

Se acostuma a se confortar num reclamar, a parar quando não enxerga que ainda há um caminho.

Desacredita, desiste, sofre.

Chorou, apenas em um dia.

Aridez é quando tudo se cala.

A vontade de ir embora era mais forte que tudo, quando a solidão irrompia nos olhares que não cruzava. Quando estava em meio à tanta gente e nada se ouvia.

Às vezes me sinto assim.

Minhas escolhas, meus destinos, fé cega, cidade a se perder de vista, pessoas vão, eu parto delas, e o tudo vai ficar bem que machuca os genuinamente realistas.

Ao final do retiro, o sol se abriu como sorrisos. Tanta vontade de alegria e de compartilhar, reside ali, como sem fim.

Tantos espelhos em rios de água dentro de cada um que anda por aí buscando clareza.

Agora preciso lembrar que tudo é e sempre foi impermanente.

Que apegar-se a qualquer coisa, ideia e espaço é ilusão e sofrimento.

Que sou como todo mundo, e todo mundo é como eu sou.

E o que nos diferencia é o que move o mundo, nesse silêncio que é o que somos por dentro, quando tudo lá fora agora fala.